O incidente com a física brasileira Patricia Magalhães em Madrid

“Foi preconceito social e sexual”, diz física

Jovem ficou confinada sob a alegação de falta de documentação; brasileira estava apenas sem voucher do hotel em Portugal

Professor do Instituto de Física enviou fax à imigração no aeroporto de Madri e ao consulado brasileiro, mas não obteve resposta

Leo Caobelli/Folha Imagem
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Patrícia Magalhães deportada por autoridades espanholas

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Seria o primeiro congresso internacional de que participaria a jovem mestranda de física da Universidade de São Paulo. Estaria em companhia de alguns dos mais importantes pesquisadores do mundo na área de partículas elementares e, inclusive, apresentaria um trabalho seu. Mas não deu nada certo. No Instituto Superior Técnico de Lisboa, onde se realizou o congresso na semana passada, afixou-se um pôster com o aviso em inglês: “Patrícia Camargo Magalhães, 23 anos, mulher. Deportada para o Brasil pelas autoridades espanholas”.
Patrícia viajaria a Lisboa via Madri por uma questão de preço. “O vôo pela Iberia saía mais em conta”, diz ela. Suas passagens foram pagas com dinheiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ela tinha reservas em um hotel de Lisboa. Levava 490 euros (R$ 1.251) em dinheiro, além de cartões de crédito e material para a estadia.
Em vez do congresso, no entanto, Patrícia passou três dias presa no aeroporto de Madri. Em uma das salas em que ficou confinada em companhia de 30 brasileiros e de outros tantos venezuelanos e africanos, com apenas 9 metros quadrados e fechada por duas portas blindadas, foi obrigada a dormir e alimentar-se no chão, por causa da superlotação. Para piorar, tinha sido privada de objetos de higiene pessoal, inclusive escova de dentes.
O argumento para a “negação de entrada na fronteira”, Patrícia só conheceu na terça-feira passada, pouco antes de ser levada ao avião da Iberia que a traria de volta ao Brasil: “Carece de documentação adequada que justifique o motivo e condições relativas a sua estadia”, dizia a carta que recebeu com o timbre do Ministério do Interior da Espanha. No campo reservado para a discriminação dos documentos faltantes, entretanto, nada foi escrito.
Ao chegar a Madri, às 9h30 de domingo (10/2), pediu-se a Patrícia que apresentasse o documento de reserva (voucher) no hotel de Lisboa. Ela estava sem ele e, por isso, foi retirada da fila da imigração e conduzida para local reservado. O vôo para Lisboa estava marcado para as 11h do mesmo dia. A estudante pedia providências, mas a resposta era sempre: “Senta e espera. Se perdes o vôo, te darão outro depois”.
Depois de quatro horas, um policial apareceu com uma pilha de passaportes e foi chamando os brasileiros que iam então sendo liberados. “Percebi que todos os homens tinham sido liberados e só restaram as mulheres, em sua maioria negras e mulatas. Quando, depois de cinco horas de espera, chegou um avião da Venezuela, muitas outras mulheres se juntaram a nós”, escreveu Patrícia em um texto divulgado ontem.
O professor titular do Instituto de Física da USP, Manoel Roberto Robilotta, 60, orientador de Patrícia e que foi um dos conferencistas no congresso que reuniu pesquisadores de quase 60 universidades, tomou conhecimento do problema com sua aluna no domingo. Enviou fax para a imigração espanhola no aeroporto de Madri, confirmando que Patrícia participaria do congresso. A mesma carta enviou ao consulado brasileiro em Madri. Ele também providenciou para que o hotel em Lisboa enviasse às autoridades espanholas a confirmação da reserva da aluna. Não recebeu resposta alguma.
Bonita, 1,72 m, magra, branca, a estudante trajava jeans, botas de caminhada e blusa de lã quando chegou a Madri. “Para mim, o que aconteceu foi uma demonstração de preconceito social e sexual”, diz.
No congresso, segundo Robilotta, o constrangimento abateu os cientistas. “Sabe-se que a Espanha é destino de mulheres cooptadas por redes de prostituição, o que o governo de lá quer legitimamente combater, mas o que ocorreu com a Patrícia foi claramente preconceituoso contra brasileiros, mulheres e jovens.”
Solidário com a estudante, o físico Franco Buccella, da Universidade Federico 2º, de Nápoles, protestou: “A mãe dos imbecis está sempre grávida”.
“O congresso era a primeira reunião teórica internacional de que participaríamos para falar do nosso trabalho em torno da partícula sigma. Era nosso début e a Patrícia trabalhou duro na preparação da apresentação”, depõe Robilotta.
“Patrícia tem nossa solidariedade em face do ultraje a que foi submetida”, diz o diretor do Instituto de Física da USP, Alejandro Toledo. Para ele, além de ter ferido direitos de uma cidadã brasileira, a deportação caracteriza uma ameaça ao projeto de internacionalização da USP, que pretende ampliar o relacionamento com centros de alto nível em outros países.
Patrícia já anuncia ação contra o governo espanhol por danos morais e materiais. Também protestará contra o consulado brasileiro em Madri. “Eles não fizeram seu trabalho.”
Consulado brasileiro e setor de imprensa do serviço de imigração espanhol estavam fechados quando a reportagem tentou contato telefônico.

Retirado FOLHA DE S. PAULO

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4 respostas em “O incidente com a física brasileira Patricia Magalhães em Madrid

  1. Pingback: Estoy com la cara na chón…oh yeah! (Updated sobre o constrangimento que a Espanha nos fez passar) « Sub Rosa (flabbergasted) v.2

  2. Patricia,isto não pode mais acontecer.Será que os espanhois estão se atrazando de novo.
    O que desenvolve um paiz , é o intelecto e vocês tem que ser tratados de modo especial, sem desprezar os outros.
    Os EEUU preconceituaram os extrangeiros, perderam cérebros e ainda não perceberam o que está acontecendo lá.
    O Brasil tem muita gente na área de ciências exatas fora daquí que está nos fazendo falta.
    Patricia,por favor,estude em qualquer lugar,mas depois volte para o Brasil.

    =-=-=
    Olá, Clóvis
    Seja bem-vindo.
    A Patricia estudou no Brasil, se formou no Brasil e continuava estudando (Pós-Graduação) no Brasil. Ela ia apenas participar num Congrddo de Física, ela iria apresentar um trabalho importante, quando a impediream de entrar lá..
    Esperemos que isso não aconteça mais.
    Um abraço

  3. Olá, estamos no final de 2010 e a situaçao é a mesma. Fui “devolvida” junto com minha filha menor e mais uns quantos brasileirosm que como Patricia, estava de passagem, fazendo conexao para Portugal. Eu ia como turista, como ja fiz em outras 3 vezes, sem problema. Apresentei tudo que pediam e mesmo assim me “devolveram!. O que o governo do Brasil fez ou está fazendo para mudar essa situaçao?

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