Macunaíma, 80 anos: a revolução pela palavra

Mário de Andrade tem 33 anos em 1926 e vai passar o fim de ano em Araraquara (SP) na chácara do seu primo, Pio Lourenço Correa. Tem na cabeça, desde 1924, o personagem de um livro, Macunaíma, preguiçoso, malandro, brigão, sincero e mentiroso, e o trabalho de contar sua história leva uma semana. O livro está quase pronto; mais alguns retoques e a versão definitiva é escrita em começos de 1927 e é publicada em 1928.

Por Geraldo Galvão Ferraz, na Cult

Mário de Andrade, que sabia tudo de folclore da América Latina em geral e amazônico em particular, usa isso para basear sua criação, que seria um protótipo do homem latino-americano, mestiço (Macunaíma é preto, apesar de ser índio), em plena luta com o colonizador. Ele é também um retrato do caráter brasileiro que, num paradoxo muito ao gosto dos modernistas, surge como “o herói sem nenhum caráter”.

O crítico Wilson Martins chama Macunaíma de “o livro modernista por excelência”. Situa-o como um conto, antes do que como um romance, comparando-o a um conto oriental, em que o mágico e o lógico se misturam. Mário de Andrade pretendeu escapar das formas e das fórmulas existentes, fazendo seu herói ser intemporal e sem limites geográficos. Num prefácio inédito, escreveu que “desejava que ele não fosse nacionalista, mas sul-americano e, daí, se ter dado bem, ao substituir a própria consciência pela de um hispano-americano.”

Um aspecto evidentemente interessante de Macunaíma é sua linguagem. Mário de Andrade quis construir nele uma língua brasileira baseada no índio e no negro, mas também com a contribuição dos imigrantes, uma linguagem literária para revolucionar a arte brasileira, que na época ou usava velhos chavões do simbolismo francês ou, pior ainda, de um neoclassicismo absurdo.

Mas essa pretensão é apenas intelectual, pois nenhum brasileiro poderia falar a língua do livro, a não ser que englobasse todos os genes e as memórias dos negros, índios, imigrantes que tivessem vivido no Brasil. Porém isso não quer dizer que o livro seja totalmente inacessível ao leitor comum. Apesar da multiplicação de palavras inventadas e do aproveitamento de termos regionais, indígenas e africanos.

Começa com o nascimento do herói, “preto retinto, filho do medo e da noite”, nascido de uma índia tapanhumas. Aprende a falar aos seis anos e solta seu bordão: “Ai, que preguiça!…” É um moleque travesso, desbocado e safado. Apaixona-se então pela índia Ci, a Mãe do Mato, com quem tem um filho morto.

A própria Ci morre e Macunaíma se desespera ao perder uma pedra-talismã que ela lhe dera, o muiraquitã. Ele persegue o caminho da pedra até descobrir que fora roubada por um mascate peruano, Venceslau Pietra, o gigante Piamã, que mora em São Paulo. Macunaíma e seus irmãos Maanape e Jiguê vão no seu encalço.

A pedra é recuperada depois de muitas aventuras, mas será perdida outra vez, engolida pelo monstro Ururau. Macunaíma desiste de procurá-la e se transforma na constelação da Ursa Maior, mudando-se em algo que não servisse de nada para os homens (“um brilho.inútil lá no céu”).

Meio epopéia, meio história picaresca, Macunaíma é o texto fundamental do Modernismo, que se dirigia para seu viés antropofágico. Usa influências européias de vanguarda, mas deglute-as num texto que remete ao nacionalismo, tentando retratar um modo de ser brasileiro e, por extensão, sul-americano. Dentro da literatura brasileira é um livro único, que tem o que dizer até hoje e influenciou boa parte dos autores nesses seus 80 anos.

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