Paulinho da Viola: sofre assalto e fala sobre descrença

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Vítima de assalto, compositor reclama do “sistema viciado” e afirma que a pior sensação é a da descrença

MARIA LUIZA RABELLO
DA SUCURSAL DO RIO

Vítima de assalto anteontem na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o sambista Paulinho da Viola, 65, afirmou não ter ficado revoltado nem conformado com o episódio. Segundo ele, a sensação é pior: “uma certa descrença”.
“Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje, não falo nada porque já se falou tudo.” À Folha, o compositor afirmou que a insegurança aumentou, mas que não pensa em deixar o Rio. “Ir para onde? A pergunta é essa.” A seguir, leia a entrevista:

FOLHA – Como o assalto aconteceu?
PAULINHO DA VIOLA
– Estávamos a caminho de um restaurante para encontrar um casal de amigos. Atrás de mim vinham vários carros, eram umas 6h da tarde, tinha muita gente voltando da praia. Eu estava quase chegando no centro de Itanhangá, quando ouvi aquela freada. A uns 30 metros adiante vejo um carro parado e uns homens saindo com armas. Já sabia o que era e abaixei os vidros do carro. Falei para a Lila [mulher] ficar calma, a minha maior preocupação era com a reação dela. Até uma medalha de prata foi arrancada do meu pescoço. Era uma medalha de Santo Antônio de Pádua que eu ganhei e gostava muito.

FOLHA – Como você se sentiu ?
PAULINHO
– Sempre achei que teria uma reação de maior sofrimento, de maior angústia num momento desses. Achei que fosse ficar chateado, mas não fiquei. A minha reação foi fria e depois de tudo continuou fria. Não foi uma reação de revolta, nem de conformação, é uma coisa que ainda não consigo definir dentro de mim. Me surpreendeu também a reação daqueles que estavam no carro de trás. Tinha família com crianças e alguns pararam para oferecer ajuda, para dar um copo d’água, emprestar o telefone. Tem gente muito solidária nessas horas.

FOLHA – De forma geral, a sensação de insegurança hoje é maior?
PAULINHO
– Ah, com certeza. Isso já vem de algum tempo. São tantos os casos. Quando chegamos na delegacia tinha uns quatro ou cinco casos parecidos. Falei com o inspetor, que disse que no dia primeiro [de janeiro] talvez seja pior. Então, convivendo com isso, com todas as notícias que saem no jornal, você cria um temor, é claro. Todo mundo só fala isso [violência] e não é só no Rio. Em São Paulo, os carros blindados são comuns.

FOLHA – Quem você responsabiliza por esse cenário?
PAULINHO
– Olha, eu tenho pensado muito sobre isso e já me fizeram essa pergunta várias vezes. Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje eu não falo nada porque já se falou tudo. A gente bate na mesma tecla, é aquilo que todo mundo já sabe, tem vários especialistas debruçados sobre isso. Eu vou falar o quê? No que acrescentaria? Vou engrossar qual coro? Está tudo escancarado.

FOLHA – O que falta, então?
PAULINHO
– Faltam ações efetivas. É uma coisa mais complexa, é um quadro que vem de muitos anos, uma estrutura já instalada. É um sistema viciado de todas as formas. O que dizer quando você abre o jornal e vê, todo dia, uma parte da classe política da sua cidade envolvida em uma série de denúncias? Você vai falar o quê, para quem? Essa é que a sensação pior: uma certa descrença.
Se você perguntar qual é a solução, eu não sei. Sou um cidadão como outro qualquer. Eu leio as cartas dos leitores nos jornais, eu gosto de saber a opinião das pessoas. Tenho um samba que diz “ninguém pode explicar a vida num samba curto”. É a mesma coisa, as cartas são muito pequenas para se colocar toda a questão. Mas você percebe que há perplexidade, há um sentimento de insegurança, de desconforto, de impotência para alguns. Há quem diga que o país acabou, mas a gente sabe que não é assim.

FOLHA – O episódio te fez pensar em deixar o Rio?
PAULINHO
– E ir para onde? A pergunta é essa [risos]. Eu não tenho esse sentimento de sair daqui, gosto muita da minha cidade.

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3 respostas em “Paulinho da Viola: sofre assalto e fala sobre descrença

  1. Lendo esse ‘post’, lembrei que, há poucos dias, travei uma discussão num blog de um sociólogo da UFRJ. Ele afirmava que não existe uma guerra civil no Rio de Janeiro. Eu fui no sentido contrário, com base nos dados estatísticos: em 2007, morreu mais gente assassinada no Rio de Janeiro que em quase todas as guerras que aconteceram no mundo, no mesmo período (excetuando-se em Darfur, na África). Além disso, o volume de armas e o tipo de armamento empregado também é igual ou superior ao material bélico utilizado nos demais conflitos. Contudo, ele foi incisivo: ‘não é guerra, pois os envolvidos são, até certo, parceiros e não inimigos’. Então é isso: tem cheiro de guerra, mata mais que guerra, usa todas as armas pesadas da mais pesada das guerra, mas, para o sociólogo, por uma questão conceitual, não é guerra. Então, deve ser ‘paz’ ou, no máximo, briga de comadres! Fazer o que, não é mesmo?

    Um abraço!

    =-=-=–
    Oi, André,
    Eu não sei muita coisa sobre isso, mas só acho que não é a *terminologia correta* que vai ajudar, não é? Nem o “conceito”.
    Só sei que dá uma profunda uma tristeza. E até entendo o Paulinho da Viola falar em descrença. Ninguém que passa por um choque desse vai querer ser entrevistado, embora o Paulinho da Viola tenha respondido com a classe e a elegância e a clareza de sempre.
    Mas que isso tem de ter uma solução, ah! isso tem.
    Torcemos por isso. E para isso

    Um abraço e muito prazer em tê-lo aqui.
    Obrigadíssima. E tudo de bom!

    Meg

  2. Se o Rio (ou até o Brasil!) vive uma guerra civil… não é a questão. Paulinho da Viola, com tudo a sua elegancia, tranquilidade, parcimônia e sapiencia, disse muito; só não vê (viu) que(m) não quer! Agora, da minha “insignificante” existencia, ” desprezível” experiencia e do meu “calhorda” ponto vista, o que o nosso país precisa é de uma Guerra Civil de verdade!!!

    Longa Vida Camaradas!

  3. retificando o primeiro envio:

    Se o Rio (ou até o Brasil!) vive uma guerra civil ou não… não é a questão. Paulinho da Viola, com toda a sua elegancia, tranquilidade, parcimônia e sapiencia, disse muito; só não vê (viu) que(m) não quer! Agora, da minha “insignificante” existencia, ” desprezível” experiencia e do meu “calhorda” ponto vista, o que o nosso país precisa é de uma Guerra Civil de verdade!!!

    Longa Vida Camaradas!

    =-=-=-=
    Claudio, que é isso?
    Você tem todo o direito de dar sua opinião e tem todo o valor.
    Volte sempre.
    Um abraço
    M.

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