NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” [“Dinheiro Queimado”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do El País

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