Caetano e os políticos

05/10/2007
Caetano Veloso, músico brasileiro: “os políticos hoje parecem artistas pop”


Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

No Brasil o chamam de “o homem”. É o artista mais respeitado, o mais venerado. Uma espécie de deus musical que transcende a arte: Caetano é tudo no Brasil. E fora dele representa o país, assim como Bob Marley fez com a Jamaica, Fela Kuti com a Nigéria ou Lennon e McCartney com a Inglaterra.

Aos 65 anos, Caetano Veloso vive uma segunda, terceira ou quarta juventude. Veste-se de modo mais informal que nunca (jeans rasgados, tênis). Fala sem rodeios de sexo. E dá uma volta de parafuso em seu trabalho, aterrissando em um rock rebelde e fresco. “Cê” (Universal), seu último trabalho, é uma bofetada sonora cheia de matizes. Para o compor, gravar e interpretar, Caetano cercou-se de um “dream team” de músicos jovens, da idade de seu filho Moreno. “Tenho muito a aprender com eles”, sussurra entre risos.

O camaleão brasileiro (cada álbum é um mundo, um estilo, uma aposta de vanguarda) fala com afabilidade. Pensa nas respostas. Mede suas palavras, mas não tem papas na língua. No final deste mês dará três concertos na Espanha: Madri (dia 19), Donosti (dia 21) e La Coruña (dia 23). Além de “Cê”, a Universal lança a coletânea “Língua”, com canções de Caetano em vários idiomas (castelhano, inglês, italiano, francês).

Abaixo, a entrevista com o compositor e cantor.

Orlando Barr�a/EFE - 17.ago.2007  
Caetano Veloso diz que “Cê” é seu trabalho mais roqueiro por ser um disco de banda

La Vanguardia – Na idade em que a maioria dos artistas se assenta ou elabora trabalhos mais tranqüilos, você dá um giro roqueiro. Por quê?
Caetano Veloso –
Bem, estou no rock desde 1966. Tenho inclusive discos dos anos 80 com algo de rock. Mas este é o meu disco mais roqueiro porque é um disco de banda. Montei um grupo que participou da criação. E isso lhe dá uma atmosfera de rock, um som mais duro. Por isso é melhor ouvir “Cê” ao vivo.

LV – Pedro Sá, Ricardo Dias, Marcelo Callado, os membros de sua banda, têm entre 26 e 36 anos. Aposta nos jovens?
Caetano –
São muito bons e nos entendemos muito bem. Eles têm uma cultura musical muito grande, e não só da música de sua geração. E têm uma posição crítica muito boa. Aprendo muito com as gerações jovens.

LV – “Cê” fala de sexo, separação, dor. Nos últimos anos você se separou de Paula Lavigne e isso se reflete em algumas canções. O disco parece bastante autobiográfico.
Caetano –
Como sempre, algumas coisas. Mas nem tanto. “Não me arrependo” é totalmente autobiográfica. Outras canções, como a do orgasmo múltiplo, são pessoais. É algo que eu sempre disse: das mulheres só invejo a capacidade dos orgasmos múltiplos. Bem, já disse aqui. O sexo sempre foi muito importante para mim. Em troca, “Odeio” é uma canção mais oblíqua. Me separei. Esse assunto voltava à cabeça. Ruptura, dor, amor, o outro lado da moeda. Que vem a ser o mesmo. Gosto de excitar a imaginação para abordar esses temas pessoais.

LV – Quando você pronuncia “odeio” na canção, o faz com suavidade. Parece dizer “te amo”…
Caetano –
Sim, a canção fica mais suave. Essa é a idéia, desfazer a fronteira do amor e do ódio, que é uma película muito fina.

LV – Completam-se 40 anos do tropicalismo, movimento do qual você foi fundador. Voltaria a afirmar “sou eternamente tropicalista”?
Caetano –
É o que sinto. O que me levou até lá me trouxe aonde estou.

LV – Qual foi a grande contribuição do tropicalismo? O que o mantém vivo, de certa forma?
Caetano –
É difícil dizer. Foi um movimento multifacetado. Um comentário, feito com colagens, sobre o estado em que se encontrava a criação da música popular e a cultura de massas, no Brasil e no mundo.

LV – Qual foi sua principal conseqüência?
Caetano –
Pode-se ver até hoje em dia. Significou uma ruptura de tabus, uma abertura de portas. E desrespeitamos os preconceitos!

LV – O Brasil tem maior facilidade para romper tabus, para misturar-se, para a abertura?
Caetano –
Creio que sim. É muito misturado racialmente e é o único país da América que fala português e que em vez de se desmembrar em vários países se transformou em um país-continente. Além disso, tem a maior população negra fora da África, a segunda do mundo depois da Nigéria. Muitas desvantagens criaram uma vantagem, uma espécie de bênção.

Nascido em 1942 na Bahia e irmão de outra grande, Maria Bethânia, Caetano Veloso é um símbolo da música brasileira. Foi com Gilberto Gil um dos fundadores do tropicalismo, movimento cultural e político que misturou música tradicional e vanguarda. Devido à ditadura, Veloso se exilou em Londres em 1969. Entre suas obras, discos como”Bicho”, “Outras Palavras”, “Estrangeiro” e “Circuladô”.

LV – O Brasil tem facilidade para popularizar a música? Até a bossa nova, criada pela elite cultural, teve enorme popularidade.
Caetano –
Exatamente. Os discos mais radicais de João Gilberto foram os que mais venderam. Creio que isso acontece porque o Brasil tem algumas peculiaridades e alguns defeitos.

LV – Como quais?
Caetano –
O Brasil tem um grande déficit em cultura erudita e em escolaridade, a pior distribuição de renda da América e uma das três piores do mundo, só melhor que Haiti e Serra Leoa. Um país péssimo.

LV – O que você acha da gestão de Gilberto Gil como ministro da Cultura?
Caetano –
Quando ele recebeu o convite, eu fui contra. Agora se transformou no Lula de Lula, no símbolo de seu mandato. Ajuda a consolidar a simpatia que o mundo tem por Lula, sobretudo na Europa. Como ministro tem poucos recursos e uma boa atuação. Tem interesse pelas coisas mais modernas, distribuição, era digital, internet. Ele criou os pontos de cultura, que prestam atenção a expressões culturais minoritárias. Não é um ministério inócuo, inoperante.

LV – O que você acha de ele defender a Creative Commons como alternativa para o copyright?
Caetano –
Acho bom que ele diga isso como ministro. Até que abra seus direitos como músico. Mas parece que, como autoridade musical, está obrigando outras pessoas a fazê-lo. Deveriam proteger quem criou a obra de arte. Mesmo que seja por um período, um tempo. A arte não é um automóvel, uma geladeira. Não se pode distribuir gratuitamente uma geladeira.

LV – No concerto no Rio você criticou Lula, mas também a oposição. O Brasil leva demasiado a sério tudo o que Caetano diz?
Caetano –
Não creio. Não estou muito perto dos artistas da minha geração que dão opinião política sempre. Hoje já não se faz muito isso porque os artistas não têm tanta vinculação com a política. Em compensação, os políticos estão mais parecidos com os artistas pop, a forma como se faz política é pop. Mantenho-me à margem. Alguém disse em um blog que já não agüentava mais Caetano opinando sobre qualquer coisa. Ninguém agüenta mais Caetano opinando. Adoro que digam isso.

LV – Sua mãe completou 100 anos há poucos dias e comemorou em grande estilo na Bahia. Foi à inauguração da Casa do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, em Santo Amaro. E passa parte do ano em sua casa em Salvador. Que influência a Bahia ainda tem em sua vida?
Caetano –
Muito grande. Minha mãe vive lá, meus irmãos mais velhos. Meus filhos, netos. Tenho uma casa lá. Adoro Salvador, adoro a axé music, adoro toda a história dessa música, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Timbalada, Olodum, Illê Aiyê, idolatro aquilo. Gosto mais daquilo que de rock. A Bahia é onde eu cresci e vivo lá parte do tempo. Embora na realidade eu não seja de lugar nenhum; ninguém é de lugar nenhum.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do La Vanguardia

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