Falando a respeito da morte: Vai indo que eu já vou.

Vai indo que eu já vou
Documentário retoma debate sobre o jeito brasileiro de expressar o tabu da morte

Luiz Costa Pereira Junior

Mosaico dos personagens entrevistados no documentário: humor subverte tabu

Com a habitual clareza que caracterizava seu estilo irônico, o poeta Mário Quintana um dia notou que a morte, tão democrática na aparência, jamais igualou ninguém: há caveiras que têm todos os dentes. Para além das implicações existenciais e religiosas, a morte exerce um fascínio cultural muitas vezes inscrito na linguagem. No caso brasileiro, inscrito com graça e leveza. Que o diga o documentário Vai Indo que Eu Já Vou, de Rubem Barros e Marcelo Perez, o grande premiado na categoria DVD no Festival de Cinema de Cuiabá, mês passado.

Com elegância e ricos depoimentos, o curta-metragem traça um painel da importância dada ao tema por quem menos parece preocupado com o assunto.

A florista de cemitérios sonha com a decoração do próprio velório. A dona de casa só pensa no vestido branco que usará ao caixão, para compensar o que não pôde ter no casamento. Outra, pernambucana, descreve os enterros festivos de sua terra, em que se “bebe o morto”. O professor irlandês canta o réquiem de seu gosto. O mexicano restaurateur enumera os apelidos que sua terra natal dá à “elegante”, “gostosa”, “dama”. A vendedora dark narra o fascínio pelo lado negro da caveira e a aposentada idosa brinca com a possibilidade de comprar um mausoléu. Todos deixam de lado o pudor e revelam uma franqueza desconcertante ao lidar com o tema.

A idéia da morte tem uma carga psicológica muito própria, dizem Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no Dicionário dos Símbolos (José Olympio Editora, 1989). O documentário de Barros e Perez relembra que há um modo brasileiro de lidar com essa carga. Que a morte é sim intimidante (signo das forças negativas, a aniquilação plena, do mistério intrigante, de quem não sabe o que vem depois), mas também encarada como libertadora (por causa das penas e das preocupações que deixam de nos atormentar).

Assim, a própria forma como a nossa cultura a expressa reflete uma duplicidade de sensações – um pesar sem perda do humor – inspirada pela morte. Em O Morto Brasileiro, ensaio publicado em Tradição, Ciência do Povo (Perspectiva, 1971), Luís da Câmara Cascudo recuperou o vasto vocabulário nacional referente ao defunto, aos gêneros de morte e aos estados de agonia.

– Todas as nuanças, da piedade ao sarcasmo, aparecem, na razão direta da estima e inversa do quadrado das distâncias amistosas – escreveu o etnógrafo.

Para Cascudo, a noção vaga de que a morte é o testemunho mais antigo da igualdade humana (que Quintana questiona) nos liberaria a lidar com o assunto de forma muitas vezes sarcástica (ver quadros).

Cascudo recupera expressões históricas envolvendo a “dama branca”, como a chamava Manuel Bandeira. A mais deliciosa delas é “morte em pecado mortal”. Em tempos de fervor católico, era considerada a morte eterna, a condenação sem volta. Cascudo lembra uma passagem de História do Império, publicado em 1927 por Tobias Monteiro com gravidade pedagógica, em que um médico, amante de Dona Carlota Joaquina, escapou de ser abatido a tiros ao sair dos aposentos dela por ter D. João VI evitado o desfecho, alegando que a vítima não podia morrer “por achar-se naquele momento em pecado mortal”.

Carga psicológica

Vai Indo que Eu já Vou recupera um pouco da gravidade boa-praça com que as pessoas lidam com a idéia de morte no Brasil.

– O Vai Indo é tributário de um “cinema da palavra”. Nele, falar da morte é uma espécie de expiação antecipada do trauma futuro – diz o co-diretor Rubem Barros.

Cena de Vai Indo que Eu Já Vou: a “elegante” decora um restaurante mexicano

Barros, que também é editor da revista Educação, diz que o documentário recompõe uma idéia do filósofo Henri Bergson, de que a angústia do desconhecido, do incerto, leva o ser humano a criar formas de enfrentar seus medos. Para o filósofo, disso decorreria a criação das religiões, da própria literatura e de outras formas de arte.

– De um lado, estimulamos a reconstituição da memória individual e, por meio dela, a reconstrução de memórias coletivas. De outro, propomos que os entrevistados entrem num jogo fabulatório sobre a morte, na linha do Bergson.

Alguns dos entrevistados se encaixaram à perfeição nessa proposta. A hoje cinqüentona Sebastiana de Farias, que migrou para São Paulo com pouco mais de 20 anos, por exemplo, relembra com riqueza de detalhes os costumes do interior de Pernambuco, onde foi criada. O depoimento dela, por si só, poderia resultar num curta-metragem.

– Comprovamos que a lembrança do vivido e a fabulação do que se gostaria de viver funcionam muito melhor do que conversar sobre conceitos ligados a um dado assunto – diz Barros.

A julgar pela sua graciosidade, graça ligeira de quem saboreia até assunto espinhoso, Vai Indo que Eu Já Vou mostra a quem tem oportunidade de vê-lo ser capaz de evitar a chaga maior de toda morte: o esquecimento. Agora, é saber se chega aos cinemas.

Ditados populares

– Na casa onde tem defunto não se fecha a porta
  (velhos que andam com barguilhas desabotoadas).
– Quem se faz de morto acaba enterrado.
– Matar defunto (divulgar notícias velhas, o mesmo que “chover no molhado”).
– Defunto sem ouro, defunto sem choro.

EXPRESSÕES DA MORTE
EXPRESSÃO SIGNIFICADO
Abotoou o paletó de madeira – Fechou-se no caixão.
Bateu a bola – O derradeiro movimento lúcido:
“bola” é cabeça, crânio, quengo.
Bateu as botas –  Para iniciar a jornada a cavalo.
Bateu a caçoleta – Caçoleta é fuzil de espingarda antiga, uma provável alusão à freqüência de mortes por assassinato no Brasil.
Bateu o cachimbo — Os vícios morreram.
Está na Terra dos Pés-juntos! – Alusão ao hábito de atarem os pés do defunto com um lenço, para impedir que, na rigidez cadavérica, se conservem as pontas dos pés viradas para fora.
Foi para o Buraco de Camundá – O escravo Camundá teria inaugurado o cemitério de Pendências, hoje cidade do Rio Grande do Norte.
Lascou-se –  Desfez-se.
Esticou os cambitos  – Cambito é a perna fina e também uma espécie de forquilha da canga com que se prendem os animais de um carro de boi.
Morte de Mau-sucesso –  Morrer de parto.

(Retirado de  REVISTA LINGUA PORTUGUESA – Assinatura pessoal

Créditos todos da Revista e do Autor.

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