“Quem não sabe falar de sexo não deve escrever”

Escritor inglês Ian McEwan lança no Brasil o romance “Na Praia”, em que descreve a noite de núpcias fracassada de jovem casal

Romance retrata ambiente moral da Inglaterra no começo dos anos 60, antes do turbilhão de transformações que aconteceria até o final da década

“The New York Times”
Ian McEwan, que terá dois romances levados ao cinema

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

O poema “Annus Mirabilis”, do britânico Phillip Larkin (1922-1985), é tido como a mais completa tradução do clima de repressão sexual em que vivia a Inglaterra no começo dos anos 60. No ar, era possível apenas pressentir, de modo tênue, as imensas mudanças sociais, culturais e políticas a que o Ocidente assistiria até o fim dessa década revolucionária.
De 1967, o texto dizia: “O intercurso sexual começou/ em mil novecentos e sessenta e três/ (tarde demais para mim)/ entre o fim da proibição de “Lady Chatterley’/ e o primeiro disco dos Beatles”. Explique-se. “O Amante de Lady Chatterley”, obra mais famosa de D.H. Lawrence (1885-1930), contava as aventuras sexuais da mulher de um aristocrata impotente com o empregado da residência do casal.
Considerado imoral, o livro, apesar de escrito em 1928, só foi liberado em 1960. Nesse meio tempo criou-se um fervilhante mercado negro, em que cópias clandestinas eram disputadas pela juventude, curiosa pelas cenas de sexo explícito. Já o primeiro disco dos Beatles dispensa apresentações. Trata-se de “Please Please Me” (1963) -das bonitinhas, mas safadas “Love Me Do” e Do You Want to Know a Secret”.
Pois é neste ambiente de transição entre repressão e abertura moral, em que o sexo livre era apenas uma sugestão anunciada com a promessa da chegada da pílula anticoncepcional, que se passa o mais recente romance de Ian McEwan, “Na Praia”, que chega agora às prateleiras do Brasil. O escritor britânico conta que evitou mencionar o poema de Larkin. “Eu ia usá-lo como epígrafe, mas desisti, pois achei que seria muito óbvio.” Acabou pagando o preço, pois quase todas as resenhas e reportagens que saíram sobre o livro não conseguiram descrever o período de um outro jeito.
“Decidi que ia dar dez libras para o jornalista que conseguisse não falar do poema. Até agora, ninguém ganhou, nem você”, disse, rindo, à Folha. Na entrevista feita por telefone, de Londres, McEwan, 59, disse que D.H. Lawrence é mesmo um de seus inspiradores. “Li “Lady Chatterley” quando jovem. Sua liberação, em 1960, mostrou que uma mudança nos costumes estava para vir, mas ninguém imaginava que seria algo tão explosivo. O fim da proibição do livro foi o começo do fim de uma era, de um modo de pensar. Estávamos vendo todo um establishment começar a desaparecer.”

Noite de núpcias
“Na Praia” narra um episódio de poucas horas, no ano de 1962. Começa com o jantar de núpcias entre os recém-casados Edward e Florence, ambos virgens e de 22 anos. Os jovens estão num hotel de uma praia inóspita, iniciando sua lua-de-mel. O romance evolui durante a longa e trágica tentativa de ambos de, finalmente, fazerem sexo pela primeira vez. “Ser jovem naquele tempo ainda era um problema, e não algo abençoado como é hoje.
Todo mundo queria ser mais velho, ser levado a sério. Assim, casar e atravessar a noite de núpcias era um sinal de que, enfim, a maturidade chegara.” A Inglaterra vivia os últimos momentos antes de ver homens com cabelos compridos e meninas de minissaias nas ruas. “Edward e Florence teriam inveja do que iriam assistir nos anos seguintes, mas, infelizmente, estavam para trás no relógio da história.”

Sexo no papel
Enquanto Edward e Florence estão preocupados em tentar transar, o romance volta no tempo em flashbacks que contam a história de cada um. Ele, um estudante de história que cresceu num lar marcado pela dor, por conta dos problemas mentais da mãe. Ela, uma moça superprotegida, que se dedica a tocar violino com paixão.
Descrever um ato sexual no papel não é fácil, e fazê-lo ao longo de 130 páginas torna a tarefa ainda mais espinhosa. “Todo escritor deve em algum momento tentar mostrar que pode escrever uma cena de sexo. É difícil. Mas se ele não puder fazer isso, deve simplesmente procurar outro emprego.” Para McEwan, o sexo é um tema tão incontornável que desconfia de um romance que não o tenha como chave. “É algo tão central na existência humana que, se não falarmos desse assunto, vamos falar do quê?
Podemos optar se o sexo será trágico, cômico, bonito, louco, mas não se ele deve estar presente ou não. Assim como é o sexo que define uma pessoa na vida real, é também o que dá legitimidade a um personagem.” No Reino Unido, por sinal, há um prêmio chamado “Bad Sex Awards” que seleciona as piores cenas de sexo de romances lançados a cada ano. “Eu não ganhei… ainda”, ri McEwan.
“Mas acho bom que o prêmio exista, ajuda os escritores a andarem na linha”, conclui.

Pedrinhas
A carreira de McEwan é marcada por pequenas polêmicas -que certamente o ajudam a vender mais livros. Em mais de uma ocasião, foi acusado de plágio. A mais recente foi a acusação de ter roubado passagens do livro de uma autora de romances de guerra, Lucilla Andrews, já morta, para compor “Reparação” (2001). Em todas elas, foi posteriormente inocentado. Mas a dúvida sempre paira e é sempre lembrada pela imprensa.
No ano passado, surgiu um irmão até então desconhecido do autor, que, ainda bebê, havia sido dado para adoção pela mãe de McEwan. Agora, a sarcástica mídia britânica está se divertindo com o fato de que o escritor foi denunciado por ter levado para casa algumas pedrinhas da praia de Chesil, onde fez pesquisas para ambientar “Na Praia”.
“Eu contei, num programa de TV, que tinha levado as pedrinhas para casa por curiosidade, porque elas são diferentes das de outras praias daqui. Alguém ouviu e telefonou para as autoridades locais, que por sua vez me contataram e pediram que eu as devolvesse. Senão, eu teria de pagar uma multa de 2.000 libras. Uma penalidade que, na minha opinião, só deveria ser aplicada para quem chega ali com grandes caminhões.” A partir daí, o caso virou uma grande história para os jornais. E McEwan teve de levar as ditas pedrinhas de volta para a praia. “Foi ridículo. Mas certamente fará bem para aumentar o turismo local.”


NA PRAIA
Autor:
Ian McEwan
Tradução: Bernardo Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 33 (136 págs.)

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