Ronald Numbers

Seleção natural

Principal historiador do criacionismo, Ronald Numbers diz que movimento cresce em todo o mundo e fala também da exposição sobre Darwin em SP

ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO

A escola básica é a principal frente de uma guerra global: a das visões de mundo evolucionista e criacionista. A primeira, herdeira do cientista britânico Charles Darwin (1809-82), carrega o estandarte da ciência estabelecida; a segunda, de tradição religiosa, reage no campo político e cultural -incluindo argumentos científicos- para retomar o imaginário popular.
Para o historiador da ciência Ronald Numbers, essa disputa -entre ensinar, respectivamente, que o homem descende de outros animais ou que o homem foi criado por Deus- apresenta uma agressividade desnecessária.
“Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião”, diz.
Professor na Universidade do Wisconsin, em Madison (EUA), Numbers lançou em novembro uma edição atualizada de “The Creationists” (Os Criacionistas, Harvard University Press, 624 págs., US$ 21,95, R$ 48), em que fala da expansão do criacionismo e do design inteligente, teorias opostas ao evolucionismo.
Para ele, o conflito não deriva de uma divisão dentro da comunidade científica, mas de pressões políticas das instituições -religiosas e científicas.
Em entrevista à Folha, ele também comentou a exposição sobre Darwin em São Paulo e a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última segunda, que classificou o aborto como questão de saúde pública.

 

FOLHA – Qual sua opinião a respeito da mostra, organizada pelo Museu de História Natural de Nova York, sobre Charles Darwin [no Masp até 15/7]?
RONALD NUMBERS –
Participei da inauguração da exposição em Nova York. Acho que é uma introdução muito boa ao darwinismo, uma tentativa de mostrar seu pensamento, apresentando as evidências usadas por ele para desenvolver sua teoria.

FOLHA – Há disputa entre essas evidências e aquelas que sustentam o ponto de vista criacionista?
NUMBERS –
Simplesmente: não há evidências para o criacionismo. A criação foi um evento sobrenatural de Deus, portanto não dá para encontrar indícios dela.
Muito das chamadas “provas” do criacionismo são tentativas de associar os registros fósseis a um período muito curto, como o ano da inundação universal. Eles tentam excluir o fator tempo, de que os evolucionistas tanto precisam.
E estão claramente errados.

FOLHA – Acha que o conflito entre ciência e religião cresceu ao longo dos últimos anos?
NUMBERS –
Não acredito que haja um conflito inerente à relação entre a maior parte da ciência e a maior parte da religião. É claro que um cristão literalista, aquele que acredita que o mundo foi feito em seis dias, não pode aceitar a evolução.
A maioria dos cristãos e judeus -acredito que os muçulmanos também podem fazê-lo- arranjaram formas de acomodar seus ensinamentos na ciência. Contanto que eles não sejam materialistas e que os cientistas não digam que Deus não existe.

FOLHA – O design inteligente representa essa acomodação? Como define essa teoria?
NUMBERS –
Não há definição oficial. Muitos leigos a vêem como uma forma de teologia natural: “Tal coisa é complexa demais para ter sido feita pelo acaso”. Mas os líderes do movimento negam veementemente fazerem teologia natural.

FOLHA – Qual é o fundamento?


NUMBERS –
A “complexidade irredutível”, ver que um organismo na natureza é tão complexo que não poderia ser explicado em termos evolucionistas, pois certas características teriam de surgir todas ao mesmo tempo. O designer seria Deus. Para a maioria dos cientistas, “dê-nos mais 50 anos e nós explicaremos”.
O revolucionário, para a comunidade do design inteligente, é aceitar o sobrenatural dentro da ciência. Eles dizem que a escolha, feita há mais de 200 anos, de não apelar a Deus ou ao Diabo ao fazer ciência, é arbitrária e deveria ser rejeitada.
Estão desafiando uma regra básica da ciência: “Deus pode até ter feito a coisa, mas tentaremos interpretá-la naturalmente”.

FOLHA – E essa seria a nova moda, em lugar da “geologia do Dilúvio”?
NUMBERS –
Errado. O apoio aos criacionistas, geólogos do Dilúvio ou seja qual for o nome continua muito grande. É que eles não têm nada de novo a apresentar, ou melhor, só um novo museu criacionista de US$ 27 milhões [cerca de R$ 55 milhões] a ser inaugurado na região de Cincinnati [o Creation Museum, com abertura prevista para junho].

FOLHA – Recentemente, o presidente Lula se referiu ao aborto como “questão de saúde pública”, com forte reação dos religiosos. Como um governo deve tratar esse tema? Como ocorreu nos EUA?
NUMBERS –
Sou democrático o bastante para acreditar que as pessoas deveriam ter o direito de expressar suas vontades; as preocupações devem ser ouvidas, mas não acredito que as igrejas deveriam ditar a política.
A Suprema Corte dos EUA decidiu [em abril] que os Estados terão o direito de elaborar leis contra o “aborto com nascimento parcial” [técnica abortiva realizada com a gravidez avançada, geralmente no segundo trimestre de gestação]. Não sei se isso é o início de uma onda de leis antiaborto. Aborto e evolução são assuntos que dividem os EUA.

FOLHA – Assim como a eutanásia, certo?
NUMBERS –
A eutanásia não chama tanto a atenção. As pessoas ignoram o assunto até que haja casos judiciais de importância. Os jornalistas é que criam esse conflito entre ciência e religião.

FOLHA – Como lidar com esse conflito, especialmente nas escolas?
NUMBERS –
No Reino Unido não há proibição constitucional ao ensino de religião em escolas públicas; nos EUA isso existe desde a fundação, e as escolas dos EUA deveriam ser neutras em termos de religião.
Contudo pessoas como [o biólogo] Richard Dawkins, para quem a evolução é inerentemente ateísta -a mesma coisa que os religiosos vinham dizendo-, correm o risco de ver os religiosos quererem proibir o ensino do evolucionismo porque não seria, então, religiosamente neutro. Isso é perigoso.

FOLHA – Então pessoas como Dawkins põem lenha na fogueira?
NUMBERS –
Sim, eles dão a deixa para os criacionistas. “Vocês, criacionistas, têm razão: a evolução é ateísta”.

FOLHA – Acha que a comunidade científica deve se preocupar com esse conflito ou há exagero?
NUMBERS –
É causa para preocupação. Há uma controvérsia, sim, mas não dentro da comunidade científica. Diferentemente do que afirmam certos jornais, o número de criacionistas praticando ciência é ínfimo. A comunidade não está dividida. Fora da comunidade científica, sim: nos EUA, cerca de dois terços da população preferem o criacionismo ao evolucionismo.

FOLHA – Que acha da política francesa de proibir o uso ostensivo de símbolos religiosos nas escolas?
NUMBERS –
Acredito na livre expressão das crenças religiosas.

FOLHA – Isso não interfere na aquisição de conhecimento?
NUMBERS –
Não nos EUA. Não temos tantos muçulmanos nas universidades, mas eles têm liberdade para se vestir como quiserem, há os budistas em suas roupas cor de laranja… Banir os símbolos religiosos seria, nos EUA, atropelar os direitos dos alunos.

FOLHA – Entre os cientistas, há mais religiosos, ateístas ou agnósticos? Quem tem mais voz?
NUMBERS –
Um ex-aluno meu fez uma pesquisa anos atrás com cientistas dos EUA: cerca de 40% acreditavam num deus que atende a preces e provê uma vida após a morte. É uma concepção robusta de Deus. Outros tinham uma noção mais vaga.
Quanto mais alto o escalão, menos se acreditava em Deus -aparentemente, quanto mais famoso é o cientista, menos ele precisa de Deus.

FOLHA – O que mudou na nova edição de “Os Criacionistas”?
NUMBERS –
Acrescentei dois capítulos: uma história do movimento do design inteligente e um capítulo chamado “O Criacionismo Torna-se Global”.
Muita gente, especialmente Stephen Jay Gould [1941-2002], enfatizou quão norte-americano sempre foi esse movimento, a ponto de o resto do mundo não ter de se preocupar.
Mas nos últimos 15 anos, o antievolucionismo se espalhou -até no Brasil: já ouviu falar de dois governadores antievolucionistas no Rio de Janeiro? [alusão aos protestantes Rosinha Matheus e Anthony Garotinho, do PMDB]

FOLHA – Em que outras frentes os criacionistas têm ganho terreno?
NUMBERS –
Na América Latina, na África subsaariana, na Austrália… A maioria dos cristãos não aceita a evolução, mas antes eles não a combatiam. Na Ásia, um dos grupos antievolucionistas mais fortes está na Coréia do Sul.
Há cerca de dois anos, a ministra da Educação da Holanda [Maria van der Hoeven, atual ministra da Economia] sugeriu o ensino de design inteligente nas escolas, com o intuito de unir cristãos, judeus e muçulmanos.
E isso é só entre os cristãos. Entre os muçulmanos, o maior grupo antievolucionista é liderado por Harun Yahya, pseudônimo de Adnam Otkar, cujos livros já foram distribuídos para vários países. Há também o grupo judeu que criou a Torah Science Foundation, que mistura criacionismo e cabala.

FOLHA – Acha que os estudos sobre o genoma podem ditar as teorias que serão privilegiadas nos próximos anos?
NUMBERS –
Creio que não. Teremos a mesma diversidade. Suponha que se confirme que não há grande diferença genética entre macacos e humanos. Os evolucionistas dirão: “É claro, nós saímos dos macacos”. Mas os criacionistas dirão: “Não admira, é o mesmo criador”

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