o leitor comum

Contra o esquecimento

Em “O Leitor Comum”, a inglesa Virginia Woolf analisa grandes autores, como Defoe e Conrad, e explica como ler um livro

RONALDO CORREIA DE BRITO
ESPECIAL PARA A FOLHA

A impressão que fica de “O Leitor Comum”, livro de Virginia Woolf, publicado pela Graphia, é a de que a escritora encadeia os seus textos buscando alcançar um público que se diferencia do crítico e do professor.
Ela começa com um ensaio curtíssimo, quase um prólogo, que se ocupa de uma frase de Johnson: “Agrada-me concordar com o leitor comum”; e fecha com um ensaio mais longo sobre como se deve ler um livro, dizendo: “O único conselho, de fato, que uma pessoa pode dar à outra sobre o ato de ler é não seguir conselho nenhum, seguir seus próprios instintos, usar suas próprias razões, chegar a suas próprias conclusões”.
Em ensaios em que louva Jane Austen, Defoe, Conrad, Hardy, Scott e outros, o tema do leitor e do crítico aparece sempre.

Há quase a sugestão de que uma obra deve possuir clareza e ser escrita para agradar aos leitores; e de que o autor deve contar a verdade sobre si mesmo, revelando-se. Mas é quando escreve “Como atacar um contemporâneo” e “Ficção moderna” que Virginia Woolf mostra um lado belicoso que não é fácil reconhecer em seus romances e contos.

Crítica contraditória
Ela ataca a crítica -“resenhistas nós temos, mas não críticos”-, achando-a contraditória na avaliação dos contemporâneos, nunca coincidindo nas opiniões, mas emitindo os mesmos comentários generosos sobre autores mortos e consagrados.
Nem é preciso ler o subtexto do livro para descobrir as preocupações da autora. Ela busca o reconhecimento do lugar que ocupa na moderna literatura inglesa.
Sempre que pode é generosa e condescendente com seu tempo e com o esforço de escrever: “Nenhuma época pode ter sido tão rica quanto a nossa em escritores determinados a expressar as diferenças que os separam do passado e não as semelhanças que os conectam com ele”.
Embora, poucas linhas adiante, mergulhe no pessimismo: “Livro após livro nos deixam com a mesma sensação de promessa malograda, de pobreza intelectual, de brilho que foi roubado da vida, mas não transmutado em literatura”.

O autor e sua obra
E, como leitora apaixonada, também aponta defeitos nos autores que ama, para mais adiante reconhecer nesses mesmos defeitos as qualidades que os consagraram.
Todos os ensaios discorrem sobre a permanência e o esquecimento dos livros. E sobre o leitor, o único capaz de mantê-los vivos, por meio da leitura.
Virginia Woolf temia o esquecimento a que tanto se refere. Insiste na crença do autor na sua obra: “Basta acreditar, nos surpreendemos a dizer, e tudo o mais virá por si mesmo”.
Parece aceitar um lugar menos privilegiado na história: “[…] seria sensato aos escritores do presente renunciar à esperança de criar obras-primas”. E um pouco mais esperançosa: “É dos cadernos do presente que as obras-primas do futuro são feitas”.
Sentimos que “O Leitor Comum” foi escrito por uma leitora apaixonada, que também era romancista.
Existe um quase-enredo entremeando os capítulos, o amor aos livros e seus autores e um incitamento permanente ao ato de ler. Amor irrestrito não apenas ao que foi consagrado mas também ao que desponta.
Insegura, talvez, quanto ao futuro do que escrevia, Virginia Woolf condescende: “Toda literatura, à medida que o tempo passa, tem seus montes de entulho, seus registros de momentos findos e vidas esquecidas contados em tom vacilante e medíocre que se deterioram.
Mas, ao se entregar aos encantos da leitura de certas tolices, pode-se se surpreender, ser deveras conquistado, pelas relíquias da humanidade que foram banidas do que se considera modelo”.
“O Leitor Comum” é uma relíquia que nos conquista.

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