imagens e palavras

Sob o domínio da imagem
Especializado em reduzir idéias a frases curtas, o intelectual se converteu em “mais um profissional”

LUIZ COSTA LIMA
COLUNISTA DA FOLHA

Há pouco mais de uma década deu-se entre nós a reaproximação do intelectual com a imprensa cotidiana. Em um país que custou a implantar o ensino universitário, o jornal havia sido o veículo de aprendizagem dos que queriam aprender a escrever.

A convivência durou enquanto foi de bom-tom que os periódicos tivessem um suplemento literário. Durante o regime militar de 1964, foram eles progressivamente desaparecendo.
A reaproximação, no início da redemocratização, tinha não só uma motivação política: ante o insulamento das universidades, o intelectual, convertido em professor, encontrava nos jornais uma maneira de retomar o contato com o público em geral e de intervir no debate potencialmente nacional.
Quem pesquisar as coleções dos jornais mais importantes do país verificará que os chamados suplementos de cultura têm, cada vez mais, menos páginas e deixado de contar com muitos nomes que ainda há pouco os freqüentavam.
Assim não sucedeu porque as universidades aumentaram postos e encargos ou melhoraram suas condições salariais. Tampouco porque se ampliou o leque de profissões.
Em vez de postular uma única razão para a drástica redução do intelectual nos jornais, é mais fecundo expor alguns atalhos passíveis de serem desenvolvidos.
Para isso, lançarei mão de duas abordagens, que têm em comum apenas não tocarem no problema que aqui focalizo.

Exploração midiática
Da primeira foi responsável Jürgen Habermas, cujo texto este caderno traduziu e publicou um resumo.
Em “O caos da esfera pública” (Mais! de 13/8/2006), Habermas caracterizava o perfil do intelectual que se firmara a partir do Iluminismo e estivera presente até aos anos próximos ao fim da Segunda Guerra: “Seu mundo é o de uma cultura política da contradição, em que as liberdades comunicativas dos cidadãos podem ser desencadeadas e mobilizadas”.
A intervenção do intelectual embaraçava a formação de homogeneidades inertes e estáveis, sempre bem-vistas pelo poder político. Em seu lugar, a intervenção do intelectual introduzia uma nota de dissonância.
Como exemplo modelar, considere-se a manifestação de Hannah Arendt quando do processo contra Adolf Eichmann, um criminoso de guerra.
Para quem conhecia o papel desempenhado pela judia emigrada no debate sobre o pensamento político da modernidade ocidental, deverá ter sido surpreendente sua crítica contra a conduta do Estado de Israel, desenvolvida nas 300 páginas de seu “Eichmann em Jerusalém” (1963, revisto e ampliado em 1965 e publicado no Brasil pela Companhia das Letras).
O fato de que o capturado era um réu confesso não justificava a exploração midiática de seu processo; ao contrário, por ele se cumpria a “banalidade do mal”.
Arendt preferia desgostar irmãos e aliados do que deixar de levar a sério seu papel de pensadora política.
O mesmo poderia ser dito da campanha de Noam Chomsky contra a “guerra santa” movida pelo presidente George W. Bush contra o Iraque. Limitemo-nos, porém, ao argumento de Habermas: com a propagação da TV, o modelo do intelectual foi corroído: “A televisão convida (seus) participantes à representação de si mesmos”.
O intelectual tende então a se tornar um ser performático. Em vez de argumentos, especializa-se em fazer “caras e bocas”; em converter idéias em frases curtas, irônicas e picantes.
O “iconic turn”, o primado da imagem visualizada, afetou-o profundamente. E deu lugar a um híbrido curioso: um certo jornalismo “cultural”, que mistura fofocas da sociedade com declarações bombásticas sobre livros, filmes e exposições.
O intelectual converte-se em mais um profissional, dissemelhante em absoluto de seu modelo passado.
Mas como se manifesta o intelectual transformado em profissional?
É evidente que, para sua caracterização, não basta considerar sua participação na rede midiática, pois ela é bastante pequena. É na sala de aula, nos seus artigos ou livros que ela se expressa.
É tendo em conta sua presença aí que podemos dizer: a conversão do intelectual em profissional se dá pela redução de seu interesse, dentro do campo em que se especializou, a uma área bem restrita; seja um tema, um autor ou um período.
Nem pensar que lhe interesse desenvolver uma reflexão teórica sobre sua especialidade.
É aqui que importa a reflexão do físico teórico Freeman Dyson (“The world on a string”, O mundo em uma corda, “New York Review of Books”, 13/5/2004). Dyson discute o estado da física contemporânea.

A vocação intelectual
Segundo expõe, duas teorias hoje convivem: a relatividade geral que vigora para os grandes objetos (como o sistema planetário) e a mecânica quântica, para os pequenos.
Não seria desejável unificá-las, ainda mais que, do ponto de vista da demonstração matemática, são entre si contraditórias?
Os defensores da unificação, alcançável por uma teoria que abrangesse as anteriores, aspiram a que a física passe a conter um conjunto finito de equações, que serviriam de base para as outras ciências da natureza.
Embora Dyson reconheça que as teorias vigentes se contradizem mutuamente, não embarca na busca da unificação, seja porque não vê como matematicamente consegui-lo, seja porque lhe parece de muito maior relevância acentuar a importância de que a investigação científica mantenha duas direções, a analítica e a sintética.
A analítica “reduz fenômenos complicados a seus componentes mais simples”; a sintética, ao contrário, “constrói estruturas complicadas a partir de suas partes mais simples”.
Por minha conta, acrescento: a preservação do analítico e do sintético é fundamental para toda e qualquer atividade que se pretenda intelectual.
Assim, em vez de concorrer com os profissionais performáticos ou de se acomodar a um nicho que o cega para a compreensão do campo em que se diz especialista, o intelectual manteria a possibilidade de optar ou por um caminho mais prático -o analítico- ou por um mais reflexivo e interrogador.
Quando então interviesse no debate público, o faria não como “profissional” ou de acordo com o figurino midiático, senão como alguém que atende a sua “vocação”. Onde essa desaparecer, o caminho estará aberto para uma sociedade de autômatos. Será o nosso caso?

LUIZ COSTA LIMA é crítico e professor da Universidade do Estado do RJ e da Pontifícia Universidade Católica (RJ). É autor de “História, Ficção, Literatura” (Companhia das Letras).
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