Cynthia Feitosa – Osmair na área

Nem vou subtrair o tempo que vocês têm para ler, com a querela a respeito de “falar em escrita feminina é igual a diminuir a autora com um rótulo que a diminui etceterrá e coisa e tal”.
Faço mais que isso, apresento uma escritora (com toda a pompa do termo quando é verdadeiro como atributo) e lhes mostro um humor da mais alta qualidade. Extremamente bem escrito, eficazmente cheio de “graça”. E, muito importante, eu não conheço a autora!
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TE CUIDA, HOMAIADA. OSMAIR NA ÁREA.

Eu adoro supermercado. Assim como a Carol, sou capaz de ficar horas olhando as novidades, apreciando as embalagens, escolhendo entre duas marcas, lendo todos os ingredientes, nutrition facts e prazos de validade, enchendo meu carrinho de coisas essenciais, ligeiramente úteis e muito supérfluas várias vezes por semana, na maior alegria.

Em compensação, odeio passar nos caixas. Odeio muito. É que, assim como nove entre cada dez donas-de-casa conscientes – e o Artur (hohoho) -, eu também tenho minhas manias quanto a compras de supermercado : tudo deve estar separado em grupos, porque eu não misturo produtos de limpeza com alimentos no mesmo saquinho, nem coisas quebradiças e/ou amassáveis com latas e outros pesos-pesados (duh). Por isso, tenho também toda uma ordem para entrada no carrinho, no porta-malas, no carrinho do prédio e… ai meu Zeus, fico cansada só de descrever. Como aparentemente os supermercados aqui (com exceção do Pão de Açúcar, de uma rede local e de um pequeno empório que tem uns importados legais e os melhores hortifruti da cidade) só contratam gente que odeia trabalhar, detesta os clientes e faz questão de tratar mal a quem quer que passe pelo seu caixa, este é sempre um momento de stress pra mim. Tenho que escolher entre tentar bancar a “polva” em fast-motion – pra não deixar que eles joguem engradados de latinhas de refri em cima das torradas nem caixas de leite sobre frutas e verduras que eu levei um tempão pra escolher, não deitem os frascos de alvejante (que sempre vazam, os malditos) – ou já engrossar logo de cara, com um “Pára essa esteira aí um minuto, que cê tá quebrando e amassando minhas compras”. Funciona, mas é chato. Tentar falar isso com educação e jeitinho não adianta nada, podem acreditar. Além de tudo, a lei de Murphy, infalível, garante que eu sempre entrarei na fila do caixa que está em treinamento, ou cuja bobina acaba de acabar e ele não sabe trocar, ou o cliente imediatamente à minha frente é um chato de botas de alpinista, que quer dividir as compras entre cartão de crédito, cartão do super, dinheiro e cheque, ou exige que tirem dois centavos de um produto que o concorrente estava vendendo por um centavo a menos, enfim, sempre tem alguma coisa pegando.

Por isso, ontem, ao sair do trabalho já com preguiça, na hora de passar no caixa eu tava quase chorando só de tentar adivinhar qual seria o imbróglio da vez. Entrei na primeira fila, bem vazia, e vi uma perua-bruxa que é minha vizinha de prédio, com tudo já empacotado mas ainda criando caso com o caixa, que ficava com aquela cara de ônibus enquanto os minutos iam passando. Resolvi me arriscar e saí olhando as filas nos outros. Aí vi um vazio, que a operadora acabava de abrir. Perguntei pra ter certeza, e quando ela miraculosamente disse que tava funcionando sim, comecei a colocar as compras na esteira. Quando levanto a cabeça, a menina tinha sumido e sido substituída por um rapazinho, com o fone, cotoveleiras e uniforme de patinador. “Tapa-buraco”, pensei, “isso vai ser uma merda”. Mas aí o garoto foi passando minhas compras na ordem certa, sem jogar nada, dando pausas aqui e ali pra esperar que eu ensacasse e tirasse produtos do caminho antes de passar mais, pousando os hortifruti com carinho de mãe viúva botando o filho único no berço, e ainda achou tempo pra dar atenção a uma colega que queria ajuda pra passar um cartão de crédito manualmente – e não, ele não disse “sei lá”, disse “olha, eu nunca fiz isso, mas será que não é assim ? Vê com fulaninha que ela sabe”, e também não parou meia hora de me atender pra fazer isso. Quando acabei de empacotar tudo e passei o cartão de débito, ele ainda brincou “Olha só, você ganhou um desconto de 97 centavos !”, sorrindo, mas logo corrigiu, cuidando da imagem da empresa, com um “deve ser por causa dessa promoção de + um centavo”. E deu boa-noite como se realmente quisesse que eu tivesse uma noite boa, olha só. Saí de lá totalmente encantada.

Ele não era um príncipe núbio, um deus de ébano, um supergato musculoso com 800 dentes superbrancos em cada arcada, era só um menino magrelo e comum, com um nome feinho e um sorriso bonito, uma aura zen e uma educação e consideração naturais, não forçadas por treinamento e dinâmica de grupo, do tipo que a gente não anda encontrando nem entre pessoas com quem trabalha e convive todo dia. Mas eu fiquei apaixonada por ele. E torço muito pra que, por mais que ele seja o melhor caixa do mundo, não fique nisso por muito tempo. Espero que consiga empregos muito melhores e bem-pagos que este, que sua delicadeza seja premiada e não motivo de chacota nem razão pra que se aproveitem dele, e que ele nunca perca esse jeito doce e tranqüilo.

Se eu não fosse casada com o melhor homem do mundo, e se o menino não tivesse 20 anos e trinta quilos a menos que eu (e, convenhamos, se estivesse minimamente interessado), teria ganho uma mulher sem fazer a menor força. Portanto, homens que tratam suas mulheres com casca e tudo, que acham que têm justificativas biológicas, históricas, psicológicas ou besteirológicas para tanto, cuidado. Pode ser que um dia elas tenham que ir ao supermercado e ele esteja lá, no caixa, gentil, atencioso, tranqüilo. Osmair na área.

Escrito por Cynthia às 10h03 – de 10/03/2006
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