A dança das palavras


O historiador discorre sobre o congelamento e a transfiguração do sentido na língua portuguesa

BORIS FAUSTO
COLUNISTA DA FOLHA

O professor [e crítico] Antonio Candido contou há vários anos, numa roda de amigos, uma curiosa história. Se não estou enganado, o protagonista era um português, dono de uma pensão no Rio de Janeiro, chamada de “Península Fernandes”.
Intrigado e ao mesmo tempo curioso, Antonio Candido perguntou ao homem qual a razão daquele título. “É que eu me chamo Fernandes”, foi a resposta. “Bom, mas e “península’?” “”Península” é porque eu acho a palavra bonita.”
De fato, as palavras podem ser bonitas, neutras ou feias, de acordo com a percepção de cada um. Por exemplo, em matéria de fealdade, um professor de inglês de meu irmão, da mesma nacionalidade da língua que ensinava, afirmava que a palavra mais feia da língua portuguesa era “baticôn”, ou seja “boticão”, sugerindo, quem sabe, seu terror pela cadeira de dentista.
Palavras feias, aliás, não são necessariamente os chamados “palavrões”, alguns até, se não bonitos, certamente bem expressivos.
Deixo as questões estéticas, para lembrar que os signos têm vida e, portanto, nascem, vivem, alguns morrem, ficam congelados ou se transfiguram. Embora tenha atração por seu nascimento, deixo de lado a etimologia e me fixo no congelamento e na transfiguração.
Anoto, apenas, que as palavras mais interessantes, do ponto de vista da origem, não são aquelas que possuem certidão de nascimento -as de origem latina, no caso do português-, mas as de filiação discutível, dando origem às controvérsias dos filólogos, esses pesquisadores do DNA das línguas.
Vamos aos signos congelados.
Como continuamos a ler pelos anos afora o maior nome das nossas letras, Machado de Assis é uma boa referência. O que era Escobar para Bentinho, no romance “Dom Casmurro”? Seu comborço, diz Machado, ou seja, o amante de sua mulher, a acreditar-se na versão de uma “pecaminosa” Capitu. Pois bem, ninguém usa hoje essa palavra, seja na fala cotidiana, seja na escrita, mesmo a mais observadora da norma culta.
Mas a palavra não morreu, está nos dicionários, congelada, praticamente sem esperanças de ressurreição, lutando para permanecer o mais possível nesse estado.
De qualquer forma, vinga-se de nós, contemporâneos, que a desprezaram, ao obrigar-nos a ir buscar seu significado, quando lemos “Dom Casmurro”.

Comprar um bonde
A transfiguração se distingue do congelamento. Nesse caso, estamos diante de um signo que designa um objeto, uma qualidade, um determinado sentimento, e que vai mudando de significado, ao longo do tempo.
Muito me atrai a transfiguração da palavra “bonde” e sua aplicação concomitante a diferentes sentidos. Típica do português do Brasil, ela se originou da palavra inglesa “bond” (título, obrigação), impressa, a princípio, nos “bilhetes de passagem” de uma empresa do Rio de Janeiro -a “Botanical Garden Railway”, por volta de 1870.
Daí nasceu o vocábulo “bonde“, o veículo coletivo, a princípio de tração animal e depois elétrica, que fez parte da vida urbana das grandes cidades brasileiras até meados da década de 60 do século passado, como ensina o dicionário de Houaiss.
Foi tal o impacto do signo que ele serviu para compor diversas frases.
A partir da história de um caipira que, vindo a São Paulo -ou seria ao Rio?-, se maravilhou com o veículo e “comprou-o” de alguém que lhe foi apresentado como seu proprietário, surgiu a expressão “comprar um bonde”, fazer um mau negócio; da mesma forma, quando se entrava no meio de uma conversa, fazíamos uma ressalva: “Estou tomando o bonde andando, mas, mesmo assim…”.
O fim do bonde como transporte coletivo não correspondeu ao fim do signo, como se poderia supor. Se ele já designava várias coisas, passou a designar outras mais, como o “bonde” da cadeia, que leva e traz presos, ou um conjunto artístico, um grupo literário etc.
Volto à história do dono da pensão. Para ele, península não era uma “insípida porção de terra cercada de água por todos os lados, menos por um que a liga ao continente”, como ensinavam os antigos professores de geografia.
Era uma palavra bela que poderia até não designar coisa nenhuma. No meu caso, “bonde” traz muitas lembranças, no sentido de veículo coletivo, e evoca uma história, a partir de uma de suas significações.
“Bonde” era o jogador de futebol muito limitado, o “perneta”, “perna-de-pau”, mais recentemente o “cabeça-de-bagre”, execrado pela torcida e pelos cronistas esportivos.
Ora, no ano de 1942, Leônidas da Silva -o Diamante Negro- veio do Flamengo para o São Paulo, numa transferência rara naqueles tempos e que envolvia muito dinheiro.

São Paulo x Palestra
O jogador custou a entrosar-se no novo clube, a tal ponto que ele e o clube passaram a ser alvo de gozações generalizadas de palestrinos e corintianos: o São Paulo tinha comprado um “bonde”. Até que São Paulo e Palestra Itália disputaram uma partida importante pelo campeonato paulista, em meados de junho daquele ano.
Sem torcer para nenhum dos dois clubes, eu ouvia o jogo meio desligado, numa tarde de domingo, quando despertei com o brado do locutor Geraldo José de Almeida, são-paulino fanático que não escondia sua paixão: “Gol do São Paulo! Gol do São Paulo! O “bonde” de 200 contos marca um gol espetacular de bicicleta”.
Acabei vibrando com o gol espetacular de Leônidas, herói negro de nome grego da minha infância. Daí para a frente, Leônidas desencantou, embora o Palestra tenha ganho aquele jogo de 2×1, se não estou enganado. Ao contar essa história, o brado do locutor são-paulino e o impacto da palavra “bonde”, em tom irônico, ressurgem em minha memória.

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BORIS FAUSTO é historiador e preside o conselho acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional), da USP. É autor de “A Revolução de 1930” (Companhia das Letras).

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