O homem que não gostava de beijos

Sherlock dá uma força em romance de Barnes

Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, é um dos personagens de “Arthur & George”

Julian Barnes cruza biografia do famoso escritor britânico com vítima de um episódio de preconceito racial na Inglaterra vitoriana

Kathy Willens – 30.jan.2006/Associated Press
Julian Barnes apresenta seu livro “Arthur & George” em Nova York; obra tem como personagem o escritor Arthur Conan Doyle

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

Elementar, meu caro Watson. O mais francês dos escritores ingleses queria escrever sobre culpa, inocência e justiça e deduziu que uma das grandes instituições inglesas seria a chave: Arthur Conan Doyle (1859-1930), o pai de Sherlock Holmes. O resultado é “Arthur & George”, romance ambicioso de Julian Barnes, uma das estrelas da literatura britânica.
O livro cruza a biografia de dois personagens: George, vítima de um caso de preconceito racial na Inglaterra vitoriana; e Arthur, o famoso escritor, às voltas com suas próprias culpas (matrimoniais) e fantasmas.
Ainda que tenha escrito policiais no início da carreira usando o pseudônimo Dan Kavanagh, não se deve esperar de Barnes tramas intrincadas, humor farsesco e personagens espirituosos como Sherlock.
Admirador de Gustave Flaubert, Barnes escreveu um grande romance. Não é grande fã de Holmes, como mostra na entrevista abaixo. Mas acha que os dois personagens têm muito a dizer sobre justiça, consciência e virtudes públicas, o mistério que procura desvendar.

FOLHA – Você já declarou que se inspirou no caso Dreyfus para escrever “Arthur & George”… Como Reino Unido e França tratam do debate público e do papel do intelectual?
JULIAN BARNES – O caso Dreyfus foi obviamente mais importante do que o caso Edalji, pois envolvia alta traição, e não mutilação animal. É uma das razões pelas quais continuou a ecoar na história francesa, dividindo e definindo a nação por cem anos. O caso britânico teve repercussão por cinco ou seis anos, então foi esquecido. Mas isso aconteceu em parte por causa da forma como os britânicos se comportam quando algo está errado: você conserta e então deixa para lá. Os franceses, por outro lado, adoram celebrar suas discordâncias e brigas públicas, bem depois de terem sido resolvidas.

FOLHA – Como surgiu a idéia de unir a biografia de Conan Doyle com o caso de George Edalji?
BARNES – Descobri a história de George Edalji lendo sobre o caso Dreyfus. O que era esse caso Edalji? Procurei um livro para me informar, mas não havia um único que falasse do assunto nos últimos cem anos. Então escrevi “Arthur & George” com o objetivo de ter algo para ler sobre o caso, de alguma forma…

FOLHA – Sherlock Holmes representa a capacidade de investigação, valores racionais em uma sociedade que celebrava o progresso. Você utiliza em seu livro o envolvimento de Conan Doyle com o espiritismo, menciona o ilusionista Houdini…
BARNES – Isso parece um paradoxo, mas é importante lembrar que uma ramificação do espiritismo era científico e havia cientistas famosos que o apoiavam. Achavam que o lado espiritual da vida poderia ser detectado e provado por análise científica. Sabiam, claro, que a maioria dos médiuns eram fraudes, mas esperavam que alguns fossem autênticos.

FOLHA – Prêmios como o Booker Prize, do qual “Arthur & George” foi finalista, tendem a celebrar escritores de países que compunham o Império Britânico. A herança imperial ainda é forte?
BARNES – O Booker Prize é aberto a todos que escrevem em inglês, exceto americanos. Isso foi revigorante. Mas não acho que somos focados no passado. A evocação sentimental do Império Britânico pertence mais aos historiadores do que aos romancistas.

FOLHA – O Reino Unido e a França abordam a questão dos imigrantes de maneira diferente, celebrando as diferentes culturas (Reino Unido) ou considerando que todos devem se integrar à cultura local (França). O preconceito racial, que está na base do caso abordado em “Arthur & George”, permanece?
BARNES – Os dois países têm abordagens diferentes. O Reino Unido é multiculturalista, enquanto a França é unicultural. Atualmente não podemos dizer que nenhum dos dois modelos é um grande sucesso. E os atentados em Londres [julho de 2005] marcaram uma época muito difícil. Acho que todos estamos no limite. Mas, em geral, acho que as relações entre as várias comunidades é boa.

FOLHA – Honra e tradição são valores importantes para os personagens… O que você acha que mudou no sentido de justiça desde a época de Conan Doyle?
BARNES – Acho que provavelmente não chamaríamos mais de “honra”. Desconfiaríamos de uma palavra tão grande. Mas acho que o senso de consciência pessoal e responsabilidade permanecem. As pessoas não mudam essencialmente de geração para geração. Só os seus hábitos exteriores mudam. Acho que se o caso Edalji acontecesse hoje, o mesmo sentimento de injustiça seria experimentado por várias pessoas.

FOLHA – Você é fã de Sherlock Holmes? Por que a fama do detetive não pára de crescer?
BARNES – Bem, Sherlock Holmes é uma fantasia atraente, a idéia de que apenas o intelecto e a dedução podem resolver os crimes mais intrincados e impenetráveis. Enquanto quisermos acreditar em fantasias, os livros de Sherlock Holmes continuarão a ser vendidos.

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