LOUISE LABÉ: criatura de papel?

Maio 9, 2008

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008


“Divina Comédia” lidera no dominiopúblico.gov.br

Janeiro 3, 2008

Obra de Dante Alighieri desbanca Fernando Pessoa e Machado de Assis e é a mais procurada no portal Domínio Público

Crise da arte contemporânea, aparição do autor em obras atuais e até novela da Globo são causas do sucesso na opinião de especialistas

Reprodução
Clássico de Dante lidera o ranking de downloads
Fonte: Site do Domínio Público, dados de ontem

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Engana-se quem pensa que é Machado de Assis, Shakespeare, Fernando Pessoa ou qualquer outro livro da lista dos obrigatórios para o vestibular o mais procurado dos que estão em domínio público. A obra com mais downloads no portal do governo que pretende reunir os livros disponíveis gratuitamente -ou, pelo menos, os mais importantes- é do século 14, foi escrita em toscano e teve seus versos traduzidos para o português do século 19 por José Pedro Xavier Pinheiro, um baiano que morreu em 1882.
Os números são do portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br), mantido pelo Ministério da Educação: “A Divina Comédia”, do florentino Dante Alighieri (1265-1321), deixa para trás, e por muito, clássicos como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, e “Dom Casmurro”, de Machado -168 mil acessos contra 41 mil e 39 mil, respectivamente.
São obras de domínio público as escritas por autor morto há mais de 70 anos; o site também abriga aquelas cujos autores ou as famílias concedem uma licença. Foi o caso de “Grande Sertão: Veredas” -um link do Domínio Público deu acesso à íntegra do livro durante as comemorações de 50 anos da obra de Guimarães Rosa; depois, a editora Nova Fronteira a retirou da rede. A ação foi considerada “promocional” por funcionários do ministério.

Comédia
“A Comédia dos Erros”, de Shakespeare, aparece em quarto lugar na lista das mais baixadas no site -a coincidência do nome com a primeira colocada dá corda para uma piada corrente no MEC, segundo a qual o internauta mais desavisado estaria baixando as duas obras pensando fazerem elas parte do gênero cômico.
Já Maria Teresa Arrigoni, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e especialista em Dante, associa o fenômeno a uma reaparição da obra do autor em manifestações artísticas atuais, como o suspense best-seller “Os Crimes do Mosaico” (Planeta do Brasil, 2006), de Giulio Leoni, que tem o próprio Dante como detetive.
Até mesmo a novela “Sete Pecados”, da Globo, entraria nessa retomada dos temas da “Divina Comédia”, dos pecados à própria noção de paraíso, inferno e purgatório. A noção de purgatório, aliás, era recente quando a obra foi escrita, aponta Arrigoni. Estudos do historiador francês Jacques Le Goff mostram que ela surgiu por volta do século 13.
O professor de teoria literária da Unicamp Carlos Berriel, por sua vez, aponta a coincidência -não casual- da ascensão de Dante com o que chama de crise da arte contemporânea -”"uma crise que antecede o desaparecimento”.
“A agonia da Bienal de São Paulo é um lado da mesma moeda do interesse em Dante”, diz. “Certas manifestações do moderno estão esgotadas, e a Bienal, que é a expressão máxima do moderno, não diz mais nada a mais ninguém.”
Na opinião de Berriel, Dante organiza o mundo. “Ele torna o além algo totalmente hierarquizado. Mostra que, por princípio, todo mundo pode organizar o seu inferno, céu e purgatório. Dante é antípoda da nossa época de ausência de hierarquia, de valores, com uma cultura descentrada.”
O coordenador do Domínio Público, Marco Antonio Rodrigues, por sua vez, apresenta outras hipóteses para o sucesso de Dante. Primeiro: “A Divina Comédia” foi uma das primeiras obras a serem cadastradas no portal. Segundo: diferente de “Dom Casmurro”, por exemplo, só tem uma versão na página. E, por fim, após o alto número de acessos, foi criado um link específico para a obra no menu do Domínio Público.
A própria lista das obras mais acessadas, aponta, é uma alavanca para que as primeiras colocadas permaneçam no rol -ela motiva os internautas a conhecer os “hits”.
Essa seria uma explicação também para outros “fenômenos” do portal, como os infantis “A Borboleta Azul” e “O Peixinho e o Gato”, da professora baiana Lenira Almeida Heck, hoje moradora de Lajeado (RS), que ficam em segundo e terceiro lugar no ranking -para se ter uma idéia, “Dom Casmurro” ocupa só a 11ª posição.
Lenira assina, ao lado de seu nome verdadeiro, como “Júlia Vehuiah”, que junta o apelido da mãe, que se chamava Julieta, com o nome de seu anjo. O codinome foi criado na época da composição do hino de Lajeado; seguiu com a autora e, hoje, serve para o que ela chama de despreocupação com o fato de sua obra estar disponível gratuitamente na internet -embora ela não dê permissão para o internauta imprimi-la.
“Sou professora, não dependo só dos meus livros para viver. E, se sou inspirada por Júlia e Vehuiah, a obra não me pertence.” Ainda assim, ela já cuida da memória de seu nome e vislumbra um futuro de sucesso. “Guardo todas as minhas crônicas e tudo o que sai sobre mim. No dia em que eu não estiver mais aqui, vai haver muito material para falar de Lenira Almeida Heck.”

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RETIRADO DAQUI. FOLHA DE S.PAULO (ILUSTRADA)


Norman Mailer 1923-2007(R.i.p)

Novembro 14, 2007

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Morre o escritor Norman Mailer, aos 84 anos

Vencedor do Pulitzer duas vezes, o jornalista e romancista foi vítima de falência renal aguda, ontem pela manhã

Entre os principais livros do autor norte-americano, estão “Os Nus e os Mortos”, “Os Degraus do Pentágono” e “A Canção do Carrasco”

DENYSE GODOY
DE NOVA YORK

O escritor Norman Mailer, expoente do “novo jornalismo” e um dos maiores nomes da literatura americana do pós-guerra, morreu ontem pela manhã em Nova York, aos 84 anos, de falência renal aguda. No dia 17 de outubro, a família divulgou que ele estava internado no hospital Monte Sinai após realizar uma cirurgia no pulmão.
Vencedor do Prêmio Pulitzer em duas ocasiões (1968, com “Os Exércitos da Noite – Os Degraus do Pentágono”, e 1979, com “A Canção do Carrasco”, ambos fora de catálogo no Brasil), o escritor também era conhecido pelo estilo violento e por seu antagonismo ao feminismo. Romancista, ensaísta e repórter, publicou mais de 40 livros, transitando entre a ficção e a não-ficção.
Nesta semana, saiu seu último livro, “On God: an Uncommon Conversation” (sobre Deus: uma conversa incomum), ainda inédito no Brasil, no qual critica o presidente George W. Bush e a guerra do Iraque. O romance “The Castle in the Forest” (o castelo na floresta) foi lançado no início do ano nos EUA e deve ser publicado em dezembro no Brasil pela Companhia das Letras.
Mailer escreveu uma biografia de Marilyn Monroe e contou a história de Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John Kennedy. “Uma coisa que eu sempre quis ser foi escritor”, comentou. “Queria escrever um romance que Dostoiévski e Marx, Joyce e Freud, Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler, Faulkner e até o velho e mofado Hemingway quisessem ler.”

Trajetória
Judeu nascido em Long Branch, no Estado de Nova Jersey, em 31 de janeiro de 1923, o escritor cresceu no Brooklyn, em Nova York, cidade que testemunhou seu estilo de vida ruidoso -era fumante inveterado, mulherengo, bebia e sempre arrumava encrencas. “Nova York acaba comigo. Não consigo mais ficar a noite toda na rua e escrever no dia seguinte”, disse. Há dez anos, adotou o que chamou de “vida abstêmia” e se mudou para Provincetown, Massachusetts, com a mulher, Norris Church.
Casou-se seis vezes e teve nove filhos. Em 1960, ele esfaqueou com um canivete a sua segunda mulher, Adele Morales, com quem estava desde 1954. Acabaram se reconciliando; e ela contou a sua versão do ocorrido na biografia “The Last Party” (a última festa). Por conta desse episódio e de alusões a agressões sexuais em sua obra, era freqüentemente criticado pelo movimento feminista.
Formou-se em engenharia aeronáutica por Harvard em 1943 e e serviu no Exército durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência é contada em seu primeiro romance, “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Muito bem recebido pela crítica, o livro chegou ao topo da lista de mais vendidos.
Candidato à Prefeitura de Nova York em duas ocasiões, Mailer afundou a própria campanha ao chamar seus aliados de “bando de porcos mimados”. Descrevia-se como um “conservador de esquerda” e dizia detestar o capitalismo.


NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Outubro 20, 2007

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” ["Dinheiro Queimado", publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do El País


Ray Bradbury – Fahrenheit 451- Posfácio

Setembro 15, 2007

EU NÃO SABIA, mas estava literalmente escrevendo um romance barato [dime novel, ou folhetim]. Na primavera de 1950, escrever e finalizar a primeira versão de The Fire Man, que mais tarde se tornou Fahrenheit 451, custou-me nove dólares e oitenta em moedas de dez centavos [dimes].
De 1941 até aquela época, eu havia datilografado todos os meus trabalhos em casa, na garagem, fosse em Venice, Califórnia (onde morávamos porque éramos pobres, não porque era o lugar “in”), ou nos fundos daquela em que minha mulher, Marguerite, e eu criamos nossa família. Eu era expulso da garagem por minhas adoráveis filhas, que insistiam em dar a volta até a janela de trás e cantar e batucar nas vidraças. O pai tinha de escolher entre terminar uma história ou brincar com as meninas. É claro que eu optava por brincar, o que punha em risco a renda familiar. Era preciso encontrar um escritório. Não podíamos pagar por um.
Finalmente localizei o lugar exato, a sala de datilografia no porão da biblioteca da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Ali, enfileiradas, havia vinte ou mais velhas máquinas de escrever Remington ou Underwood, que eram alugadas a dez centavos por meia hora. Você enfiava a moeda, o relógio tiquetaqueava feito louco, e você datilografava furiosamente para terminar antes que se esgotasse a meia hora. Assim, eu tinha uma dupla motivação; pelas crianças, eu era levado a sair de casa e, pelo cronômetro de uma máquina de escrever, eu deveria me tornar um maníaco no teclado. Tempo reamente era dinheiro. Terminei a primeira versão em cerca de nove dias. Com 25 mil palavras, era metade do romance que acabaria se tornando.
Entre investir em moedas e ficar maluco quando a máquina emperrava (pois lá se ia o precioso tempo!) e enfiar e arrancar páginas, eu ficava zanzando pela biblioteca. Ali eu vadiava perdido de amor, andando pelos corredores percorrendo as estantes, tocando os livros, tirando-os das prateleiras, virando as páginas, devolvendo-os aos seus lugares, afogando-me em todas as coisas boas que constituem a essência das bibliotecas. Que lugar, vocês não acham, para escrever um romance sobre a queima de livros no futuro!
Mas chega de passado. O que dizer de Fahrenheit 451 nos dias de hoje? Mudei de idéia sobre muita coisa que o romance me dizia, quando eu era um autor mais jovem? Só se por “mudar” vocês estiverem perguntando se meu amor pelas bibliotecas se alargou e aprofundou, para o que a resposta é um sim que ricocheteia pelas estantes e espalha o pó-de-arroz do rosto da bibliotecária. Depois de escrever este livro, percorri mais contos, romances, ensaios e poemas sobre escritores do que qualquer outro autor imaginável na história da literatura. Escrevi poemas sobre Melville, Melville e Emily Dickinson, Emily Dickinson e Charles Dickens, Hawthorne, Poe, Edgar Rice Burroughs e, ao longo do caminho, comparei Júlio Verne e seu louco capitão com Melville e seu igualmente obcecado marinheiro. Compus poemas sobre bibliotecárias, tomei trens noturnos com meus autores favoritos atravessando imensidões continentais, ficando a noite inteira acordado, tagarelando e bebendo, bebendo e batendo papo.

Adverti Melville, em um poema, a se afastar da terra (ela nunca foi sua matéria!), e transformei Bernard Shaw em um robô para colocá-lo a bordo de um foguete e fazê-lo despertar na longa viagem até Alfa do Centauro para ouvir seus prefácios canalizados de sua língua para meu deleitado ouvido. Escrevi um conto sobre uma Máquina do Tempo no qual volto ao passado para me sentar junto aos leitos de morte de Wilde, Melville e Poe, falar de meu amor e aquecer seus ossos em seus momentos finais. Mas chega. Como vocês podem ver, sou um louco de atirar pedra quando se trata de livros, autores e dos grandes celeiros onde estão armazenados seus espíritos.
Recentemente, dispondo do Studio Theatre Playhouse em Los Angeles, convoquei das sombras todos os meus personagens de Fahrenheit 451. O que há de novo, perguntei a Montag, Clarisse, Faber e Beatty, desde que nos vimos pela última vez em 1953?
Eu perguntei. *Eles* responderam.
Escreveram novas cenas, revelaram partes estranhas de suas almas e sonhos até então desconhecidos. O resultado foi uma peça em dois atos, encenada com bons resultados e, no geral, críticas simpáticas.
Beatty saiu lá do fundo dos bastidores para responder à minha pergunta: Como foi que começou? Por que você tomou a decisão de se tornar Chefe dos Bombeiros, um queimador de livros? A resposta surpreendente de Beatty veio numa cena em que ele leva nosso herói Guy Montag até o seu apartamento. Ao entrar, Montag fica admirado ao descobrir os milhares e milhares de livros que cobrem as paredes da biblioteca oculta do Chefe dos Bombeiros! Montag se vira e grita para seu superior:
- Mas o senhor é o Queimador-Chefe! Não pode ter livros em sua casa!
Ao que o Chefe, com um sorrisinho seco, replica:
- O crime não é *ter* livros, Montag, o crime é *lê-los*. Sim, é isso mesmo. Eu tenho livros, mas não os leio!
Montag, chocado, aguarda a explicação de Beatty.
- Você não vê a beleza, Montag? Eu nunca os leio. Nem um deles, nem um capítulo, nem uma página, nem um parágrafo. Eu *realmente* jogo com ironias, não é? Ter milhares de livros e jamais abrir um, voltar as costas para todos e dizer: Não. É como ter uma casa cheia de mulheres lindas e, sorrindo, não tocar… nenhuma delas. Então, você entende, não sou absolutamente nenhum criminoso. Se você algum dia me pegar *lendo* um, aí sim, pode me prender! Mas este lugar é tão puro quando o quarto bege de uma virgem de doze anos numa noite de verão. Esses livros morrem nas estantes. Por quê? Porque assim o digo. Eu não lhes dou sustentação, nenhum esperança com a mão, o olho ou a língua. Eles não valem mais do que a poeira.
Montag protesta:
- Não vejo como o senhor não possa ser…
- Tentado? – exclama o Chefe dos Bombeiros. – Ah, isso foi há muito tempo. A maçã foi comida e sumiu. A serpente voltou para sua árvore. O jardim virou mato e ferrugem de planta.
- Antigamente… – Montag hesita, depois continua. Antigamente o senhor deve ter amado muito os livros.
- Touché! – responde o Chefe dos Bombeiros. – Abaixo da cintura. No queixo. Bem no coração. Rasgando a tripa. Ah, olhe para mim, Montag. O homem que amava livros, não, o garoto que era ávido por eles, maluco por eles, que trepava nas estantes como um chimpanzé enlouquecido por eles. Eu os comia como salada, os livros eram meu sanduíche no almoço, meu lanche, jantar e gula da meia-noite. Eu rasgava as páginas, comia-as com sal, ensopava-as em tempero, mordia os cadernos, virava os capítulos com a língua! Livros às dúzias, vintenas e bilhões. Carreguei tantos para casa que durante anos fiquei corcunda. Filosofia, história da arte, política, ciências sociais, o poema, o ensaio, a peça grandiosa, o que você imaginar, eu devorava. E então… e então… – a voz do Chefe dos Bombeiros se enfraquece.
Montag insiste:
- E então?
- Ora, a vida me apanhou. – O Chefe dos Bombeiros fecha os olhos para se lembrar. – A vida. O de sempre. O mesmo. O amor que não dava certo, o sonho que azedava, o sexo que frustrava, as mortes que chegaram rápido para amigos que não mereciam, o assassinato de um ou de outro, a insanidade de alguém próximo, a morte lenta da mãe, o suicídio abrupto do pai: um estouro de manada de elefantes, um surto de doença. E, em parte alguma, em lugar algum, o livro certo na hora certa para enfiar na parede rota da represa para conter a inundação, dar ou tirar uma metáfora, perder ou encontrar um símile. E entre o final dos trinta e a proximidade dos trinta e um, recompus-me: cada osso partido, cada centímetro de carne arranhada, escoriada ou cicatrizada. Olhei no espelho e vi um velho perdido atrás da face assustada de um jovem, vi ali um ódio por tudo e por nada, o que você imaginar, droga.
E abri as páginas dos livros de minha ótima biblioteca e o que encontrei, o que, o quê?
Montag tenta adivinhar:
- As páginas estavam vazias?
- Na mosca! Vazias! Sim, as palavras estavam lá, é claro, mas passavam por meus olhos como óleo quente, sem significar nada. Não ofereciam nenhuma ajuda, nenhum conforto, nem paz, nem segurança, nem amor verdadeiro, nem cama, nem luz.
Montag rememora:
- Trinta anos atrás… a queima das últimas bibliotecas…
- Exatamente. – Beatty anui com a cabeça. – E sem emprego, sendo um romântico fracassado ou o diabo que fosse, candidatei-me a Bombeiro de Primeira Classe. Primeiro a subir os degraus, primeiro na biblioteca, primeiro no coração da fornalha acesa de seus compatriotas, encharque-me com querosene, passe-me a minha tocha! A aula acabou. Aí está, Montag. Agora, fora daqui!
Montag sai, mais curioso do que nunca sobre os livros, já a caminho de se tornar um pária, prestes a ser perseguido e quase destruído pelo Sabujo Mecânico, meu robô clone do grande cão dos Baskerville de Conan Doyle.
Na minha peça, o velho Faber, o professor-não-muitocomprometido, falando com Montag na longa noite (via uma radioconcha embutida na orelha), é vitimado pelo Chefe dos Bombeiros. Como? Beatty desconfia que Montag esteja sendo instruído por um dispositivo secreto desse tipo, arranca-o de seu ouvido e grita para o distante professor:
- Nós vamos apanhar você! Estamos na porta! Subindo as escadas! Pegamos você!
O que deixa Faber tão apavorado que ele tem um ataque cardíaco e morre.
Todos acréscimos de primeira. Tentadores, a essa altura.
Tive de brigar muito comigo mesmo para não incluí-los nesta nova edição do romance.
Finalmente, muitos leitores me escreveram protestando pelo desaparecimento de Clarisse, querendo saber o que aconteceu com ela. François Truffaut sentiu a mesma curiosidade e, em sua versão de meu romance para o cinema, resgatou Clarisse do esquecimento e a colocou entre os Homens-Livros que vagavam pela floresta, recitando repetidamente trechos de seus livros para si mesmos. Senti a mesma necessidade de salvá-la pois, afinal de contas, em muitos sentidos, foi ela, beirando a conversa boba de tietagem, a responsável por Montag começar a se perguntar sobre os livros e o que havia neles. Na minha peça, portanto, Clarisse surge para saudar Montag e dar um final um pouco mais feliz ao que era, basicamente, um material bem sinistro.
O romance, contudo, permanece fiel a sua personalidade anterior. Não sou adepto de interferir no material de nenhum jovem escritor, particularmente quando esse jovem escritor fui eu mesmo outrora. Montag, Beatty, Mildred, Faber, Clarisse, todos permanecem, atuam, entram e saem como o faziam trinta e dois anos atrás, quando pela primeira vez os coloquei no papel, a um dime a meia hora, no porão da biblioteca da UCLA. Não mudei nem um só pensamento ou palavra.
Uma última descoberta. Escrevo todos os meus romances e contos, como vocês já viram, num grande acesso de paixão prazerosa. Só recentemente, revendo o romance, percebi que Montag foi batizado com o nome de uma fábrica de papel.
E Faber, naturalmente, é um fabricante de lápis! Como meu inconsciente foi astuto ao dar esses nomes a eles.
E em não contar isso a mim!

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BRADBURY, Ray. Posfácio . In ____Fahrenheit 451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. S. Paulo: Globo, 2007

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Este post é dedicado, com carinhosa gratidão, a C.


Graciliano Ramos e o romance barasileiro

Agosto 11, 2007

Estilo de Graciliano Ramos marcou construção do Brasil


gracilano.jpgDono de estilo contundente e direto, Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores da literatura brasileira, cujo interesse estético é inseparável do comprometimento ético. O escritor é tema de um dos volumes da coleção “Folha Explica”, cujo primeiro capítulo pode ser lido abaixo.

Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores do Brasil

Seja por suas intervenções no campo político, pelo empenho em favor dos oprimidos ou ainda pela defesa do artista no mundo moderno, Graciliano Ramos reafirma, de modo inconfundível, o vínculo entre literatura e vida.

Assim, “Folha Explica Graciliano Ramos” mostra que ler os livros do escritor alagoano é tarefa fundamental para todos que têm interesse em entender o Brasil –e entender a si mesmos.

Wander Melo Miranda é professor titular de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais e supervisor do projeto de reedição da obra completa de Graciliano Ramos.

“Folha Explica Graciliano Ramos”
Autor: Wander Melo Miranda
Editora: Publifolha
Páginas: 96
Quanto: R$ 17,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

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Confira a introdução do “Folha Explica Graciliano Ramos”:As Armas Insignificantes

Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.

Murilo Mendes

Literatura e experiência confundem-se na obra de Graciliano Ramos (1892-1953) como se fossem a urdidura de uma trama comum. Romances, memórias, contos e textos circunstanciais parecem repetir a afirmação do escritor –”Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou” 1–, chamando a atenção para o espaço autobiográfico em que sua obra se insere. À primeira vista parecerá uma perspectiva restrita, encerrada nos limites de uma subjetividade que reduz o mundo a dimensão muito particular ou a visão demasiadamente referencial. Mas, à medida que avançamos na leitura de livros como Angústia (1936) ou Infância (1945), nos quais traços da personalidade do autor e episódios de sua vida pessoal aparecem fortemente marcados –pela via da ficção ou da autobiografia–, nossa expectativa se transforma.

A aderência textual à vida concreta é acompanhada da superação de seus limites autobiográficos ou referenciais, compondo a química paradoxal da obra de Graciliano Ramos. Visto de hoje, seu compromisso político-partidário é um complicador a mais. Legítimo em suas aspirações e coerente do ponto de vista ideológico –Graciliano pertenceu aos quadros do Partido Comunista Brasileiro desde 1945 até a morte–, seu engajamento retrata um período crucial da história brasileira, que culmina com o Estado Novo. Indiscutivelmente articulado com a prática literária que constitui, em nenhum momento faz essa prática resvalar para as facilidades do panfleto ou ceder à sedução das relações imediatas. Ao contrário, em razão do conflito que apresentam entre texto e história, sujeito e discurso, memória e imaginação, seus livros se abrem a uma série de indagações experimentais que, desde o romance de estréia, Caetés (1933), desautorizam toda sorte de respostas excludentes e definitivas, para nosso espanto e dos próprios narradores colocados em cena pelo autor, sejam eles autobiográficos ou não.

No território minado por onde transitam suas personagens, em busca de uma unidade de antemão impossível no decurso da experiência desdobrada no tempo, não há lugar para ilusões compensatórias, nem para processos conciliadores de integração social. Seres à margem, João Valério, Luís da Silva, os retirantes de Vidas Secas, o menino de Infância, os presos de Memórias do Cárcere, e mesmo Paulo Honório, trazem todos a marca da “desgraça irremediável que os açoita”2, para usar as palavras do escritor, que deles se aproxima solidário, com uma simpatia ora mais ora menos distanciada, sempre comovente na cautela com que se expõe.

Mesmo o recurso à memória, de que o narrador na maioria das vezes se vale, não conduz ao abrigo das certezas apaziguadoras e da verdade incontestável, espaço que é da contradição e da recorrência desintegradoras. No ato de recompor a vida pela linguagem, de ser escrevendo, a idéia do conhecimento de si a que chegam os narradores de Graciliano resulta numa construção móvel e aleatória, fruto de um saber precário, provisório nas suas conclusões e cético no tocante à validade de suas premissas. Talvez por isso nada resista em pé diante do desejo de destruir, segundo Otto Maria Carpeaux, o ‘edifício da nossa civilização artificial – cultura e analfabetismo letrados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades temporais e espirituais”3. Destruição para transformar, para reverter por “linhas tortas” as diretrizes e os valores que o processo de modernização brasileira começava a implantar no país nas primeiras décadas do século 20. Recalcadas pelo poder dominante, regiões sombrias da ordem estabelecida atingem o primeiro plano do texto, que torna visível a violência contra os excluídos, então revelados em sua alteridade e desolação.

Nas brechas abertas numa modernidade assim desencantada, Graciliano, firme na sua disposição de ir contra a amnésia histórica e social, torna efetiva, talvez como nenhum outro escritor entre nós, a possibilidade de uma prática política do texto artístico. Daí o papel fundamental desempenhado pela memória em seus livros. Operadora da diferença e trabalhando com pontos de esquecimento da história oficial, ela se formula como atividade produtiva, que tece com as idéias e imagens do presente a experiência do passado, sempre renovada, refeita, recriada – vida e morte, vida contra a morte.

A possibilidade da reminiscência descortina-se justamente onde a história triunfante dos “homens gordos do primado espiritual”4 procede ao cancelamento do que ficou para trás, ou seja, no detalhe, no pequeno, no insignificante, a partir deles e com eles, como revelam as Memórias do Cárcere, publicadas logo após a morte de Graciliano, em 1953. Se a perspectiva da morte, de fim de caminho, autoriza o autor a levar adiante suas memórias, é o desejo de fazer viver o que estaria morto para sempre, mas que ainda persiste na sua demanda, o que deflagra o processo da escrita. Reviver o passado sim, porém enterrar de vez o que mantém o memorialista encarcerado e o impede de tomar posse efetiva do presente.

O corpo do sujeito –o do preso, mas também o do menino, o dos retirantes– é o lugar privilegiado onde se marca a história e se enuncia, em carne viva, sem subterfúgios, a violência desmedida do poder. Instrumento de ataque e defesa no embate com o “nosso pequenino fascismo tupinambá”,5 o corpo vai além de si mesmo e se faz voz do vivido coletivo, balizando a dura aprendizagem da posição marginal do escritor que teima em manter-se, apesar de tudo, livre, independente e fiel a si mesmo. O instável campo de manobra que a situação de pária social lhe delega desdobra-se em vários níveis de indagações, que vão desde a consciência sofrida, que separa o intelectual da massa com a qual se solidariza, até a relação conflituosa do escritor com o mercado de trabalho.

O espaço de atuação intelectual e artística de Graciliano revela-se intervalar: entre formação burguesa e empenho político a favor do excluído, entre imposições do poder e anseio de transformação, entre qualidade artística da obra e necessidade de sobrevivência do artista. A possibilidade de a literatura realizar uma intervenção diferenciada no campo político, com os instrumentos de que só ela dispõe, reveste-se, na prosa do escritor, da reafirmação do vínculo estreito entre arte e vida, submetida com força de persuasão ao domínio da linguagem, ao território também conflituoso da palavra literária.

A auto-reflexão textual catalisa as preocupações de Graciliano Ramos. O exercício obsessivo e artesanal da linguagem e a lucidez na escolha dos procedimentos narrativos usados impedem a subserviência do texto à realidade imediata e à gratuidade lúdica, abrindo novos caminhos para a representação literária. Há um silêncio que procura fazer-se ouvir, uma fala emudecida a que o narrador procura dar ouvidos, desobstruindo, sem paternalismos, suas vias de expressão. Daí o caráter experimental da narrativa, que ensaia aproximações e recuos diante de imposições retóricas e estereótipos literários, solapados no cerne de sua orientação hegemônica, ou seja, no seu intuito de impor-se como autoridade absoluta – “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.6

É dessa forma que Graciliano Ramos contribui para ampliar os limites da narrativa regionalista que começa, por volta de 1930, a retratar o país pela óptica da consciência do subdesenvolvimento e do engajamento político. Pelos livros de escritores como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego ou Jorge Amado, o romance nordestino impõe-se como nova linguagem e nova modalidade de “interpretar” o Brasil, dessa vez pela via da abordagem ficcional dos impasses regionais. De todo o grupo, o autor de Vidas Secas é, sem dúvida, o que mais avança no sentido de desmontar as estruturas de dominação literária, cultural e política, ao mesmo tempo que confere a seus textos um valor artístico efetivamente inovador.

A estratégia dissimulatória que propicia ao escritor mover-se no interior de um sistema fechado e a ele opor resistência se formula em termos de afrontamento do interdito através da ironia e da redução da linguagem àquele mínimo de recursos que a faz funcionar sem perder a carga explosiva que encerra. Num pequeno texto, “Os Sapateiros da Literatura’, Graciliano realça a dimensão utilitária da escrita ao comparar pronomes e verbos a sovelas e ilhoses: “São armas insignificantes, mas são armas”.7 É esse movimento que pretendemos mostrar na leitura dos textos do escritor.

1 ‘Revisão do Modernismo’. Em: Homero Senna, República das Letras. 20 Entrevistas com Escritores. Rio de Janeiro: São José, 1957; p. 238. A entrevista foi publicada pela primeira vez em 1948.
2 ‘Discurso de Graciliano Ramos’. Em: Augusto Frederico Schmidt et al., Homenagem a Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Alba, 1943; p. 29.
3 ‘Visão de Graciliano Ramos’. Em: Origens e Fins. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943; p. 350.
4 Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953; v. 1, p. 7.
5 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
6 Memórias do Cárcere, v. 1, p. 6.
7 ‘Os Sapateiros da Literatura.’ Em: Linhas Tortas. São Paulo: Martins, 1962; p. 191.

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Eça de Queirós: Primo Basílio no cinema

Agosto 10, 2007

“Primo Basílio”  no cinema

ANA ALICE GALLO
da Folha Online

“Primo Basílio”, adaptação brasileira do clássico romance de Eça de Queiroz que chega nesta sexta-feira aos cinemas, tem ao menos dois grandes méritos. O primeiro –e que deve levar parte do público às salas de exibição– é a narração do contraste perfeito entre a morosidade da vida da classe média e a lascívia com que a recatada e bem-casada Luisa (Débora Falabella) se entrega ao primo amante.

O segundo (e não menor) é que o espectador é capaz de entender o que os anos de trabalho pesado fizeram com a empregada Juliana, interpretada por uma dedicada Glória Pires, e acompanhar sua tentativa desesperada de recuperá-los em dinheiro chantageando a patroa.

O diretor Daniel Filho investiu em uma estética convincente e mais próxima do público ao transportar a história, originalmente retratada na Lisboa do século 19, para a São Paulo dos anos 50. O filme, que começa estático, ganha ritmo com as cenas picantes do romance entre Luisa e Basílio (Fábio Assunção), com direito a um quase nu frontal do galã e a um rápido momento equivalente da mocinha.

O triângulo amoroso se completa nas telas com a volta do marido Jorge (Reynaldo Gianecchini). Na contramão de toda a paixão, se arrasta a empregada Juliana, pesada por anos de servidão e bem incorporada em postura, figurino e expressão de Gloria, que deve conquistar a simpatia do público até mesmo com as chantagens mais absurdas.

O ritmo lento do romance português, no entanto, dificilmente escapará aos olhos do espectador mais acostumado ao frenesi das novelas. Para esse público, o mais saboroso mesmo é ver a constelação de globais em papéis pouco convencionais –a Glória “feia”, o Reynaldo Gianecchini “sério” e o Fábio Assunção “canalha” que o digam.

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Especial


“Quem faz literatura atualmente?”

Agosto 10, 2007

Livro explica obra de 60 autores da literatura brasileira atual Quem faz a literatura brasileira atualmente? O que está em jogo na poesia e na prosa que se escreve no Brasil? O livro “Literatura Brasileira Hoje”, da coleção “Folha Explica”, dá destaque a 60 autores –30 poetas e 30 prosadores– da atualidade.

“Literatura Brasileira Hoje” descreve obras de 60 autores

De Manoel de Barros (nascido em 1916) a Tarso de Melo (1976), de Lygia Fagundes Telles (1923) a Nelson de Oliveira (1966), eles compõem um número amplo o bastante para demonstrar o que de mais relevante se tem escrito em nosso país. Dezenas de outros autores comparecem também, nos comentários à obra dos 60, para formar junto com eles um panorama único da nossa literatura.

O livro é assinado por Manuel da Costa Pinto, mestre em teoria literária e literatura comparada pela USP (Universidade de São Paulo) e colunista da Folha –leia o primeiro capítulo abaixo.

Como o nome indica, a série “Folha Explica” ambiciona explicar os assuntos tratados e fazê-lo em um contexto brasileiro: cada livro oferece ao leitor condições não só para que fique bem informado, mas para que possa refletir sobre o tema, de uma perspectiva atual e consciente das circunstâncias do país.

Para saber quais os livros da coleção “Folha Explica” cujos primeiros capítulos já foram publicados, clique aqui.

“Folha Explica Literatura Brasileira Hoje”
Autor: Manuel da Costa Pinto
Editora: Publifolha
Páginas: 168
Quanto: R$ 20,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha

Confira a introdução do “Folha Explica Literatura Brasileira Hoje”:

Este livro tem a pretensão de apresentar um panorama da literatura brasileira contemporânea. Não propõe juízos de valor ou veredictos, mas procura salientar as razões pelas quais alguns autores se tornaram representativos da diversidade de nossa produção poética e ficcional.

Escrever a história do presente é sempre arriscado –e isso também vale para a literatura. Sem o necessário distanciamento que o passar do tempo proporciona, podemos avaliar um autor ou uma obra com base em sua repercussão imediata, que pode ser desmentida ou ratificada por obras posteriores e novas gerações de leitores. Mas se “poesia é risco” (como quer um poeta que será abordado aqui) e se o mesmo se aplica à prosa, então a crítica literária consiste em compreender o alcance e a permanência da aventura da escrita.

De certo modo, cada poema, conto ou romance contém uma concepção do que é a literatura –e o fato de que essas concepções muitas vezes se excluem mutuamente faz parte dos impasses que estão no coração do trabalho criativo. Por isso, o leitor não encontrará aqui um ponto de vista unívoco, mas obras que criam seus próprios pressupostos e os desenvolvem coerentemente. De acordo com essa idéia, a forma de exposição escolhida não poderia ser o ensaio (que supõe um centro organizador, impõe continuidades e exclusões), mas um mosaico de escritores, em que o centro está por toda parte e a circunferência em parte alguma.

Sendo assim, o volume 60 da coleção “Folha Explica” enfoca 60 autores: 30 poetas, 30 prosadores. Esse número, necessariamente arbitrário, expressa os limites de seu método e a opulência de sua matéria-prima. O livro não tem ambições enciclopédicas: os textos aqui apresentados não são verbetes que elencam a miríade de obras da literatura atual, mas leituras que procuram identificar singularidades. Por outro lado, cada um dos autores abordados constitui uma espécie de campo de força, ou seja, aponta para certas tendências ou dicções presentes em outros escritores, cujo número ultrapassa em muito os 60 capítulos aqui dispostos. Esses autores são mencionados no interior dos capítulos, estabelecendo-se correlações e diálogos. Para facilitar a leitura, ao final do volume há um índice onomástico no qual o leitor poderá visualizar a incidência dos autores e as relações que se estabelecem entre eles.

Obviamente, o critério de escolha dos escritores analisados tem algo de imponderável: crítica literária também é risco –mesmo quando não expressa uma opinião pessoal, mas procura entender a importância que autores e obras adquiriram dentro de nosso sistema literário.
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Da Folha On line


Lula e seus irmãos

Junho 17, 2007

Relação de Vavá e frei Chico com o presidente da República se ajusta mais ao gênero cômico do que ao trágico

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Faltam alguns dos precedentes trágicos da situação vivida hoje por Lula e seus irmãos.
Com efeito, quando Aristóteles pensou sobre os eventos favoráveis à excitação do sentimento trágico, assinalou aqueles que diziam respeito aos amigos e, em particular, às ligações de sangue.
Isso porque, diz ele, “se as coisas se passam entre inimigos, não há que compadecer-nos nem pelas ações nem pelas intenções deles, a não ser pelo aspecto lutuoso dos acontecimentos; e assim também entre estranhos. Mas, se ações catastróficas sucederem entre amigos -como, por exemplo, irmão que mata ou esteja em via de matar o irmão, ou um filho o pai, ou a mãe um filho, ou um filho a mãe, ou quando aconteçam outras coisas que tais- eis os casos a discutir”.
Tais eventos são os que mais diretamente provocam em nós terror e piedade, os afetos trágicos por excelência.
Ambos decorrem da empatia, isto é, do sentimento de que também a nós poderia ocorrer um desastre semelhante, pois todos os que têm parentes e os amam podem intuir o temor de tê-los contra si, assim como estão aptos a sentir compaixão por quem sofresse pesar semelhante.
Por isso mesmo, Hegel entendeu que a essência da tragédia se caracterizava pelo confronto entre dois direitos antagônicos e contraditórios: os da leis escritas do Estado e os da lei não-escrita da família. Um belo exemplo dessa essência trágica, em língua portuguesa, encontra-se em “A Castro”, de António Ferreira, na qual se encena a conhecida história de Inês, amante do infante d. Pedro, que é assassinada a mando do rei, d. Afonso 4ø, temeroso de que a paixão ilícita do filho pusesse a perder os seus esforços de autonomia do trono português diante do poder de Castela.

Temor e compaixão
Em “Os Lusíadas”, não faltam células trágicas similares, em que o rei se deixa arrastar pelas contingências afetivas de sua “persona personalis” em detrimento dos deveres transcendentes de sua “persona ficta” ou “mystica”, que representa o Estado.
A considerar desse modo o caso, a atual irrupção de Vavá no noticiário do governo, guardaria em si o embrião de uma cena trágica, na qual o irmão no poder se vê constrangido e contraditado pelas ações do irmão imprudente ou desonesto, não importa se lambari ou tubarão.
Aliás, a levar adiante a analogia, a potência trágica do episódio deveria tornar mais cautos os críticos que vêem em Vavá causas para a queda de Lula: um episódio familiar é potencialmente lugar de simpatia, isto é, de temor e compaixão partilhados.
A tragédia, contudo, não parece ser o gênero mais ajustado à comparação com a situação vivida pelo presidente.
Pois a imitação trágica só funciona, no dizer de Aristóteles, quando o objeto da imitação são aqueles sobre os quais não restam dúvidas sobre o seu “caráter elevado”, como ocorre quando pessoas que julgamos de grande valor acabam sofrendo algum mal irreversível, por um erro involuntário cometido.
Quando, ao contrário, a ação em cena diz respeito a quem julgamos iguais ou piores do que gente como nós, o que se produz é comédia.
Como diz o filósofo, “a mesma diferença separa a tragédia da comédia; procura esta imitar os homens piores, e aquela, melhores do que ordinariamente são”.
Os efeitos correspondentes ao novo gênero já nada têm a ver com temor e compaixão, mas sim basicamente com o “ridículo”.
Este, aliás, em termos aristotélicos, não é qualquer defeito, mas apenas o que refere a “torpeza anódina”. Assim, quando não há certeza sobre a grandeza de um caráter, que apenas pode estar assentada sobre ações habitualmente virtuosas, está definitivamente perdida a possibilidade da imitação trágica.
Nesses termos, convenhamos, Lula, como persona trágica, já não é verossímil há muito tempo, ao menos desde que reinventou a si mesmo no pragmatismo eleitoreiro e vulgar do “Lulinha paz e amor”.
Se houve algum dia um verossímil trágico associado ao tema da catástrofe familiar na persona de Lula, talvez devesse ser buscado no pesar advindo da exposição de Lurian, a filha até então oculta, e da posterior derrota política decorrente da sórdida campanha movida por Fernando Collor de Mello, em 1989.

Anedota de corte
Agora, não. Agora a figura de Vavá apenas acrescenta mais um elemento pitoresco à baixeza ordinária. O episódio é absorvido genericamente como mais uma anedota da corte indecorosa.
Literariamente, a revelação das trapaças do irmão encontra, no máximo, analogia com as tópicas ridículas das comédias seiscentistas, quando a corte recentemente aburguesada se torna palco de toda sorte de ostentação reles.
Ali, falsos fidalgos, velhacos e emergentes, de cabeleira postiça e empoada, sentados sobre o próprio rabo, negando enfaticamente o próprio passado, fingem em vão acreditar nos áulicos venais que os pintam maiores do que são. Na hipótese trágica definitivamente perdida, Vavá seria parte das “ações paradoxais” a se abater sobre a excelência de um grande homem; na versão cômica atual, não passa de simples confirmação da “torpeza anódina” instalada na cena palaciana.

ALCIR PÉCORA é professor de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas e autor de Máquina de Gêneros (Edusp)

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Personagens na literatura Brasileira

Junho 7, 2007
  Letra

 

Agilberto Lima/AE

Milton Hatoum ocupa-se dos problemas enfrentados pelos imigrantes na Amazônia

  Veja também
¤ Escritores e professores comentam o resultado da pesquisa
¤ As tabelas da pesquisa

SÃO PAULO – Homem branco, heterossexual, intelectualizado, sem deficiências físicas ou doenças crônicas, membro da classe média e morador de grande centro urbano – não, não se trata de um anúncio para relacionamentos, mas o perfil principal das personagens contemporâneas do romance brasileiro, segundo uma pesquisa realizada em Brasília. Durante vários meses, a partir de 2003, a professora Regina Dalcastagnè, do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília, comandou uma equipe de alunos que, debruçada sobre diversos livros de autores nacionais, conseguiu moldar o personagem mais comum da literatura brasileira. A polêmica conclusão (já há autor torcendo o nariz) será tema de um debate que ocorre nesta quarta-feira, 6, às 10 horas, no Itaú Cultural, iniciando o projeto Encontros de Interrogação.

Na palestra, Regina vai ser questionada pelos escritores Cristóvão Tezza e Maria José Silveira. Oportunidade para ela comentar sobre a metodologia do trabalho – a pesquisa fez uma espécie de recenseamento das personagens dos principais romances publicados no Brasil entre 1965-1979 e 1990-2004 pelas editoras mais importantes dos dois períodos: Civilização Brasileira e José Olympio para o primeiro intervalo e Companhia das Letras, Record e Rocco para o segundo. Foram estudadas, ao todo, 1.754 personagens de 389 romances, escritos por 242 autores diferentes. “Nosso objetivo foi comparar a época atual com o período marcado pela ditadura militar”, comenta Regina. “Daí a ausência dos anos 1980, que poderão inspirar uma outra pesquisa.”

O perfil dos autores se aproxima do dos personagens: em sua maioria homens, brancos, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo e com profissões já ligadas ao domínio do discurso, como jornalista e professor universitário. “Dados importantes para se entender o enfoque do conjunto das narrativas atuais”, comenta Regina, para quem a literatura é mais um discurso na formulação da ideologia de uma sociedade. “O romance brasileiro possui como chão o Brasil contemporâneo. Ou seja, nosso universo literário é bastante limitado e excludente, assim como é reduzida a variedade de perspectivas sociais entre nossos escritores.”

Pobres perdem espaço

É o que explica, por exemplo, a pequena representação das personagens femininas, porcentagem que é menor no período 1990-2004, quando as mulheres aumentam sua participação apenas na posição de narradoras, mas são menos protagonistas das tramas do que antes. Uma das justificativas, no entender da pesquisadora, foi a eclosão do feminismo – apesar do aumento no número de escritoras, os homens sentiram-se retraídos. “Houve um certo constrangimento e os autores entenderam que a mulher poderia ela mesma dizer o que pensava, o que provocou um recuo na quantidade de personagens.” Ou seja, o romance brasileiro hoje conta com mais autoras e, ao mesmo tempo, elas se sentem mais à vontade para criar personagens do sexo masculino.

Entre 1965-1979 e 1990-2004, os pobres perdem espaço no romance brasileiro, que se concentra ainda mais nas classes médias e, ao mesmo tempo, dá mais espaço a personagens das elites econômicas. “É importante notar como a literatura se distancia dos problemas sociais, ignorando também os negros e os homossexuais”, comenta Regina. “E, quando esses aparecem, são de forma estereotipada, o que aproxima o romance da telenovela.”

A pesquisadora, que contou com uma bolsa do CNPq, notou ainda a ausência de características que marcam profundamente a rotina do brasileiro: quase não há, por exemplo, citações sobre futebol, carnaval e religião. Assim, apesar de ser muito referencial (o Brasil retratado é o atual) o que lhe confere um caráter realista, o romance traz personagens pouco realistas. “É como se o cenário das histórias fosse uma reprodução fiel da realidade, enquanto as figuras que ali se situam não são.”

Nova dinâmica

Há, é claro, exceções, mesmo que na valorização de detalhes. Sérgio Sant’Anna, por exemplo, sempre revelou a intenção de trabalhar em vários planos além da simples representação do mundo; Milton Hatoum ocupa-se dos problemas enfrentados pelos imigrantes na Amazônia; João Gilberto Noll preocupa-se também com os homossexuais; e Ferréz retrata o cotidiano de bairro pobre. “São exemplos preciosos, pois o estilo literário hoje tem uma outra dinâmica, apresentando diferenças que podem influenciar a literatura de autores brancos, enriquecendo-a”, conta Regina, que percebe as mesmas características no cinema nacional, pesquisa agora em andamento.

“Já vimos 150 filmes e o resultado, por enquanto, é semelhante: os personagens são, na maioria, homens brancos de classe média”, conta ela, que já concluiu como o tempo verbal das falas reforça as diferenças sociais. “Os personagens negros falam apenas no presente, enquanto os brancos referem-se também ao passado. É como se o branco pudesse pensar e o negro, apenas agir.”

A palestra de Regina Dalcastagnè abre a segunda edição do Encontros de Interrogação, que vai reunir, até sábado, prosadores, poetas, críticos, pesquisadores e leitores para responder perguntas ou provocar mais dúvidas sobre os sentidos e valores da literatura na produção contemporânea brasileira. O evento também marca o lançamento da Enciclopédia Itaú Cultural de Literatura Brasileira e dos programas de rádio focados na literatura, Escritor-Leitor e Inventário, ambos no novo site da instituição (www.itaucultural.org.br).