Si non è vero… gerúndio demitido

Outubro 2, 2007

Agência Estado

 

Em uma atitude inusitada, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), decidiu “demitir” o tempo verbal gerúndio de todos os órgãos da administração pública da capital. O decreto, que tem quatro linhas em quatro artigos, foi assinado pelo governador na última sexta-feira e foi publicado nesta segunda-feira na página 19 do Diário Oficial do Governo do Distrito Federal.

 

O decreto é claro: “Fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal”. O artigo segundo do decreto liga o gerúndio à deficiência verificada no serviço público. “Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência”. O governador está em Nova York, atrás de verbas do Banco Mundial. Informou, via assessoria, que buscou fazer uma provocação e que a idéia é atacar a burocracia dos governos.

 

É isso aí: enquanto corre atrás de verbas, ele demite verbos!

 

O tempo é o senhor da verdade e da razão.
\\\\\\\”Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
se não houver folhas, valeu a intenção da semente.\\\\\\\”
Geir Campos citado por Henfil no poema O Rio

 

*Nem tudo o que se enfrenta, pode ser modificado,
mas nada pode ser modificado, ate’ que seja enfrentado*
(James Baldwin)
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Divinópolis- Minas Gerais


Brasil se prepara para reforma ortográfica

Agosto 22, 2007

Novas regras da língua portuguesa devem começar a ser implementadas em 2008;  mudanças incluem fim do trema

Ministério da Educação já prepara a próxima licitação dos livros didáticos, que deve ocorrer em dezembro, pedindo a nova ortografia

DANIELA TÓFOLI
DA REPORTAGEM LOCAL

O fim do trema está decretado desde dezembro do ano passado. Os dois pontos que ficam em cima da letra u sobrevivem no corredor da morte à espera de seus algozes. Enquanto isso, continuam fazendo dos desatentos suas vítimas, que se esquecem de colocá-los em palavras como freqüente e lingüiça e, assim, perdem pontos em provas e concursos.
O Brasil começa a se preparar para a mudança ortográfica que, além do trema, acaba com os acentos de vôo, lêem, heróico e muitos outros. A nova ortografia também altera as regras do hífen e incorpora ao alfabeto as letras k, w e y (veja quadro). As alterações foram discutidas entre os oito países que usam a língua portuguesa -uma população estimada hoje em 230 milhões- e têm como objetivo aproximar essas culturas.
Não há um dia marcado para que as mudanças ocorram -especialistas estimam que seja necessário um período de dois anos para a sociedade se acostumar. Mas a previsão é que a modificação comece em 2008.
O Ministério da Educação prepara a próxima licitação dos livros didáticos, que deve ocorrer em dezembro, pedindo a nova ortografia. “Esse edital, para os livros que serão usados em 2009, deve ser fechado com as novas regras”, afirma o assessor especial do MEC, Carlos Alberto Xavier.
É pela sala de aula que a mudança deve mesmo começar, afirma o embaixador Lauro Moreira, representante brasileiro na CPLP (Comissão de Países de Língua Portuguesa).  “Não tenho dúvida de que, quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade se adequará. Levará um tempo para que as pessoas se acostumem com a nova grafia, como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor aos poucos.”
Tecnicamente, diz Moreira, a nova ortografia já poderia estar em vigor desde o início do ano. Isso porque a CPLP definiu que, quando três países ratificassem o acordo, ele já poderia ser vigorar. O Brasil ratificou em 2004. Cabo Verde, em fevereiro de 2006, e São Tomé e Príncipe, em dezembro.
António Ilharco , assessor da CPLP, lembra que é preciso um processo de convergência para que a grafia atual se unifique com a nova. “Não se pode esperar resultados imediatos.”
A nova ortografia deveria começar, também, nos outros cinco países que falam português (Portugal, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e Timor Leste). Mas eles ainda não ratificaram o acordo.
“O problema é Portugal, que está hesitante. Do jeito que está, o Brasil fica um pouco sozinho nessa história. A ortografia se torna mais simples, mas não cumpre o objetivo inicial de padronizar a língua”, diz Moreira.
“Hoje, é preciso redigir dois documentos nas entidades internacionais: com a grafia de Portugal e do Brasil. Não faz sentido”, afirma o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça.
Para ele, Portugal não tem motivos para a resistência. “Fala-se de uma pressão das editoras, que não querem mudar seus arquivos, e de um conservadorismo lingüístico. Isso não é desculpa”, afirma.

 

Colégio trocará livros didáticos em até 2 anos

DA REPORTAGEM LOCAL

Colégios particulares de São Paulo já estão se preparando para a reforma ortográfica. As 165 escolas associadas da rede Pueri Domus, por exemplo, terão, em até dois anos, todo o material didático adequado às novas regras.
Na Fuvest, o maior vestibular do país, não há data definida para a aplicação das regras. Na editora Sextante, a nova ortografia passará a ser incorporada aos novos livros e aos títulos do catálogo à medida que forem, respectivamente, lançados e reimpressos. Já a Companhia das Letras e a Nova Fronteira informaram que ainda não definiram de que forma farão as alterações.
Antonio Carlos Sartini, superintendente do Museu da Língua Portuguesa, também aguarda o início da nova ortografia. “Estaremos atentos e iremos observar e analisar todas as mudanças.”
(DT)

Para escritores, trabalho será do revisor

Autores pretendem deixar para os revisores de seus livros o trabalho de adaptar o texto às novas regras ortográficas

O escritor Ruy Castro diz que já passou “da idade de reaprender a escrever” e que pretende continuar usando as regras antigas

 

DA REPORTAGEM LOCAL

“O Chico achou ótima a ideia, porém prefere permanecer tranquilo nas férias.” Foi essa a resposta bem-humorada do assessor de imprensa de Chico Buarque, Mário Canivello, ao pedido de entrevista da Folha sobre a nova ortografia. Em férias, o cantor e escritor não pode responder o que acha das mudanças, mas seu assessor já pratica as novas regras. “Idéia” sem acento e “tranqüilo” sem trema serão cada vez mais comuns nos próximos anos.
Quem poderia se beneficiar com as alterações é o escritor e colunista da Folha Ruy Castro. Registrado com um y no nome, ele conta que passou a vida sendo vítima dos legalistas, para quem a letra não existia. “Para eles, Ruy deveria ser Rui. Pelo menos nisso, para mim, a nova reforma será ótima. Ela garante o meu direito ao y, e, assim, os antigos legalistas podem ir lamber sabão… e, como são legalistas, terão de se curvar à nova ortografia.”
O escritor diz que sempre se orgulhou de respeitar as regras da língua, mas que tudo tem um limite. “Em criança, fui ensinado a escrever “tôda” porque havia um pássaro, que nunca vi mais gordo, chamado “toda”. Depois, aboliram o circunflexo em “toda” e mandaram o tal pássaro passear. E assim fizeram com todos os acentos diferenciais”, conta. “Adaptei-me facilmente àquela nova ortografia e até hoje venho utilizando-a com razoável eficiência. Mas, agora, chega. Já passei da idade de reaprender a escrever. Vou seguir usando a ortografia vigente no dia de hoje e, no futuro, se quiser, o computador que me corrija.”
O computador ou os revisores das editoras. Serão eles que também farão as correções dos novos livros de Marçal Aquino e Luiz Ruffato, por exemplo. “Fui revisor em jornal e sempre gostei muito da língua. Como todo brasileiro, porém, não sou grande conhecedor das regras. Me preocupo mais, por exemplo, em evitar palavras repetidas porque sempre há a figura do revisor”, diz Marçal, autor de “Cabeça a Prêmio”.
Ele afirma que acha bem-vindo tudo o que for para simplificar a grafia. Já Ruffato diz não ser contra nem a favor. “Tem coisas mais urgentes para serem resolvidas, como uma melhor relação cultural com os países lusófonos. Mal conhecemos os países da África que falam português.” O escritor de “Eles Eram Muitos Cavalos” afirma que vai continuar redigindo seus livros do mesmo jeito. “O trabalho será mesmo dos revisores.”
(DANIELA TÓFOLI)

A FAVOR

Separados pela mesma língua

MAURO VILLAR
ESPECIAL PARA A FOLHA

VOCÊ SE SENTE confortável por não ter de escrever christallino, phantasma, theísmo? Pois foi uma simplificação da ortografia, na década de 1910, que fez que passássemos a escrever tais palavras como agora o fazemos.
A ortografia é uma convenção, mas somos a única língua no mundo com dois cânones oficiais ortográficos, um europeu e um brasileiro. O árabe é a língua de 250 milhões de pessoas em 21 países do mundo. Claro que elas não se expressam no mesmo árabe. Mas a língua oficial dos meios de comunicação de massa em todo o mundo árabe é escrita do mesmo jeito (o árabe moderno unificado ou comum), compreensível em todos os países islamitas ou onde o árabe seja falado. O espanhol é usado por cerca de 450 milhões de pessoas em 19 países.
Quarta língua mais falada do mundo, são inúmeras as suas variantes, mas aqueles que a utilizam seguem um padrão escrito comum, uniforme: só há uma forma oficial de grafá-la. O francês é língua de 125 milhões de pessoas na Europa, África, América Central e Oceania. É língua de 26 países. Sua ortografia complicada e arcaizante é baseada na grafia legal do francês medieval, codificado no século 17 pela Academia Francesa. É extensa a lista das suas variedades dialetais, mas só há uma forma de escrever o francês padrão em todo o mundo. É o caso também do inglês, primeira língua de 1 bilhão de pessoas: seu padrão ortográfico é basicamente o mesmo para todos, com pequenas divergências. Por que Portugal e Brasil seriam dois países separados pela mesma língua, quando outras línguas do mundo com muito maiores óbices resolveram seu problema ortográfico?

 


MAURO VILLAR é co-autor do “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” e diretor do Instituto Houaiss de Lexicografia.

CONTRA

O custo supera o benefício

PASQUALE CIPRO NETO
COLUNISTA DA FOLHA

A IDÉIA DE UMA ortografia igual para todos os (hoje oito) países lusófonos é sustentada por este argumento, apresentado pelo grande Antônio Houaiss (o pai brasileiro do “Acordo”) no “Breve Histórico da Língua e da Ortografia Portuguesa”: “A existência de duas grafias oficiais da língua acarreta problemas na redação de documentos em tratações internacionais e na publicação de obras de interesse público”. Sim, isso é fato.
Um sueco que queira estudar português pode ficar em dúvida entre “adoptar” (Portugal) e “adotar” (Brasil), por exemplo.
Nesse caso, o “Acordo” abrasileira a grafia, o que desagrada aos portugueses, habituados (há décadas) ao “p” e ao “c” “mudos” de diversas palavras.
E como faria o sueco se tivesse de optar entre “cômodo” (Brasil) ou “cómodo” (Portugal)? Jogaria uma moedinha para o alto, visto que, nesse e em muitos outros casos, o projeto de unificação não unifica…
Mas o “Acordo” não se limita a “uniformizar” a grafia: aproveita a ocasião para estabelecer outras alterações no sistema ortográfico. A mais marcante talvez seja a que dispõe sobre o emprego do hífen. O que hoje é muito ruim muda para… Para igual ou pior. A mudança nos diferenciais de tonicidade é outro ponto negativo. Na ânsia de eliminar acentos mais que inúteis, como o de “pêra” e “pólo”, elimina-se também o de “pára” (verbo), mais que essencial. Some-se a tudo isso o desconforto da inevitável convivência -por um longo período- com duas grafias (a “nova”, que seria vista nos jornais e revistas, por exemplo, e a “velha”, que estaria diante de nós nos livros, enciclopédias etc.) e se chega à conclusão de que o custo supera os benefícios. Quem viveu a reforma de 1971 sabe bem do que estou falando. É isso.

 


PASQUALE CIPRO NETO é autor de livros didáticos e apresentador e idealizador do “Nossa Língua Portuguesa”, da Rádio e TV Cultura.

O que muda

Entre 0,5% e 2% do vocabulário brasileiro será alterado com as mudanças

HÍFEN
Não se usará mais:

1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em “antirreligioso”, “antissemita”, “contrarregra”, “infrassom”. Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, “hiper-”, “inter-” e “super-”- como em “hiper-requintado”, “inter-resistente” e “super-revista”
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: “extraescolar”, “aeroespacial”, “autoestrada”

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. “pára” (flexão do verbo parar) de “para” (preposição)
2. “péla” (flexão do verbo pelar) de “pela” (combinação da preposição com o artigo)
3. “pólo” (substantivo) de “polo” (combinação antiga e popular de “por” e “lo”)
4. “pélo” (flexão do verbo pelar), “pêlo” (substantivo) e “pelo” (combinação da preposição com o artigo)
5. “pêra” (substantivo – fruta), “péra” (substantivo arcaico – pedra) e “pera” (preposição arcaica)

ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras “k”, “w” e “y”

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:

1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e seus derivados. A grafia correta será “creem”, “deem”, “leem” e “veem”
2. em palavras terminados em hiato “oo”, como “enjôo” ou “vôo” -que se tornam “enjoo” e “voo”

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:

1. nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas, como “assembléia”, “idéia”, “heróica” e “jibóia”
2. nas palavras paroxítonas, com “i” e “u” tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: “feiúra” e “baiúca” passam a ser grafadas “feiura” e “baiuca”
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com “u” tônico precedido de “g” ou “q” e seguido de “e” ou “i”. Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem

GRAFIA
No português lusitano:

1. desaparecerão o “c” e o “p” de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como “acção”, “acto”, “adopção”, “óptimo” -que se tornam “ação”, “ato”, “adoção” e “ótimo”
2. será eliminado o “h” de palavras como “herva” e “húmido”, que serão grafadas como no Brasil -”erva” e “úmido”

Fonte: Folha de S. Paulo


Falando a respeito da morte: Vai indo que eu já vou.

Julho 22, 2007

Vai indo que eu já vou
Documentário retoma debate sobre o jeito brasileiro de expressar o tabu da morte

Luiz Costa Pereira Junior

Mosaico dos personagens entrevistados no documentário: humor subverte tabu

Com a habitual clareza que caracterizava seu estilo irônico, o poeta Mário Quintana um dia notou que a morte, tão democrática na aparência, jamais igualou ninguém: há caveiras que têm todos os dentes. Para além das implicações existenciais e religiosas, a morte exerce um fascínio cultural muitas vezes inscrito na linguagem. No caso brasileiro, inscrito com graça e leveza. Que o diga o documentário Vai Indo que Eu Já Vou, de Rubem Barros e Marcelo Perez, o grande premiado na categoria DVD no Festival de Cinema de Cuiabá, mês passado.

Com elegância e ricos depoimentos, o curta-metragem traça um painel da importância dada ao tema por quem menos parece preocupado com o assunto.

A florista de cemitérios sonha com a decoração do próprio velório. A dona de casa só pensa no vestido branco que usará ao caixão, para compensar o que não pôde ter no casamento. Outra, pernambucana, descreve os enterros festivos de sua terra, em que se “bebe o morto”. O professor irlandês canta o réquiem de seu gosto. O mexicano restaurateur enumera os apelidos que sua terra natal dá à “elegante”, “gostosa”, “dama”. A vendedora dark narra o fascínio pelo lado negro da caveira e a aposentada idosa brinca com a possibilidade de comprar um mausoléu. Todos deixam de lado o pudor e revelam uma franqueza desconcertante ao lidar com o tema.

A idéia da morte tem uma carga psicológica muito própria, dizem Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no Dicionário dos Símbolos (José Olympio Editora, 1989). O documentário de Barros e Perez relembra que há um modo brasileiro de lidar com essa carga. Que a morte é sim intimidante (signo das forças negativas, a aniquilação plena, do mistério intrigante, de quem não sabe o que vem depois), mas também encarada como libertadora (por causa das penas e das preocupações que deixam de nos atormentar).

Assim, a própria forma como a nossa cultura a expressa reflete uma duplicidade de sensações – um pesar sem perda do humor – inspirada pela morte. Em O Morto Brasileiro, ensaio publicado em Tradição, Ciência do Povo (Perspectiva, 1971), Luís da Câmara Cascudo recuperou o vasto vocabulário nacional referente ao defunto, aos gêneros de morte e aos estados de agonia.

- Todas as nuanças, da piedade ao sarcasmo, aparecem, na razão direta da estima e inversa do quadrado das distâncias amistosas – escreveu o etnógrafo.

Para Cascudo, a noção vaga de que a morte é o testemunho mais antigo da igualdade humana (que Quintana questiona) nos liberaria a lidar com o assunto de forma muitas vezes sarcástica (ver quadros).

Cascudo recupera expressões históricas envolvendo a “dama branca”, como a chamava Manuel Bandeira. A mais deliciosa delas é “morte em pecado mortal”. Em tempos de fervor católico, era considerada a morte eterna, a condenação sem volta. Cascudo lembra uma passagem de História do Império, publicado em 1927 por Tobias Monteiro com gravidade pedagógica, em que um médico, amante de Dona Carlota Joaquina, escapou de ser abatido a tiros ao sair dos aposentos dela por ter D. João VI evitado o desfecho, alegando que a vítima não podia morrer “por achar-se naquele momento em pecado mortal”.

Carga psicológica

Vai Indo que Eu já Vou recupera um pouco da gravidade boa-praça com que as pessoas lidam com a idéia de morte no Brasil.

- O Vai Indo é tributário de um “cinema da palavra”. Nele, falar da morte é uma espécie de expiação antecipada do trauma futuro – diz o co-diretor Rubem Barros.

Cena de Vai Indo que Eu Já Vou: a “elegante” decora um restaurante mexicano

Barros, que também é editor da revista Educação, diz que o documentário recompõe uma idéia do filósofo Henri Bergson, de que a angústia do desconhecido, do incerto, leva o ser humano a criar formas de enfrentar seus medos. Para o filósofo, disso decorreria a criação das religiões, da própria literatura e de outras formas de arte.

- De um lado, estimulamos a reconstituição da memória individual e, por meio dela, a reconstrução de memórias coletivas. De outro, propomos que os entrevistados entrem num jogo fabulatório sobre a morte, na linha do Bergson.

Alguns dos entrevistados se encaixaram à perfeição nessa proposta. A hoje cinqüentona Sebastiana de Farias, que migrou para São Paulo com pouco mais de 20 anos, por exemplo, relembra com riqueza de detalhes os costumes do interior de Pernambuco, onde foi criada. O depoimento dela, por si só, poderia resultar num curta-metragem.

- Comprovamos que a lembrança do vivido e a fabulação do que se gostaria de viver funcionam muito melhor do que conversar sobre conceitos ligados a um dado assunto – diz Barros.

A julgar pela sua graciosidade, graça ligeira de quem saboreia até assunto espinhoso, Vai Indo que Eu Já Vou mostra a quem tem oportunidade de vê-lo ser capaz de evitar a chaga maior de toda morte: o esquecimento. Agora, é saber se chega aos cinemas.

Ditados populares

- Na casa onde tem defunto não se fecha a porta
  (velhos que andam com barguilhas desabotoadas).
- Quem se faz de morto acaba enterrado.
- Matar defunto (divulgar notícias velhas, o mesmo que “chover no molhado”).
- Defunto sem ouro, defunto sem choro.

EXPRESSÕES DA MORTE
EXPRESSÃO SIGNIFICADO
Abotoou o paletó de madeira – Fechou-se no caixão.
Bateu a bola – O derradeiro movimento lúcido:
“bola” é cabeça, crânio, quengo.
Bateu as botas –  Para iniciar a jornada a cavalo.
Bateu a caçoleta – Caçoleta é fuzil de espingarda antiga, uma provável alusão à freqüência de mortes por assassinato no Brasil.
Bateu o cachimbo — Os vícios morreram.
Está na Terra dos Pés-juntos! - Alusão ao hábito de atarem os pés do defunto com um lenço, para impedir que, na rigidez cadavérica, se conservem as pontas dos pés viradas para fora.
Foi para o Buraco de Camundá – O escravo Camundá teria inaugurado o cemitério de Pendências, hoje cidade do Rio Grande do Norte.
Lascou-se –  Desfez-se.
Esticou os cambitos  – Cambito é a perna fina e também uma espécie de forquilha da canga com que se prendem os animais de um carro de boi.
Morte de Mau-sucesso –  Morrer de parto.

(Retirado de  REVISTA LINGUA PORTUGUESA – Assinatura pessoal

Créditos todos da Revista e do Autor.