Sobre Graciliano Ramos (por Isabela)

Novembro 24, 2008

Perguntas e respostas que fizemos em torno de Graciliano Ramos.

Este texto tem a ver com a série de posts sobre o mesmo assunto publicados no blog Sub Rosa – Flabbergasted.

1- Como foi seu primeiro contato com Graciliano Ramos?
Meus pais moraram durante alguns anos em Palmeira dos Índios (município onde Graciliano Ramos foi prefeito) e foi lá onde nasci e morei até os doze anos. Eu também ia muito à Quebrangulo, cidade natal do escritor. Aos oito/nove anos de idade, quase todos os dias, quando voltava da escola, passava (e entrava) na Casa Museu Graciliano Ramos e foi lá na biblioteca onde li vários livros (não podia pegar emprestado pois era muito pequena), como Robinson Crusoe, Os três mosqueteiros, O conde de Monte Cristo e várias estórias infantis. De Graciliano, o primeiro que li foi “São Bernardo”, que adoro, mas já estava com dezessete anos, mais ou menos.

2-Acha que o texto dele é de dificil leitura (“leitura difícil”)?
Não.

3- Acha que ele não é popular? É popular?
Penso que é um autor conhecido, traduzido, mas não é popular no sentido que você apresenta, como Paulo Coelho, não é? Também acho que por ser autor de leitura “obrigatória” para o vestibular, fica difícil não ler ao menos uma de suas obras (ou um resumo).

Sobre citações:
Você tocou em um ponto interessante, realmente, ele não é tão citado. Fiz uma pesquisa no Google (com os nomes entre aspas), veja o que deu:

Autor                              Citações (04/11)              Hoje (24/11)

Graciliano Ramos                    387.000                        397.000
Guimarães Rosa                      696.000                        746.000
Machado de Assis                1.900.000                     2.070.000
Jorge Amado                      17.300.000                   10.700.000

Claro que esses resultados não são apenas de citações, textos, frases ou “pensamentos” mas pode dar uma idéia. Agora, Jorge Amado, ganha até de Paulo Coelho (7.310.000) e de Fernando Pessoa(!!) (3.000.000) que eu imaginava que seria o campeão, mas também não é muito “citado” do tipo “como diz Jorge Amado” em blogs e sites de “frases e pensamentos”. Ah, e Manoel de Barros, que é mais “desconhecido” do público e teve 162.000 citações no Google, acho que é muito mais citado dessa forma. Por falar nisso, uma frase bastante comum na net (707 resultados entre aspas) atribuída a Graciliano Ramos é:

“Quando se quer bem a uma pessoa a presença dela conforta. Só a presença, não é necessário mais nada”.

Você sabe se é, realmente, dele?

Beijos.


LOUISE LABÉ: criatura de papel?

Maio 9, 2008

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
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Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008


PARA LER COMO UM ESCRITOR

Março 27, 2008

PARA LER COMO UM ESCRITOR – UM GUIA PARA QUEM GOSTA DE LIVROS E PARA QUEM QUER ESCREVÊ-LOS

É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que, sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa, em busca do segredo do ‘escrever bem’. De cada um, extrai lições.

A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividadenão pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso Perdido, ou Kafka suportando um seminário em queseus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeitoacorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não osconvence.

O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo?Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendouma fraude criminosa.

Em vez disso, respondo relembrando minha própria e valiosíssima experiência, não como professora, mas como aluna numa das poucas oficinas de ficção que freqüentei. Foi na década de 1970, durante minha breve carreira como estudante de pós-graduação em literatura inglesa medieval, quando me foi permitido o prazer de fazer um curso sobre ficção. O generoso professor ensinou-me, entre outras coisas, a editar meu trabalho. Para qualquer escritor, a capacidade de olhar uma frasee identificar o que é supérfluo, o que pode ser alterado, revisto, expandido ou – especialmente – cortado é essencial. É uma satisfação ver que afrase encolhe, encaixa-se no lugar, e por fim emerge numa forma aperfeiçoada:clara, econômica, bem definida.

Ao mesmo tempo, meus colegas proporcionavam-me meu primeiropúblico real. Nessa pré-história, antes que a massificação da fotocópiapermitisse aos alunos distribuir manuscritos previamente, líamos nossotrabalho em voz alta. Naquele ano, eu estava começando o que viria a sermeu primeiro romance. E o que fez uma importante diferença para mimfoi a atenção que sentia na sala enquanto os outros ouviam. Fui estimuladapela ânsia que tinham de ouvir mais.

Essa é a experiência que descrevo, a resposta que dou para as pessoasque me perguntam sobre o ensino de escrita criativa: uma ofi cina podeser útil. Um bom professor pode lhe mostrar como editar o seu trabalho.A turma adequada pode formar a base de uma comunidade que oajudará e sustentará.

Mas não foi nessas aulas, por mais úteis que tenham sido, que aprendia escrever.

Como a maioria dos escritores, talvez todos, aprendi a escrever escrevendoe lendo, tomando os livros como exemplo.

Muito antes de a idéia de palestras de escritores passar pela mente dealguém, escritores aprendiam pela leitura da obra de seus predecessores.Eles estudavam métrica com Ovídio, construção de trama com Homero,comédia com Aristófanes; afiavam seu estilo absorvendo as frases clarasde Montaigne e Samuel Johnson. E quem teria podido pedir melhoresprofessores: generosos, não-críticos, abençoados com sabedoria e gênio,tão infinitamente magnânimos como só os mortos podem ser?

Embora muitos escritores tenham aprendido com os mestres deuma maneira formal, metódica — Harry Crews descreveu como analisou um romance de Graham Greene para ver quantos capítulos continha, quanto tempo abrangia, como Greene lidava com ritmo, tom e ponto de vista —, a verdade é que esse tipo de educação envolve mais freqüentementeuma espécie de osmose. Depois que escrevo um ensaio em quecito extensamente grandes escritores, tendo de copiar longas passagensde suas obras, noto que meu próprio trabalho se torna um pouco maisfluente, ainda que por um breve momento.

No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de quemais gostava. Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneiramais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como oescritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregandodetalhes e diálogos. E à medida que escrevia, descobri que escrever, como ler, fazia-se uma palavra por vez, um sinal de pontuação por vez. Requer o que um amigo meu chama de “pôr cada palavra em xeque”: mudar um adjetivo, cortar uma frase, remover uma vírgula e pôr a vírgulade volta.

Leio minuciosamente, palavra por palavra, frase por frase, ponderandocada aparentemente mínima decisão tomada pelo escritor. E embora seja impossível recordar todas as fontes de inspiração e instrução,posso lembrar os romances e contos que me pareceram revelações: poços de beleza e prazer que eram também livros didáticos, aulas particularesda arte da ficção.

Este livro pretende ser em parte uma resposta a essa pergunta inevitável sobre como os escritores aprendem a fazer algo que não pode serensinado. O que os escritores sabem é que, em última análise, aprendemosa escrever com a prática, o trabalho árduo, a repetição de tentativas e erros, o sucesso e o fracasso e com os livros que admiramos. Assim, o livro que se segue representa um esforço para recordar minha própria educação como romancista e ajudar o leitor apaixonado e aquele que desejaser escritor a compreender como um escritor lê. (…)


A fé de Arthur C. Clarke (do NYT)

Março 25, 2008

Ficção científica do britânico, morto na última quarta-feira, é permeada de linguagem religiosa

Divulgação
2001.jpg
Cena de “2001: Uma Odisséia no Espaço” em que o comandante Dave Bowman (Keir Dullea) é surpreendido por HAL 9.000

EDWARD ROTHSTEIN
DO “NEW YORK TIMES”

Absolutamente nenhum rito religioso de qualquer tipo deve ser associado com meu funeral”, foram as instruções deixadas por Arthur C. Clarke, que morreu na última quarta-feira, 19 de março,  aos 90 anos. Isso pode não surpreender a ninguém que soubesse que esse escritor de ficção científica via a religião como um sintoma da “infância” da humanidade, algo a ser superado com o crescimento.
Mas esse fervor ainda destoa, porque, quando se trata das escrituras da ficção científica moderna, e da espantosa geração de inovadores proféticos que foram seus contemporâneos -Isaac Asimov, Robert Heinlein e Ray Bradbury-, os textos de Clarke foram os mais bíblicos, os mais preparados para amplificar a razão com a convicção mística, os mais religiosos no sentido mais amplo de religião: especular sobre o princípio e os fim, e como passamos de um ao outro.
O filme que Stanley Kubrick fez a partir de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, de Clarke -em parceria com o autor- assombra não pelo seu imaginário de inteligência artificial e engenharia de estações espaciais, mas por sua evocação das origens da humanidade e sua visão de um futuro transcendente, incorporada em um feto humano solto no espaço.
Até mesmo os títulos de algumas histórias de Clarke invocam a linguagem escritural. “If I Forget Thee, Oh Earth” (“Se Eu Esquecer a Ti, Ó, Terra”) fala de um menino em uma colônia lunar que é levado por seu pai para ver seu planeta-mãe, tornado inabitável pela guerra nuclear, uma experiência que inspira um sonho de retorno futuro a ser passado de geração em geração. Em “The Nine Billion Names of God” (“Os Nove Bilhões de Nomes de Deus”), monges de um convento de ares tibetanos acreditam que o grande desígnio da humanidade é escrever os 9 bilhões de permutações de letras que formam o nome secreto de Deus, um projeto assistido por representantes de uma empresa do tipo IBM, que fornecem o equipamento para que o projeto possa chegar a seu aguardado termo.
O simbolismo religioso nem sempre é benevolente, claro. Naquele que talvez seja o romance mais e perturbador de Clarke, “O Fim da Infância”, uma raça alienígena de Senhores Supremos, com aparente generosidade, estabelece uma utopia na Terra, eliminando as guerras e proporcionando uma era de bonança. Mas não é por acaso que, quando os Senhores Supremos são finalmente descritos, eles têm a aparência de criaturas satânicas, com asas, chifres e cauda pontiaguda.
Qualquer que seja a atitude -e quase sempre ela é ambígua-, a religião percola o reino de Clarke. Ele solicita a tela do Gênese e, sobre ela, encena seus experimentos mentais. Toda ficção científica faz isso até certo ponto, tentando imaginar universos alternativos: e se o carbono não fosse o elemento fundamental dos seres vivos? E se existisse uma sociedade que nunca tivesse visto uma noite?
A obra de Clarke, no entanto, toca as bordas dessa moldura: tenta examinar os momentos em que as coisas começam e quando elas terminam. No conto “Rescue Party” (“Equipe de Resgate”), alienígenas chegam para salvar a Terra de uma explosão solar iminente.
Eles descobrem que os humanos, uma espécie primitiva que descobrira como usar sinais de rádio meros 200 anos atrás, já salvaram a si próprios, lançando uma frota de espaçonaves rumo às estrelas, sabendo que sua jornada levaria centenas de anos. Os salvadores ficam chocados com a ousadia. “Esta é a civilização mais jovem do Universo”, um deles observa. “Quatrocentos mil anos atrás ela nem existia. Como será daqui a 1 milhão de anos?”
O conto profetiza o domínio dessa espécie -um domínio que, como Clarke nos faz sentir, nem sempre é bem-vindo.
Tal apocalipse é o feijão-com-arroz da ficção científica, mas às vezes, com Clarke, é também a comunhão, o momento de transcendência no qual algum destino se cumpre, alguma possibilidade se abre. Daí o feto em “2001″.
Esse lado do trabalho de Clarke talvez seja o mais sinistro, especialmente porque suas especulações místicas vêm acompanhadas de uma capacidade ímpar de imaginar mundos eminentemente plausíveis. Mas atos de racionalidade e especulação científica são apenas o começo de suas visões. A razão pura é insuficiente. Algo mais é necessário. Para qualquer um que tenha lido Clarke nos anos 1970 e 1980, quando a exploração espacial e a pesquisa científica tinham um apelo extraordinário, sua ficção científica tornou aquela empresa ainda mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, na qual os feitos de um punhado de décadas se encaixam numa visão de proporções épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é à toa que duas gerações de cientistas foram afetadas por seu trabalho.
Apesar de sua celebrada capacidade de fazer previsões, é incerto que Clarke soubesse precisamente o que via naquele futuro. Há algo de frio em suas visões, especialmente quando ele imagina a transformação evolutiva da humanidade. Ele deixa para trás tudo aquilo que nós reconhecemos e conhecemos e não dá muitas balizas para vivermos no mundo que reconhecemos e conhecemos. Nesse sentido, seu trabalho tem pouco a ver com religião.
Mas, no quadro maior, a religião é inevitável. Clarke ficou famoso por dizer que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia”. Talvez qualquer ficção científica suficientemente sofisticada, ao menos em seu caso, seja quase indistingüível de religião.

Retirado da Folha de S. Paulo – livre apenas para assinantes: Eis o endereço:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2303200804.htm

 


“Divina Comédia” lidera no dominiopúblico.gov.br

Janeiro 3, 2008

Obra de Dante Alighieri desbanca Fernando Pessoa e Machado de Assis e é a mais procurada no portal Domínio Público

Crise da arte contemporânea, aparição do autor em obras atuais e até novela da Globo são causas do sucesso na opinião de especialistas

Reprodução
Clássico de Dante lidera o ranking de downloads
Fonte: Site do Domínio Público, dados de ontem

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Engana-se quem pensa que é Machado de Assis, Shakespeare, Fernando Pessoa ou qualquer outro livro da lista dos obrigatórios para o vestibular o mais procurado dos que estão em domínio público. A obra com mais downloads no portal do governo que pretende reunir os livros disponíveis gratuitamente -ou, pelo menos, os mais importantes- é do século 14, foi escrita em toscano e teve seus versos traduzidos para o português do século 19 por José Pedro Xavier Pinheiro, um baiano que morreu em 1882.
Os números são do portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br), mantido pelo Ministério da Educação: “A Divina Comédia”, do florentino Dante Alighieri (1265-1321), deixa para trás, e por muito, clássicos como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, e “Dom Casmurro”, de Machado -168 mil acessos contra 41 mil e 39 mil, respectivamente.
São obras de domínio público as escritas por autor morto há mais de 70 anos; o site também abriga aquelas cujos autores ou as famílias concedem uma licença. Foi o caso de “Grande Sertão: Veredas” -um link do Domínio Público deu acesso à íntegra do livro durante as comemorações de 50 anos da obra de Guimarães Rosa; depois, a editora Nova Fronteira a retirou da rede. A ação foi considerada “promocional” por funcionários do ministério.

Comédia
“A Comédia dos Erros”, de Shakespeare, aparece em quarto lugar na lista das mais baixadas no site -a coincidência do nome com a primeira colocada dá corda para uma piada corrente no MEC, segundo a qual o internauta mais desavisado estaria baixando as duas obras pensando fazerem elas parte do gênero cômico.
Já Maria Teresa Arrigoni, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e especialista em Dante, associa o fenômeno a uma reaparição da obra do autor em manifestações artísticas atuais, como o suspense best-seller “Os Crimes do Mosaico” (Planeta do Brasil, 2006), de Giulio Leoni, que tem o próprio Dante como detetive.
Até mesmo a novela “Sete Pecados”, da Globo, entraria nessa retomada dos temas da “Divina Comédia”, dos pecados à própria noção de paraíso, inferno e purgatório. A noção de purgatório, aliás, era recente quando a obra foi escrita, aponta Arrigoni. Estudos do historiador francês Jacques Le Goff mostram que ela surgiu por volta do século 13.
O professor de teoria literária da Unicamp Carlos Berriel, por sua vez, aponta a coincidência -não casual- da ascensão de Dante com o que chama de crise da arte contemporânea -”"uma crise que antecede o desaparecimento”.
“A agonia da Bienal de São Paulo é um lado da mesma moeda do interesse em Dante”, diz. “Certas manifestações do moderno estão esgotadas, e a Bienal, que é a expressão máxima do moderno, não diz mais nada a mais ninguém.”
Na opinião de Berriel, Dante organiza o mundo. “Ele torna o além algo totalmente hierarquizado. Mostra que, por princípio, todo mundo pode organizar o seu inferno, céu e purgatório. Dante é antípoda da nossa época de ausência de hierarquia, de valores, com uma cultura descentrada.”
O coordenador do Domínio Público, Marco Antonio Rodrigues, por sua vez, apresenta outras hipóteses para o sucesso de Dante. Primeiro: “A Divina Comédia” foi uma das primeiras obras a serem cadastradas no portal. Segundo: diferente de “Dom Casmurro”, por exemplo, só tem uma versão na página. E, por fim, após o alto número de acessos, foi criado um link específico para a obra no menu do Domínio Público.
A própria lista das obras mais acessadas, aponta, é uma alavanca para que as primeiras colocadas permaneçam no rol -ela motiva os internautas a conhecer os “hits”.
Essa seria uma explicação também para outros “fenômenos” do portal, como os infantis “A Borboleta Azul” e “O Peixinho e o Gato”, da professora baiana Lenira Almeida Heck, hoje moradora de Lajeado (RS), que ficam em segundo e terceiro lugar no ranking -para se ter uma idéia, “Dom Casmurro” ocupa só a 11ª posição.
Lenira assina, ao lado de seu nome verdadeiro, como “Júlia Vehuiah”, que junta o apelido da mãe, que se chamava Julieta, com o nome de seu anjo. O codinome foi criado na época da composição do hino de Lajeado; seguiu com a autora e, hoje, serve para o que ela chama de despreocupação com o fato de sua obra estar disponível gratuitamente na internet -embora ela não dê permissão para o internauta imprimi-la.
“Sou professora, não dependo só dos meus livros para viver. E, se sou inspirada por Júlia e Vehuiah, a obra não me pertence.” Ainda assim, ela já cuida da memória de seu nome e vislumbra um futuro de sucesso. “Guardo todas as minhas crônicas e tudo o que sai sobre mim. No dia em que eu não estiver mais aqui, vai haver muito material para falar de Lenira Almeida Heck.”

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RETIRADO DAQUI. FOLHA DE S.PAULO (ILUSTRADA)


Gilberto Freyre (1900-1987) – Museu da Língua Portuguesa

Novembro 26, 2007


Museu da Língua Portuguesa homenageia Gilberto Freyre; montada como uma casa, mostra é visita à obra do autor de “Casa-Grande & Senzala’

Divulgação
Freyre, a mulher, Magdalena, e a filha Sonia Maria, num passeio de gôndola em Veneza, em 1960

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

O Museu da Língua Portuguesa abre hoje, para convidados, e amanhã para o público, sua terceira exposição temporária. Depois de homenagear Guimarães Rosa e Clarice Lispector, o museu abriga, até o dia 4 de maio de 2008, “Gilberto Freyre – Intérprete do Brasil”, seu tributo ao sociólogo e antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, morto há 20 anos.
Freyre é autor, entre outros, de “Casa-Grande & Senzala” (1933), que já está em sua 48ª edição. A obra tornou-se um marco na historiografia brasileira, opondo-se ao mero registro cronológico de feitos grandiosos, para se debruçar sobre hábitos nacionais até então vistos como insignificantes, do ponto de vista da interpretação do país, e ainda sua história oral, manuscritos de arquivos públicos e privados etc.
A mostra é uma visita metafórica à “casa”, à obra de Freyre. Ela reúne, pela primeira vez em conjunto, 27 pinturas, entre aquarelas e telas a óleo, feitas por Freyre, que retratam temas que lhe eram caros, como a religiosidade, a família e os sobrados. Assinadas apenas com “Gil”, as obras não são datadas, mas, segundo a curadora Julia Peregrino, foram feitas durante as décadas de 1940 e 1950.
Peregrino -que já havia feito a curadoria da mostra de Clarice Lispector- divide o trabalho agora com Pedro Vásquez, o cenógrafo André Cortez e a professora Elide Rugai Bastos, da Universidade de Campinas.
“Há recantos que lembram os engenhos, os sobrados, as raízes da obra de Freyre. A idéia é que o espectador viaje na cenografia, conhecendo sua obra ao abrir gavetas, armários etc.”, adianta Peregrino.

A visita
Todo o material em exibição pertence à Fundação Gilberto Freyre ou foi garimpado das coleções particulares da família do escritor. Logo à entrada da exposição, um conjunto de paredes divididas ao meio traz frases do autor em vitrines e nichos com seus quadros.
A casa de Freyre no museu abriga ainda cinco criados-mudos com registros de recepções a que ele compareceu na década de 50, em Portugal. Duas malas com seus passaportes. E uma grande mesa, dividida em duas. Numa parte estão livros de receitas dos engenhos, material de pesquisa que usou para os livros “Açúcar” e “Casa-Grande & Senzala”. Noutra, 26 correspondências trocadas com, entre outros, o pintor Portinari, o compositor Heitor Villa-Lobos, o educador Anísio Teixeira e o sociólogo Florestan Fernandes.
Dois destaques da mostra são a exibição de documentos originais e a reprodução, em áudio, de trechos dos questionários que Gilberto Freyre fez com brasileiros de ambos os sexos, de diferentes classes sociais, nascidos entre 1850 e 1900, para a escrever outro de seus clássicos, “Ordem & Progresso”, de 1959. Os fones estão espalhados em 27 maquetes de sobrados, que novamente remetem à obra do sociólogo


Norman Mailer (31/01/1923 -10/11-2007)

Novembro 14, 2007

Escritor Norman Mailer morre nos EUA aos 84 anos

 

Normal Mailer (foto de arquivo)
 

O escritor americano Norman Mailer morreu neste sábado aos 84 anos de complicações renais.

Mailer, que venceu duas vezes o prestigiado prêmio Pulitzer, estava internado no Hospital Monte Sinai, em Nova York. No mês passado, ele foi submetido a uma cirurgia no pulmão.

O escritor, nascido em Nova Jersey em 1923, assinou dezenas de livros, poemas, peças de teatro e ensaios.

Uma de suas obras mais conhecidas é A Luta, na qual descreve o histórico enfrentamento entre Muhammad Ali e George Foreman, em 1974.

Mais do que uma simples luta de boxe, o confronto realizado no Zaire colocou cara-a-cara duas faces do mesmo Estados Unidos: George Foreman, que se vestia com as cores da bandeira americana e representava o establishment branco apesar de ser negro, e Ali, que tivera seu título de campeão mundial de pesos-pesados revogado por se recusar a servir o Exército no Vietnã. Ali acabou vencendo a luta.

Mailer também publicou outros livros de sucesso, como Os Nus e os Mortos, um relato-ficção de suas experiências no Exército durante a Segunda Guerra Mundial.

Sua última obra, The castle in the forest , ainda sem edição brasileira – a tradução livre seria algo como ‘O castelo na floresta’ -, foi publicada este ano nos Estados Unidos.

Mailer ficou conhecido por seu temperamento forte e seu antagonismo ao movimento feminista.

Ele se casou seis vezes e é pai de nove filhos. Certa vez, em entrevista à rede de TV americana NBC, o autor disse que estava preocupado porque acreditava que “as mulheres iriam dominar o mundo”.

 


Norman Mailer 1923-2007(R.i.p)

Novembro 14, 2007

norman_mailer1.jpg

Morre o escritor Norman Mailer, aos 84 anos

Vencedor do Pulitzer duas vezes, o jornalista e romancista foi vítima de falência renal aguda, ontem pela manhã

Entre os principais livros do autor norte-americano, estão “Os Nus e os Mortos”, “Os Degraus do Pentágono” e “A Canção do Carrasco”

DENYSE GODOY
DE NOVA YORK

O escritor Norman Mailer, expoente do “novo jornalismo” e um dos maiores nomes da literatura americana do pós-guerra, morreu ontem pela manhã em Nova York, aos 84 anos, de falência renal aguda. No dia 17 de outubro, a família divulgou que ele estava internado no hospital Monte Sinai após realizar uma cirurgia no pulmão.
Vencedor do Prêmio Pulitzer em duas ocasiões (1968, com “Os Exércitos da Noite – Os Degraus do Pentágono”, e 1979, com “A Canção do Carrasco”, ambos fora de catálogo no Brasil), o escritor também era conhecido pelo estilo violento e por seu antagonismo ao feminismo. Romancista, ensaísta e repórter, publicou mais de 40 livros, transitando entre a ficção e a não-ficção.
Nesta semana, saiu seu último livro, “On God: an Uncommon Conversation” (sobre Deus: uma conversa incomum), ainda inédito no Brasil, no qual critica o presidente George W. Bush e a guerra do Iraque. O romance “The Castle in the Forest” (o castelo na floresta) foi lançado no início do ano nos EUA e deve ser publicado em dezembro no Brasil pela Companhia das Letras.
Mailer escreveu uma biografia de Marilyn Monroe e contou a história de Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John Kennedy. “Uma coisa que eu sempre quis ser foi escritor”, comentou. “Queria escrever um romance que Dostoiévski e Marx, Joyce e Freud, Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler, Faulkner e até o velho e mofado Hemingway quisessem ler.”

Trajetória
Judeu nascido em Long Branch, no Estado de Nova Jersey, em 31 de janeiro de 1923, o escritor cresceu no Brooklyn, em Nova York, cidade que testemunhou seu estilo de vida ruidoso -era fumante inveterado, mulherengo, bebia e sempre arrumava encrencas. “Nova York acaba comigo. Não consigo mais ficar a noite toda na rua e escrever no dia seguinte”, disse. Há dez anos, adotou o que chamou de “vida abstêmia” e se mudou para Provincetown, Massachusetts, com a mulher, Norris Church.
Casou-se seis vezes e teve nove filhos. Em 1960, ele esfaqueou com um canivete a sua segunda mulher, Adele Morales, com quem estava desde 1954. Acabaram se reconciliando; e ela contou a sua versão do ocorrido na biografia “The Last Party” (a última festa). Por conta desse episódio e de alusões a agressões sexuais em sua obra, era freqüentemente criticado pelo movimento feminista.
Formou-se em engenharia aeronáutica por Harvard em 1943 e e serviu no Exército durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência é contada em seu primeiro romance, “Os Nus e os Mortos”, de 1948. Muito bem recebido pela crítica, o livro chegou ao topo da lista de mais vendidos.
Candidato à Prefeitura de Nova York em duas ocasiões, Mailer afundou a própria campanha ao chamar seus aliados de “bando de porcos mimados”. Descrevia-se como um “conservador de esquerda” e dizia detestar o capitalismo.


NORMAN MAILER (R.i.p)

Novembro 14, 2007

A alma de Norman Mailer
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Autor acreditou que adorar violência, sexo, transgressão e droga fazem de alguém um grande escritor. Não fazem

NUNCA simpatizei com o escritor machão. Exemplo? Hemingway, claro. A influência de Hemingway é inescapável para qualquer jornalista. Frase curta. Adjetivação mínima. Descrição impressionista. E alguns livros, como “O Sol Também se Levanta”, que fazem parte do cânone. Mas o resto é dispensável. Touros? Caça? Boxe? Cortinas de fumo para esconder males maiores. Ainda lembro o dia em que resolvi visitar a casa onde Hemingway nasceu. Eu estava em Chicago e, numa tarde de ócio, abandonei o centro e rumei para Oak Park, nos subúrbios da cidade.
Cheguei. Casa modesta, transformada em museu e velada por simpático casal de idosos que falava do bicho com intimidade familiar. Ainda perguntei se eram. Não eram. Mas sabiam tudo. Idiossincrasias de infância. A história de cada objeto. E, surpresa, a profunda infelicidade da mãe de Ernest quando soube que o filho era rapaz. Até aos seis ou sete, o menino foi educado como menina. Vestido como menina. Tratado como uma. Anos depois, o machão andava fascinado com touradas e caçadas. Freud explica.
Mas o que diria Freud de Norman Mailer, o herdeiro de Hemingway? Soube da morte de Mailer, 84, com os jornais da manhã. E tentei lembrar um livro do homem verdadeiramente memorável. Comprei o último, “The Castle in the Forest”. Desisti no meio. Uma história de Hitler como fruto de relação incestuosa entre pai e filha? Não serve. Mas o que serve? “Os Nus e os Mortos”, o “romance de guerra” que lançou Mailer para a estratosfera, podia transportar uma certa frescura narrativa e psicológica em 1948. Em 2007, é relíquia de museu. Como são relíquias de museu as ficções de Mailer, que envelheceram barbaramente mal. Nenhuma surpresa: os “romances de época” raramente sobrevivem às épocas. Falar da Segunda Guerra, ou da contracultura dos “sixties”, ou do Vietnã, ou de Marilyn Monroe tem interesse arqueológico, não literário.
Mailer acreditou que a adoração orgásmica e verborrágica da violência, do sexo, da droga e da transgressão fazem de alguém um grande escritor. Não fazem. Hoje, ler a coletânea “Advertisements for Myself”, e o ensaio “The White Negro” -apologia da psicopatia como forma de “autenticidade existencial” -, é um espetáculo cômico e trágico. A cabeça de um adolescente retardado não é um espetáculo bonito.
E eu suspeito que Mailer sabia disso. Sessenta anos de escrita, 30 livros publicados -e o que fica de todo esse ruído demencial?
Mailer respondeu em 2003, com o único livro que sobrevive. “Os Fantasmas de Norman Mailer” deveria ser leitura obrigatória para qualquer escritor com ambições. Em exercício de honestidade tocante, Mailer confessa como a fama precoce é a pior inimiga. Retira do escritor o principal instrumento da sua arte: a invisibilidade. Só a invisibilidade permite observar, refletir e escrever.
Aos 25 anos, Mailer vendeu esse luxo para ganhar todos os outros. Luxos passageiros de um mundo que exigiu dele recorrentes números de circo. O dr. Freud explica pouco? O dr. Fausto explica tudo.

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NARRAÇÃO e INFORMAÇÃO

Outubro 20, 2007

Ricardo Piglia, escritor: “A grande tensão de hoje é a que confronta a narração com a informação”
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José Andrés Rojo
Em Madri

Ricardo Piglia (nascido em Adrogué, Buenos Aires, 1940) participou ontem do Festival VivAmérica com uma intervenção na qual falou sobre uma antiga conferência do polonês Witold Gombrowicz. A maneira particular de combinar o ensaio com a narração, a ficção com elementos da realidade e da própria vida são marcas de alguns textos recentes do escritor argentino, que já provocou um terremoto no mundo literário quando publicou “Respiración Artificial”, uma novela que abriu novos caminhos e deslumbrou em sua época pela originalidade. “Plata Quemada” ["Dinheiro Queimado", publicado no Brasil pela Companhia das Letras], outro de seus romances célebres (que Marcelo Piñeyro levou para o cinema), mostrou sua habilidade para não se fechar em uma classificação.

Hoje Piglia recuperou pela editora Anagrama “Prisión Perpetua“, que reúne dois romances curtos que haviam sido publicados pela Lengua de Trapo, e em “Algunos Son el Dos” (Delcentro Editor) reuniu fragmentos de seus livros que foram ilustrados por Justo Barboza, que expõe nestes dias o resultado do trabalho na galeria madrilenha Centro de Arte Moderno.

Cleo Velleda/Folha Imagem. 18.ago.1998

O escritor Ricardo Piglia, autor de “Dinheiro Queimado” e “O Último Leitor”

El País – Em sua conferência, o senhor voltou a um antigo tema seu, o do escritor como leitor.
Ricardo Piglia –
Creio que na história da crítica os escritores foram excluídos, como se não se ocupassem de refletir sobre a literatura. Me interessa reivindicar que não é assim, que são muitos os que foram grandes leitores.

EP – Como se aproxima dessa questão?
Piglia –
Interessa-me ver como o mundo literário entrou na ficção. Em autores como Borges, Bolaño, Vila-Matas, o leitor é um personagem e o mundo literário condensa a sociedade inteira. O uso das palavras, a preocupação pelo dinheiro, as paranóias domésticas, tudo isso se concretiza na narração das peripécias dos escritores.

EP – Sobre que casos concretos está escrevendo?
Piglia –
Estou tratando da conferência como forma. Gombrowicz fez em Buenos Aires uma palestra contra os poetas que com o tempo se transformou em um elemento de referência no mundo literário. Quando ocorreu foi algo imperceptível. Depois aquilo adquire relevância. O mesmo acontece com uma conferência que Macedonio Fernández deu na rádio sobre Dom Quixote. Ou a de Borges em 1951 sobre o escritor argentino e a tradição.

EP – Por que seus romances são tão diferentes?
Piglia –
Porque tentei não me repetir. Em “Respiración Artificial” quis utilizar a novela noir. Em “La Ciudad Ausente” tentei fazer uma de ficção-científica. “Plata Quemada” quis reconstruir um fato real. Sempre houve essa vontade de experimentar. A linguagem de “Plata Quemada”, por exemplo. Quis inventar uma linguagem que tivesse a violência que tem a trama do livro.

EP – E de que trata o novo romance que está escrevendo?
Piglia –
Aparece Renzi, um personagem recorrente em muitos de meus livros, e conta uma história de amor. Intitula-se “Blanco Noturno” (Alvo noturno). Ele incorpora um antigo interesse pelo que significa escrever diários.

EP – E já tinha se ocupado dessa questão…
Piglia –
Em “Prisión Perpetua” já tratei de um escritor de diários. Me interessa muito explorar como se conta a própria vida. O que se esquece, o que se deixa escrito, o que se inventa. Em meus diários não encontrei quase referências a fatos que foram decisivos, e em troca dedico muitas páginas a coisas que com o tempo mostraram-se insignificantes.

EP – É deliberada essa busca por cruzar gêneros diferentes?
Piglia –
Eu quis que “El Último Lector” (“O Último Leitor“, editado no Brasil pela Companhia das Letras) fosse publicado em uma coletânea de narrativas, mesmo que reúna textos que têm vocação reflexiva. Queria ver o que acontecia, provocar uma reação. Me interessa a narrativa como uma maneira de argumentar. Os gêneros se metamorfosearam. Pitol, Bolaño, Rossi, Magris, Sebald, Berger são autores que encontraram uma voz convincente e a partir dela escrevem sobre o que querem. Esse tipo de literatura é o que hoje me parece mais interessante.

EP – Como procede então em seus livros?
Piglia –
Bem, há um caso. Um personagem. Uma questão que ocupa o lugar central. Existe uma indecisão e tenta-se encontrar a maneira de construir a verdade. Mas não busquei esse caminho de uma maneira deliberada; o fui encontrando. Certamente havia outro elemento que me atraía: o de colocar-me em risco.

EP – Que lugar a literatura ocupa hoje?
Piglia –
Diz-se que os escritores abandonaram o grande público, mas não é verdade. Foi o grande público que os abandonou e foi para as salas de cinema ou ver televisão. Houve uma época em que a novela centralizou de maneira muito forte as pessoas. E recuperar essa sintonia continua sendo o horizonte que qualquer escritor persegue. A única coisa boa no fato de o grande público ter partido é que se podem fazer mais experiências.

EP – O que o senhor acha dos caminhos abertos pelas novas tecnologias?
Piglia –
A grande tensão que ocorre em nossos dias é a que confronta a narração com a informação. A novela é um gênero que concentra a experiência e o sentido e que envolve profundamente o sujeito que lê. A informação, por sua vez, deixa o sujeito de fora, o transforma em espectador. Assim surgiu outro tipo de autoridade. E está gerando uma sensação paranóica. É tal a quantidade de informação que sempre parece faltar um dado e que portanto você está desinformado. O positivo das novas tecnologias é que, ao favorecer a intervenção das pessoas, voltam a transformá-las em sujeitos. Esse é o caminho mais estimulante. E, curiosamente, foi Borges quem se antecipou para revelar essas modificações técnicas.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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