Paulinho da Viola: sofre assalto e fala sobre descrença

Janeiro 1, 2008

paulinho.jpg

Vítima de assalto, compositor reclama do “sistema viciado” e afirma que a pior sensação é a da descrença

MARIA LUIZA RABELLO
DA SUCURSAL DO RIO

Vítima de assalto anteontem na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o sambista Paulinho da Viola, 65, afirmou não ter ficado revoltado nem conformado com o episódio. Segundo ele, a sensação é pior: “uma certa descrença”.
“Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje, não falo nada porque já se falou tudo.” À Folha, o compositor afirmou que a insegurança aumentou, mas que não pensa em deixar o Rio. “Ir para onde? A pergunta é essa.” A seguir, leia a entrevista:

FOLHA – Como o assalto aconteceu?
PAULINHO DA VIOLA
- Estávamos a caminho de um restaurante para encontrar um casal de amigos. Atrás de mim vinham vários carros, eram umas 6h da tarde, tinha muita gente voltando da praia. Eu estava quase chegando no centro de Itanhangá, quando ouvi aquela freada. A uns 30 metros adiante vejo um carro parado e uns homens saindo com armas. Já sabia o que era e abaixei os vidros do carro. Falei para a Lila [mulher] ficar calma, a minha maior preocupação era com a reação dela. Até uma medalha de prata foi arrancada do meu pescoço. Era uma medalha de Santo Antônio de Pádua que eu ganhei e gostava muito.

FOLHA – Como você se sentiu ?
PAULINHO
- Sempre achei que teria uma reação de maior sofrimento, de maior angústia num momento desses. Achei que fosse ficar chateado, mas não fiquei. A minha reação foi fria e depois de tudo continuou fria. Não foi uma reação de revolta, nem de conformação, é uma coisa que ainda não consigo definir dentro de mim. Me surpreendeu também a reação daqueles que estavam no carro de trás. Tinha família com crianças e alguns pararam para oferecer ajuda, para dar um copo d’água, emprestar o telefone. Tem gente muito solidária nessas horas.

FOLHA – De forma geral, a sensação de insegurança hoje é maior?
PAULINHO
- Ah, com certeza. Isso já vem de algum tempo. São tantos os casos. Quando chegamos na delegacia tinha uns quatro ou cinco casos parecidos. Falei com o inspetor, que disse que no dia primeiro [de janeiro] talvez seja pior. Então, convivendo com isso, com todas as notícias que saem no jornal, você cria um temor, é claro. Todo mundo só fala isso [violência] e não é só no Rio. Em São Paulo, os carros blindados são comuns.

FOLHA – Quem você responsabiliza por esse cenário?
PAULINHO
- Olha, eu tenho pensado muito sobre isso e já me fizeram essa pergunta várias vezes. Há anos, leio, ouço e participo de inúmeras discussões sobre a questão da violência. Hoje eu não falo nada porque já se falou tudo. A gente bate na mesma tecla, é aquilo que todo mundo já sabe, tem vários especialistas debruçados sobre isso. Eu vou falar o quê? No que acrescentaria? Vou engrossar qual coro? Está tudo escancarado.

FOLHA – O que falta, então?
PAULINHO
- Faltam ações efetivas. É uma coisa mais complexa, é um quadro que vem de muitos anos, uma estrutura já instalada. É um sistema viciado de todas as formas. O que dizer quando você abre o jornal e vê, todo dia, uma parte da classe política da sua cidade envolvida em uma série de denúncias? Você vai falar o quê, para quem? Essa é que a sensação pior: uma certa descrença.
Se você perguntar qual é a solução, eu não sei. Sou um cidadão como outro qualquer. Eu leio as cartas dos leitores nos jornais, eu gosto de saber a opinião das pessoas. Tenho um samba que diz “ninguém pode explicar a vida num samba curto”. É a mesma coisa, as cartas são muito pequenas para se colocar toda a questão. Mas você percebe que há perplexidade, há um sentimento de insegurança, de desconforto, de impotência para alguns. Há quem diga que o país acabou, mas a gente sabe que não é assim.

FOLHA – O episódio te fez pensar em deixar o Rio?
PAULINHO
- E ir para onde? A pergunta é essa [risos]. Eu não tenho esse sentimento de sair daqui, gosto muita da minha cidade.


Caetano e os políticos

Outubro 5, 2007

05/10/2007
Caetano Veloso, músico brasileiro: “os políticos hoje parecem artistas pop”


Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

No Brasil o chamam de “o homem”. É o artista mais respeitado, o mais venerado. Uma espécie de deus musical que transcende a arte: Caetano é tudo no Brasil. E fora dele representa o país, assim como Bob Marley fez com a Jamaica, Fela Kuti com a Nigéria ou Lennon e McCartney com a Inglaterra.

Aos 65 anos, Caetano Veloso vive uma segunda, terceira ou quarta juventude. Veste-se de modo mais informal que nunca (jeans rasgados, tênis). Fala sem rodeios de sexo. E dá uma volta de parafuso em seu trabalho, aterrissando em um rock rebelde e fresco. “Cê” (Universal), seu último trabalho, é uma bofetada sonora cheia de matizes. Para o compor, gravar e interpretar, Caetano cercou-se de um “dream team” de músicos jovens, da idade de seu filho Moreno. “Tenho muito a aprender com eles”, sussurra entre risos.

O camaleão brasileiro (cada álbum é um mundo, um estilo, uma aposta de vanguarda) fala com afabilidade. Pensa nas respostas. Mede suas palavras, mas não tem papas na língua. No final deste mês dará três concertos na Espanha: Madri (dia 19), Donosti (dia 21) e La Coruña (dia 23). Além de “Cê”, a Universal lança a coletânea “Língua”, com canções de Caetano em vários idiomas (castelhano, inglês, italiano, francês).

Abaixo, a entrevista com o compositor e cantor.

Orlando Barr�a/EFE - 17.ago.2007  
Caetano Veloso diz que “Cê” é seu trabalho mais roqueiro por ser um disco de banda

La Vanguardia – Na idade em que a maioria dos artistas se assenta ou elabora trabalhos mais tranqüilos, você dá um giro roqueiro. Por quê?
Caetano Veloso -
Bem, estou no rock desde 1966. Tenho inclusive discos dos anos 80 com algo de rock. Mas este é o meu disco mais roqueiro porque é um disco de banda. Montei um grupo que participou da criação. E isso lhe dá uma atmosfera de rock, um som mais duro. Por isso é melhor ouvir “Cê” ao vivo.

LV – Pedro Sá, Ricardo Dias, Marcelo Callado, os membros de sua banda, têm entre 26 e 36 anos. Aposta nos jovens?
Caetano -
São muito bons e nos entendemos muito bem. Eles têm uma cultura musical muito grande, e não só da música de sua geração. E têm uma posição crítica muito boa. Aprendo muito com as gerações jovens.

LV – “Cê” fala de sexo, separação, dor. Nos últimos anos você se separou de Paula Lavigne e isso se reflete em algumas canções. O disco parece bastante autobiográfico.
Caetano -
Como sempre, algumas coisas. Mas nem tanto. “Não me arrependo” é totalmente autobiográfica. Outras canções, como a do orgasmo múltiplo, são pessoais. É algo que eu sempre disse: das mulheres só invejo a capacidade dos orgasmos múltiplos. Bem, já disse aqui. O sexo sempre foi muito importante para mim. Em troca, “Odeio” é uma canção mais oblíqua. Me separei. Esse assunto voltava à cabeça. Ruptura, dor, amor, o outro lado da moeda. Que vem a ser o mesmo. Gosto de excitar a imaginação para abordar esses temas pessoais.

LV – Quando você pronuncia “odeio” na canção, o faz com suavidade. Parece dizer “te amo”…
Caetano -
Sim, a canção fica mais suave. Essa é a idéia, desfazer a fronteira do amor e do ódio, que é uma película muito fina.

LV – Completam-se 40 anos do tropicalismo, movimento do qual você foi fundador. Voltaria a afirmar “sou eternamente tropicalista”?
Caetano -
É o que sinto. O que me levou até lá me trouxe aonde estou.

LV – Qual foi a grande contribuição do tropicalismo? O que o mantém vivo, de certa forma?
Caetano -
É difícil dizer. Foi um movimento multifacetado. Um comentário, feito com colagens, sobre o estado em que se encontrava a criação da música popular e a cultura de massas, no Brasil e no mundo.

LV – Qual foi sua principal conseqüência?
Caetano -
Pode-se ver até hoje em dia. Significou uma ruptura de tabus, uma abertura de portas. E desrespeitamos os preconceitos!

LV – O Brasil tem maior facilidade para romper tabus, para misturar-se, para a abertura?
Caetano -
Creio que sim. É muito misturado racialmente e é o único país da América que fala português e que em vez de se desmembrar em vários países se transformou em um país-continente. Além disso, tem a maior população negra fora da África, a segunda do mundo depois da Nigéria. Muitas desvantagens criaram uma vantagem, uma espécie de bênção.

Nascido em 1942 na Bahia e irmão de outra grande, Maria Bethânia, Caetano Veloso é um símbolo da música brasileira. Foi com Gilberto Gil um dos fundadores do tropicalismo, movimento cultural e político que misturou música tradicional e vanguarda. Devido à ditadura, Veloso se exilou em Londres em 1969. Entre suas obras, discos como”Bicho”, “Outras Palavras”, “Estrangeiro” e “Circuladô”.

LV – O Brasil tem facilidade para popularizar a música? Até a bossa nova, criada pela elite cultural, teve enorme popularidade.
Caetano -
Exatamente. Os discos mais radicais de João Gilberto foram os que mais venderam. Creio que isso acontece porque o Brasil tem algumas peculiaridades e alguns defeitos.

LV – Como quais?
Caetano -
O Brasil tem um grande déficit em cultura erudita e em escolaridade, a pior distribuição de renda da América e uma das três piores do mundo, só melhor que Haiti e Serra Leoa. Um país péssimo.

LV – O que você acha da gestão de Gilberto Gil como ministro da Cultura?
Caetano -
Quando ele recebeu o convite, eu fui contra. Agora se transformou no Lula de Lula, no símbolo de seu mandato. Ajuda a consolidar a simpatia que o mundo tem por Lula, sobretudo na Europa. Como ministro tem poucos recursos e uma boa atuação. Tem interesse pelas coisas mais modernas, distribuição, era digital, internet. Ele criou os pontos de cultura, que prestam atenção a expressões culturais minoritárias. Não é um ministério inócuo, inoperante.

LV – O que você acha de ele defender a Creative Commons como alternativa para o copyright?
Caetano -
Acho bom que ele diga isso como ministro. Até que abra seus direitos como músico. Mas parece que, como autoridade musical, está obrigando outras pessoas a fazê-lo. Deveriam proteger quem criou a obra de arte. Mesmo que seja por um período, um tempo. A arte não é um automóvel, uma geladeira. Não se pode distribuir gratuitamente uma geladeira.

LV – No concerto no Rio você criticou Lula, mas também a oposição. O Brasil leva demasiado a sério tudo o que Caetano diz?
Caetano -
Não creio. Não estou muito perto dos artistas da minha geração que dão opinião política sempre. Hoje já não se faz muito isso porque os artistas não têm tanta vinculação com a política. Em compensação, os políticos estão mais parecidos com os artistas pop, a forma como se faz política é pop. Mantenho-me à margem. Alguém disse em um blog que já não agüentava mais Caetano opinando sobre qualquer coisa. Ninguém agüenta mais Caetano opinando. Adoro que digam isso.

LV – Sua mãe completou 100 anos há poucos dias e comemorou em grande estilo na Bahia. Foi à inauguração da Casa do Samba de Roda do Recôncavo Baiano, em Santo Amaro. E passa parte do ano em sua casa em Salvador. Que influência a Bahia ainda tem em sua vida?
Caetano -
Muito grande. Minha mãe vive lá, meus irmãos mais velhos. Meus filhos, netos. Tenho uma casa lá. Adoro Salvador, adoro a axé music, adoro toda a história dessa música, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Timbalada, Olodum, Illê Aiyê, idolatro aquilo. Gosto mais daquilo que de rock. A Bahia é onde eu cresci e vivo lá parte do tempo. Embora na realidade eu não seja de lugar nenhum; ninguém é de lugar nenhum.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Visite o site do La Vanguardia


Entrevista: Philip Roth

Setembro 15, 2007

 Retirado da Folha de São Paulo

Copyright Empresa Folha da Manhã S/A.

“Isso que temos agora é um desastre”, diz Philip Roth; sobre a próxima eleição presidencial, escritor afirma que os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos

PHILIP ROTH, um dos maiores escritores norte-americanos vivos, diz que que George W. Bush “não tem capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados” e que a agenda do Partido Republicano é “combater os anos 60″. Estamos em setembro de 2000, no escritório de seu agente, em Manhattan. Seu livro “Casei com um Comunista” acaba de ser lançado no Brasil. O autor está animado: acha que Al Gore ganhará as eleições do final do ano.
Corte.
Roth, agora aos 74 anos, reencontra o repórter no mesmo local para falar de “Homem Comum”, que sai no Brasil. Com voz mais fraca e aspecto mais cansado, está desanimado. Diz estar “perplexo com realidade à vista”. Volta a atacar Bush e repete, sobre a velhice, o que escreveu no livro: “É um massacre”.

SÉRGIO DÁVILA
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

Leia a seguir a entrevista que o escritor norte-americano Philip Roth concedeu à Folha, na semana passada, em encontro no escritório de seu agente, no centro de Manhattan, Nova York.
 
FOLHA – A última vez que nós conversamos, quando “Casei com um Comunista” estava sendo lançado no Brasil, foi há sete anos, em setembro de 2000. Falamos sobre a disputa dos candidatos George W. Bush e Al Gore, o sr. disse como os republicanos estavam tentando apagar os anos 60 do mapa e que Al Gore seria eleito.
PHILIP ROTH -
[Risos] Éramos dois sujeitos espertos!FOLHA – O sr. disse também que Bush não teria capacidade para dirigir nem um armazém de secos e molhados, quanto mais comandar um país. O que o sr. diz, sete anos depois?
ROTH -
[Resignado] Eu estava errado. É trágico. Eu estava tragicamente errado…

FOLHA – O pior, segundo sua previsão, aconteceu: o homem que não “tinha capacidade para dirigir um armazém” está no final de seu segundo mandato. Qual sua opinião hoje?
ROTH -
Bem, a primeira eleição foi um roubo. Ele nunca foi realmente legitimado como presidente, é o que me parece, para o primeiro mandato. No segundo mandato, o país o queria. Eles o escolheram… E ele é, sem dúvida, o pior presidente que nós já tivemos. O pior. Pior do que o pior. E a Guerra do Iraque é a principal prova disso. Essa guerra selvagem, cara, brutal e desnecessária.

FOLHA – E sobre a tentativa de apagar os anos 60 da história americana, o sr. acha que eles foram bem-sucedidos?
ROTH -
Bem… Tem havido uma dessecularização da esfera pública, e os anos 60 eram a secularização, entre outras coisas. Hoje em dia já não sei mais se eles estavam mesmo mirando os anos 60. O que Bush fez foi indicar dois juízes para a Suprema Corte que farão tudo o que puder para tornar o aborto ilegal, por exemplo. Então, pensando bem, sim, via guerra e pela nova formação da Suprema, eles tiveram um tremendo impacto em nossas vidas.

FOLHA – Bem, já que o sr. fez previsões tão acertadas há sete anos nesse campo, deixe-me perguntar de novo: quem o sr. acha que será eleito em 2008?
ROTH -
Sim, vá adiante, me dê uma nova chance para eu fazer papel de bobo. [Risos] Não tenho a menor idéia. Não tenho idéia de quem será o candidato democrata e não tenho idéia de quem vai ganhar as eleições.

FOLHA – O sr. não acha que a senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton é uma boa aposta, do lado democrata?
ROTH -
[Agora cauteloso] Eu simplesmente não sei…

FOLHA – Ok, deixe-me dizer dessa maneira: se as eleições fossem hoje e ela fosse eleita, o que aconteceria segundo as pesquisas de intenção de voto atuais, o sr. acha que mudaria algo ou seria apenas o final de um clichê, a primeira mulher na presidência?
ROTH -
Não, não, não, acho que haveria uma mudança. Isso que temos agora é um desastre. Com os democratas vencendo, teremos de volta a política como sempre. Isso aqui agora é um desastre. Os democratas são muito mais preferíveis do que os republicanos. Vamos falar de literatura?

FOLHA – Vamos. Há sete anos, o sr. reclamou que seus amigos estavam morrendo…
ROTH -
[Gargalha] Pois isso não parou de acontecer!

FOLHA – Daí o livro ["Homem Comum" começa com um enterro e o tema principal e doença e morte]?
ROTH -
Sim, em grande parte. Foi publicado aqui em 2005. Bem, sim, eu tenho ido a muitos funerais e tenho perdido muitos amigos e eu comecei a escrever esse livro no dia seguinte ao funeral de Saul Bellow [escritor, 1915-2005]. O livro não trata de Saul, mas minha cabeça estava profundamente tomada pela inevitabilidade de que todo o mundo que eu conhecia e conheço vai morrer. Então, sim, escrevi como resposta à morte de meu amigo.

FOLHA – O livro começa com a descrição de um funeral. É parecido com o de Bellow?
ROTH -
Não. Nada.

FOLHA – É parecido com o que imagina que será o seu?
ROTH -
O meu próprio? Não… Era apenas um funeral padrão, era apenas uma maneira de introduzir a vida do homem, sua família, as pessoas que o amavam e o conheciam. Eu gostei de começar com o fim e então partir dali.

FOLHA – O papel das mulheres no livro é muito forte. Como o sr. acha que as mulheres reagirão em seu próprio funeral?
ROTH -
Nunca pensei nisso… Fui muito próximo de algumas mulheres. Algumas delas chorarão, outras não.

FOLHA – Por que “Everyman” [o título original]? Por que o empréstimo de uma peça inglesa do século 15?
ROTH -
O “Everyman” original é um conto de moralidade, é uma alegoria cristã sobre a morte. Não sou cristão, não suporto alegorias, então só peguei o título emprestado e fiz a minha própria peça sobre a morte. Só que a versão secular.

FOLHA – Por que o personagem principal não tem nome?
ROTH -
Ele não tem um nome porque originalmente eu não lhe dei um. E, quando eu estava trabalhando na segunda versão, percebi isso e pensei: “Não lhe dê um nome. Deixe ele ser conhecido por seus relacionamentos, como pai, marido, irmão, filho, amante, deixe ele viver por esses relacionamentos e tirar sua identidade por eles”. Que é como nós formamos nossa identidade, por aqueles que nos conhecem como realmente somos.

FOLHA – O sr. pensa muito em sua própria morte, no momento em que “não será mais”, como escreve no livro?
ROTH -
Bem, depois de uma certa idade, é difícil não pensar mais na morte de maneira mais freqüente do que antes. Aos 60, você começa a pensar freqüentemente e, aos 70, a coisa fica realmente séria. Você olha adiante e vê que não tem mais tanto tempo. E esse é um sentimento muito perturbador.

FOLHA – Mas o sr. não tem medo de morrer?
ROTH -
Não tenho? Você que está dizendo isso. Eu estou perplexo pela realidade à vista.

FOLHA – Numa das passagens mais marcantes do livro, o sr. escreve: “A velhice não é uma batalha, é um massacre”.
ROTH -
Você não concorda? Vá a um hospital e dê uma olhada ao redor… [Fica em silêncio]

FOLHA – Eu o deprimo com toda essa conversa?
ROTH -
Ah, não, é preciso muito mais do que isso para me deprimir.

FOLHA – O sr. releu esse livro para nosso encontro, como fez da outra vez com “Casei com um Comunista”?
ROTH -
Não. Eu não releio meus livros, em geral

FOLHA – O que o sr. lê?
ROTH -
Nos últimos anos eu tenho mais relido do que lido. Na maioria autores que eu li quando tinha 20 anos e não li desde então. Grandes escritores. O mais recente é Joseph Conrad [escritor britânico de origem polonesa, 1857-1924].
Na semana passada reli “Under Western Eyes” (1911), antes disso eu li uma biografia sobre ele, antes disso quatro contos, antes disso “The Nigger of the

Narcissus” (1897), ótimo, ótimo, que grande livro. Há alguns meses eu estava relendo Ivan Turguêniev [escritor russo, 1818-1883]. Fiz isso por dois meses. É isso que eu tenho feito nos últimos dois anos.

FOLHA – Podemos esperar alguma influência dos dois no próximo livro?
ROTH -
Duvido. Sou ininfluenciável [Risos]. Só estou fazendo isso porque, em primeiro lugar, esses livros são maravilhosos, segundo porque eu não me lembrava deles: é muito boa a sensação de estar lendo pela primeira vez algo que você já sabe que é bom.

FOLHA – O sr. citou a biografia de Conrad. Em “Homem Comum”, seu personagem diz que, se um dia fosse escrever a biografia dele, o título que daria seria “A Vida e a Morte de um Corpo Masculino”. É o título que o sr. daria para a sua?
ROTH -
Não, não. Não tenho nenhuma vontade de escrever uma biografia, de jeito nenhum. Deus me livre. Eu tenho um biógrafo oficial, com o qual me encontro muito raramente, mas a coisa fica nisso.

FOLHA – Há algum assunto tabu nesses encontros?
ROTH -
Não, até agora não.

FOLHA – O ataque do 11 de Setembro aparece brevemente em “Homem Comum” e um pouco mais em “Exit Ghost”, seu livro mais recente. Quanto o evento o afetou?
ROTH -
Como autor? Nada. Como pessoa? Fiquei com raiva, sem fôlego, achei uma tragédia. Mas o pior de tudo foi o uso do ataque pelo governo de Bush, para justificar uma guerra desnecessária. Se o 11 de Setembro tivesse acontecido, mas não a Guerra do Iraque, as coisas seriam muito diferente, o ataque teria apenas o significado que realmente teve. Mas foi cinicamente explorado para justificar a guerra. Muito mudou, é claro, os americanos não se sentem mais tão confiantes quanto antes e o governo George W. Bush formou sua agenda em torno das conseqüências do ataque. Mas tudo poderia ter sido muito diferente…

FOLHA – Há alguns livros seus sendo adaptados para o cinema hoje. O sr. se interessa por isso?
ROTH -
Gostaria que fossem boas, mas não tenho nenhum controle. “Dying Animal” terá Penélope Cruz e Beng Kingsley. “American Pastoral” também. “Deception” está sendo adaptado por um diretor francês. Mas geralmente esse pessoal de cinema fica muito interessado em meus livros e depois desaparece.

FOLHA – O sr. vê os filmes? Liga para isso? Viu, por exemplo, “The Human Stain”, com Anthony Hopkins e Nicole Kidman?
ROTH -
Horrível. Vamos ficar nessa palavra: horrível

FOLHA – Da última vez que nos encontramos o sr. mencionou que leu Machado de Assis. O sr. nunca esteve no Brasil, apesar de ter sido convidado algumas vezes. Pretende ir?
ROTH -
Eu não me lembro de ter sido convidado, talvez eu tenha sido. Mas já viajei muito quando tinha 40, 50 no começo de meus 60. Agora me cansei.

FOLHA – O sr. pode me dizer algo sobre seu próximo livro?
ROTH -
Não. Nada.

FOLHA – Então é isso.
ROTH -
Ok, temos um encontro marcado para 2014.


Ivan Lessa e o vol 2 do livro PASQUIM-ANTOLOGIA

Junho 9, 2007

“Pasquim” tirou aspas da nossa língua”

Radicado em Londres, Ivan Lessa, 72, relembra os tempos em que publicação revolucionou o jornalismo brasileiro “Antologia”, que já vendeu mais de 40 mil cópias de seu primeiro volume, chega agora ao segundo livro, que cobre os anos de 1972-73

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

Na primeira vez em que trocou e-mails com a Folha para esta reportagem, Ivan Lessa foi curto e rápido, ainda que bem-humorado. Lembrar os tempos do “Pasquim” não é algo que o jornalista, radicado há 28 anos em Londres, goste de fazer com muita freqüência.
Dias depois, porém, ao receber pelo correio um exemplar do segundo volume da “Antologia”, que chega agora às livrarias, ficou emocionado e retificou algumas declarações.
Se antes declarara sem dor o fim do “jornaleco” (como o “Pasquim” era carinhosamente apelidado), numa mensagem sentimental acabou desabafando: “Não se pode ter saudade daquilo que não acabou. Taí.
Eu mesmo, depois que o santo subiu de volta, fiquei meio comovido. Deve ser essa lua, esse conhaque, essa estátua de bronze do Drummond…”
Ao folhear o livro, também concluiu que não lembrava de várias coisas que tinha escrito. Leia abaixo as respostas de Lessa, 72, à Folha.


FOLHA – A segunda parte da “Antologia” cobre os anos de 72 e 73. Segundo a edição, essa teria sido a fase mais interessante do jornal. E também a sua. Como andava seu ânimo profissional? E político?
IVAN LESSA -
Sim, minha participação foi mesmo mais ativa. Mas a explicação é simples. Morava em Londres até 72, quando voltei para o Brasil e passei a trabalhar diariamente no “Pasquim”. Meu ânimo profissional ia bem, obrigado. Tive outras ofertas mais tentadoras em termos de salário. Mas, no “Pasquim”, na época vendendo pouco e em crise, eu estava entre velhos amigos. Ânimo político? Nunca tive, não tenho.

FOLHA – Como você selecionava as cartas a serem respondidas? Quantas você inventava? Depois que os leitores entraram no espírito da seção, ficou mais difícil?
LESSA -
Eu pedia para a dona Nelma [secretária do jornal] a vasta pasta com as cartas. Tirava um punhado. Selecionava as que pareciam mais interessantes. Ou mais idiotas, se você preferir. E inventava apenas as obviamente inventadas. E a proporção é bem menor do que pensam. Ou dizem.
Depois de um certo tempo, os leitores mais vivos entraram no espírito da coisa. Aí, é claro, ficou mais difícil. Dependia muito também de como andava minha paisagem interior. Sim, eu tenho uma paisagem interior, que anda, marcha, pula, isso tudo.

FOLHA – Entre os gêneros que você criou no jornal, as cartas inventadas, as falsas notícias comentadas e o horóscopo, de quais gostava mais?
LESSA -
O que eu mais gostava de fazer mesmo era o “Pasquim Novela”. O resto do que você menciona era ou muito triste ou muito chato. Não me lembro de falsas notícias. Toda notícia é, por definição, falsa. Ou farsa. Por aí.

FOLHA – E as que tinham subtexto contra a ditadura (sobre Papa Doc, a Inquisição ou Perón)?
LESSA -
Era para poder falar de nós falando dos outros. É a única vantagem da censura: obrigar o cidadão a exercer as disciplinas das entrelinhas, das alegorias, das insinuações.

FOLHA – Como funcionava a relação com os chargistas na seção “Gip, Gip, Nheco, Nheco”?
LESSA -
Eu escrevia os “gips” e eles “nhecavam”. Em muitos eu tinha uma idéia ou sugestão para a ilustração. Mas muitas das frases davam para se agüentar em seus próprios pés. Acho.

FOLHA – Acredita que as pessoas vejam o “Pasquim” hoje com demasiada nostalgia?
LESSA -
O “Pasquim” acabou. Para o bem ou para o mal.

FOLHA – Em entrevista à Folha, Jaguar disse que o jornal viveu mais do que deveria. Você concorda?
LESSA -
Concordo. O “Pasquim” deveria ter acabado logo depois que começaram a botar azeitonas adoidadas em empadas alopradas.

FOLHA – Você acha que o “Pasquim” de fato revolucionou o jornalismo brasileiro?
LESSA -
É, o jornaleco tirou as aspas da língua brasileira. Na medida do possível. Os outros méritos estão com todos os que escreveram ou desenharam ou tentaram uma contabilidade honesta com a publicação -chato ficar repetindo “Pasquim” ou “jornaleco”, passemos então para os chavões.

FOLHA – Você lê jornais brasileiros? Acha que estão melhores ou piores do que na época da ditadura?
LESSA -
Passo os olhos eletrônicos neles. Continuam ruins como sempre. Loas para tudo que contribua para desencorajar um brasileiro, ou brasileira, a praticar o (risos) jornalismo.

FOLHA – As pessoas ficam intrigadas com o fato de você ter partido para Londres e praticamente nunca mais ter voltado. Você sentiu necessidade de romper com o Brasil?
LESSA -
Não senti necessidade. Apenas uma baita de uma vontade de me mandar e só voltar em caso de muita, mas muita emergência mesmo.

FOLHA – Você se diverte com os jornais sensacionalistas?
LESSA -
Acompanhar os tablóides chega a ser engraçado. Mas há muita coisa para ler, para ver na TV, muito pato para se alimentar no laguinho dos parques. Eu confesso que só vejo a primeira página nas bancas, que é o quanto basta. Ninguém os leva a sério. Principalmente os que fazem os tablóides. Aí até que dá para fazer uma ponte com o “Pasquim”.

FOLHA – Num dos artigos você diz que o mundo se divide entre as pessoas que dizem “ôba” e as que dizem “êpa”. Onde você se enquadra nessa classificação.
LESSA -
Êpa! O passar dos anos, a passagem dos ôbas…
LESSA – Sei que não teve uma pergunta treze. Mas sou supersticioso e aqui está a prova.