Os novos ricos irlandeses

Janeiro 7, 2008

A ganância dos irlandeses
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John Murray Brown*

Há vinte anos, se podia contar nos dedos de uma das mãos quais eram os irlandeses autenticamente ricos. Hoje em dia, existem tantos ricos que nem mesmo os profissionais que administram fortunas conseguem acompanhar. O país tem tido um desempenho incrível.

Uma das conseqüências disso é que agora os irlandeses estão vendo a si próprios de uma forma diferente. A imagem de católicos humildes, mas poéticos vivendo à sombra dos empolados e esnobes protestantes ingleses não tem mais sentido para nenhum dos lados, nem mesmo como caricatura. O país de “santos e eruditos” mostrou na década passada que tem vocação também para os negócios.

Os irlandeses ganharam dinheiro em gerações anteriores, mas eles geralmente precisavam sair da Irlanda para isso. Os Conselhos de Administração de empresas nos Estados Unidos estão cheios de nomes irlandeses. Na Inglaterra também, várias das maiores empresas são dirigidas por irlandeses de primeira ou segunda geração, tais como Terry Leahy da Tesco ou Niall FitzGerald, ex-presidente da Unilever. Mas a próspera economia reverteu o fluxo de imigrantes e permitiu que esta geração de homens e mulheres irlandeses explorasse em casa seus talentos de empreendedores.

Quando a economia decolou no início da década de 1990, estava bem situado quem estivesse nos setores de imóveis e construção. O aumento dos empregos e a elevação das rendas, associado a custos muito baixos para empréstimos, ao mesmo tempo em que a Irlanda se preparava para aderir ao euro, incentivou a demanda por moradias e imóveis comerciais, pressionando alta ainda maior nos preços. No campo, os controles de planejamento eram mínimos, estimulando uma onda de pequenos projetos de construção, enquanto proprietários agrícolas com terra perto das grandes cidades tornaram-se instantaneamente milionários, e as cadeias familiares de varejo tiveram uma drástica alta em seu valor, com a chegada das grandes varejistas britânicas. Mas quem mais ganhou foram os construtores e empreiteiros que tiveram a visão de adquirir grandes bancos imobiliários antes que os preços disparassem em 1994.

Alguns críticos comparam os magnatas imobiliários da Irlanda aos oligarcas russos. Segundo uma estimativa, seis ou sete empresários possuem quase todos os imóveis comerciais em Dublin. Uma concentração como essa na propriedade provavelmente foi vista pela última vez nos dias antes da independência irlandesa. Naqueles dias a terra na Irlanda valia uma fração do que valia na Inglaterra, mas hoje em dia tem preços superiores, apesar de uma densidade populacional bem menor na Irlanda. Durante os anos de grande crescimento, os produtores agrícolas foram muito bem compensados, pois o governo deu continuidade aos programas de rodovias e infra-estrutura financiados pela União Européia. E em áreas próximas a Dublin e outras cidades, os preços da terra foram inflados, pois os conselhos municipais competiam para atrair empregos e empresas.

Essa base doméstica de imóveis valiosos lançou uma nova geração de investidores imobiliários irlandeses em direção ao mercado internacional, particularmente na antiga capital do império, Londres. Hoje, poucos negócios imobiliários em Londres são feitos sem alguma presença irlandesa. Conta-se que metade da Bond Street é irlandesa agora.

Não é de se surpreender que a emergência dos novos ricos da Irlanda não seja em geral bem-vinda. Embora a Irlanda moderna jamais tenha tido um forte movimento trabalhista ou um eixo nítido esquerda-direita em sua política, existe um pendor de igualdade social e nivelação de classes na auto-imagem nacional que não está completamente à vontade com uma grande classe endinheirada.

Mas desde que a maioria dos eleitores irlandeses continue a se beneficiar do sucesso do país, haverá pouca hostilidade orquestrada em relação aos magnatas. Os irlandeses parecem ter um apego emocional à propriedade e mais visceralmente à terra, uma atitude que alguns dizem ser um legado direto do colonialismo britânico.

“Nós temos sido pobres há tanto tempo, que qualquer forma de desenvolvimento… é bem-vinda. Não existe disposição da parte da opinião pública de ser muito crítica,” diz Garret FitzGerald, primeiro-ministro na década de 1980 para o partido conservador Fine Gael. E as pessoas comuns estão se beneficiando, pelo menos da prosperidade no setor imobiliário: a proporção de riqueza nacional associada à propriedade residencial é de 74% contra a média européia de 57%. Isso está refletido na taxa de 77% de irlandeses que são donos de seus imóveis, em comparação com 71% no Reino Unido, 56% na França e apenas 43% na Alemanha.

A demanda por moradias também registra um ritmo muito mais acelerado, com 88 mil novas casas construídas em 2006, em comparação com 155 mil na Inglaterra e País de Gales, uma área como 13 vezes mais pessoas. Em 2004, a revista The Economist classificou a qualidade de vida na Irlanda como a melhor do mundo, dizendo que a Irlanda “combina os elementos mais desejáveis do novo, tais como baixo desemprego e liberdades políticas, com a preservação de certos elementos acolhedores do antigo, tais como estabilidade familiar e vida em comunidade.”

Os partidos mais de esquerda, como o Trabalhista e o Sinn Fein, queixam-se do aumento das desigualdades de renda e do fato de a infra-estrutura social não se ter equiparado à riqueza privada, mas nenhum dos dois partidos tem tido bom desempenho nos últimos anos. E embora a desigualdade tenha crescido e ainda exista uma grande quantidade de pobres, que podem ser vistos nas ruas das grandes cidades, não se ouvem protestos. Uma das razões disso é que o modelo econômico e social da Irlanda sempre foi mais próximo do laissez-faire dos Estados Unidos que da Europa continental (“mais para Boston que para Berlim”).

Um grupo que muitas vezes desdenha dos novos ricos da Irlanda é a venha elite irlandesa, formada principalmente por importantes funcionários públicos de Dublin, advogados, jornalistas e artistas. Segundo David McWilliams, o comentarista econômico irlandês, esse grupo está retomando o interesse pelo idioma irlandês e mandando seus filhos para escolas celtas de Dublin, onde o aprendizado é em irlandês, como forma de se diferenciar dos presunçosos recém-chegados.

Garret FitzGerald acredita que a rapidez e a escala da mudança econômica não têm paralelo em nenhum outro lugar da Europa. Entre alguns cidadãos existe, inevitavelmente, uma sensação de desorientação frente às mudanças sociais – incluindo a chegada de imigrantes em massa (10% da população atual nasceu no exterior). Além disso, a instituição que persistiu em se distanciar da adoção do “hipercapitalismo” pela Irlanda – a Igreja Católica – está mais fraca e mais marginalizada que nunca, graças em parte aos escândalos de pedofilia.

A desorientação no tigre pós-Celta foi resumida por muitos na construção de uma alta torre de aço na rua O’Connell em Dublin para marcar o milênio. Para alguns, o monumento é apenas um mastro de bandeira sem bandeira. Mas para outros, o marco – construído no lugar da antiga Coluna de Nelson, explodida pelo IRA em 1966 – traz uma mensagem provocativa a respeito da nova Irlanda, com sua nova riqueza podendo finalmente escapar da sombra de seu vizinho.

No século 19, e grande parte do século 20, os irlandeses foram à Grã-Bretanha para construir canais, estradas e outra infra-estrutura. Hoje, os empreiteiros irlandeses adquirem bens de grande importância na cidade de Londres e em outras partes da capital. Uma das conseqüências dessas mudanças no status relativo, assinala FitzGerald, é que pode ser mais difícil de se conseguir a reunificação da ilha – um projeto ainda de interesse da nacionalista Irlanda. “O norte é muito mais pobre. Eles não poderiam se dar ao luxo de se unir a nós e nós não temos como subsidiá-los,” ele diz.

Ao mesmo tempo, as relações entre a Irlanda e a Grã-Bretanha, e particularmente entre os irlandeses e os ingleses, provavelmente jamais tenham sido tão boas. Enquanto os irlandeses cada vez mais olham para além da Grã-Bretanha, eles se tornaram menos irascíveis a respeito do relacionamento com seu gigante, mas em geral insensível vizinho. “O complexo de inferioridade irlandês desapareceu e o complexo de superioridade britânico se enfraqueceu,” diz FitzGerald. Claro, ele acrescenta, as relações jamais serão realmente iguais e os britânicos continuam a ter uma considerável influência cultural sobre a Irlanda – a televisão britânica, por exemplo, está em toda parte. “Não se pode ter igualdade entre quatro metros e 60 metros. Mas certamente existe menos desigualdade.”

O clássico ensaio de Roy Foster sobre as relações culturais anglo-irlandesas no período vitoriano recebeu o título “Marginal Men and Micks on the Make” (livremente, “Homens marginais e irlandeses tentando tirar vantagem”), descrevendo os irlandeses que se deram bem na Grã-Bretanha naquela época. Mas em seu livro mais recente sobre a Irlanda moderna, “Luck & the Irish” (“Sorte e os irlandeses”), ele descreve como a nova fartura transformou a imagem que a Irlanda tinha de si mesma. “A Irlanda é como a terceira república francesa,” ele disse recentemente. “Temos a corrupção irresponsável. Temos a instabilidade política. Há uma enxurrada de dinheiro em volta e um grande momento de vigor cultural… É uma combinação interessante e de certa forma, dado o histórico da Irlanda, sem dúvida alguma libertadora.”

*John Murray Brown é correspondente do The Financial Times na Irlanda

Tradução: Claudia Dall’Antonia


A Bienal de São Paulo

Novembro 15, 2007

O papelão da Bienal

MARCO AUGUSTO GONÇALVES
O cancelamento da mostra expõe a incompetência da fundação e a face jeca e atrasada de São Paulo

O CANCELAMENTO da Bienal de São Paulo, que se realizaria no ano que vem, é um atestado de incompetência da atual direção da fundação e de seu conselho, que reúne representantes da elite paulista para os quais a arte parece ser o que menos importa.
A rocambolesca novela em que se transformou a recondução do empresário Manoel Pires da Costa à presidência da instituição, recheada de lances obscuros, irregularidades e movimentações de bastidores, já prenunciava o papelão que ora se consuma. Sem muitas opções, o curador Ivo Mesquita, com a respeitabilidade e as credenciais que possui para ocupar o cargo, propõe, no lugar da tradicional exposição, uma reflexão sobre o vazio. Vazio estará um andar inteiro do prédio de Niemeyer em meio a debates e, ao que parece, realização de performances e exibição de vídeos.
Tudo não passa de uma operação tampão ou de uma tentativa de reduzir os danos, que, a essa altura, já são consideráveis. Perdem artistas, público, cultura, cidade, país.
Num contexto em que a produção de arte e o mercado brasileiro vêm se fortalecendo e ganhando crescente inserção e reconhecimento internacionais, era de esperar que instituições do porte da Bienal já não fossem conduzidas por personagens defasados, amadores em busca de prestígio, alheios à dinâmica cada vez mais profissional e sofisticada do meio artístico.
Paralela e análoga, a crise do Masp é mais um lance dessa realidade crítica. É verdade que a desastrosa situação do principal museu de arte do país foi amenizada com a nomeação de um curador e a retomada de algumas exposições de qualidade. Mas isso é o mínimo que se poderia esperar. O Masp, de fato, continua muito distante do papel que poderia e deveria exercer.
Essa não é uma opinião pessoal, idiossincrática. É a avaliação da esmagadora maioria (senão da totalidade) dos artistas que importam e dos profissionais mais qualificados que trabalham na área.
Voltando à Bienal, disse o presidente da instituição que não há crise nenhuma, numa patética e frustrada tentativa de tapar o sol com a peneira. Em artigo publicado ontem pela Ilustrada, o curador Marcio Doctors, que deixou o cargo, aponta as limitações financeiras para fazer uma “Bienal completa”. Para citarmos alguns exemplos: artistas e curadores ficaram sem receber e os catálogos da mostra, realizada no ano passado, ainda estão por ser publicados.
Agora, depois de uma série de escaramuças e idas e vindas, chegamos ao que se poderia chegar com tamanho despreparo: à impossibilidade de realizar um evento à altura do que São Paulo e a arte brasileira merecem. Foco de atração de artistas e curadores de todas as partes do mundo, a elite da cidade, com o flop da próxima Bienal, mostra sua face jeca e atrasada.
Enquanto isso, em Porto Alegre, a Bienal do Mercosul melhora a cada edição e, em março, será inaugurado o Museu Iberê Camargo, um projeto magnífico do arquiteto português Álvaro Siza.
Bem, deu pra ti, baixo-astral…

Transcrito da F.S.P 


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A

 


O Rolex do Huck

Outubro 29, 2007

O rolo do Rolex

ZECA BALEIRO
Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado?


NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.
Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como “sou cidadão, pago meus impostos”. Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, “romanceando” o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de “vencedor”. Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de “marxista babaca” e “comunista de museu”) revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram “comunistas”, “petistas”, “fascistas”. Os que o apoiavam eram “burgueses”, “elite”, palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao “Houaiss”: “Elite – 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]“.
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista “Veja”, notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita “consciência democrática”, propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: “Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos”. Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.


JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, “Pet Shop Mundo Cão”.

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