ESPECULAÇÕES

Julho 17, 2008

.

Tempo e memória by Joan Brossa

Tempo e memória by Joan Brossa

“Não vou me preocupar em ver,

seu caso não é de ver pra crer

– tá na cara!”

(Arnaldo Passos & Monsueto Menezes, Mora na Filosofia)

Mesmo para o mais ingênuo dos espectadores, é evidente que houve, ou talvez se deva “gerundizar”, está havendo, um gigantesco “acordão” envolvendo os quatro poderes da República, Executivo, Judiciário, Legislativo e imprensa: vamos abaixar o fogo, baixar a pressão, que se o caldeirão entorna muita gente vai sair escaldada ou coisa pior; e vamos tratar de “coibir abusos” – leia-se, quebrar os braços e as pernas – de órgãos importunos como Polícia Federal (ou parte dela), Ministério Público Federal, juizados de primeira instância e, para não perder a viagem, Ministério Público do Trabalho e IBAMA.

Até agora, o “acordão” implicou a degola de alguns delegados da PF, mas isso, em arranjos de tal porte, é trocado miúdo. Especula-se que, pelo sim pelo não, um certo procurador e um certo juiz, ambos federais e de sobrenomes semelhantes, talvez devessem pôr as metafóricas barbas de molho e adotar o “silêncio obsequioso”.

Não se sabe ao certo o que foi alegadamente encontrado em um suposto esconderijo durante a busca e apreensão realizadas na residência do Sr. Daniel Dantas; pode-se apenas especular que não terá sido algo como uma coleção da revista O Cruzeiro. Tampouco se sabe exatamente o que foi conversado no encontro entre o Presidente da República, o Ministro da Justiça e o Presidente do Supremo Tribunal Federal; pode-se apenas especular que o tema central não terá sido a transferência de Ronaldinho Gaúcho para o Milan.

Especulações, especulações. Palavra que, aliás, é correlata de “espectador” e de “espetacularização”, e também de “espelho”.

A quem especular mais queira, uma sugestão. Levantar o histórico, digamos de 1994 em diante, dos dois entre os supracitados que, nos últimos dias, mais freqüentaram as manchetes dos jornais, e de alguns outros personagens que também são, ou no mesmo período foram, figuras de destaque no noticiário político. E cotejar quem fez o quê, quando e onde.

© Carlos Eduardo Martins é economista.


LOUISE LABÉ: criatura de papel?

Maio 9, 2008

CRIATURA DE PAPEL?

                

por  FELIPE  FORTUNA

 

            Convivi por mais de dez anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: “Ó belos olhos, ó olhares cruzados, / Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, / Ó negras noites em vão esperadas, / Ó dias claros em vão retornados! (…) / De ti me queixo: esses fogos que trago / No coração causaram muito estrago, / Mas não te queima um lampejo sequer.”

            Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 –, se transformou num modelo do lirismo apaixonado da Renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que “As severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (…) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir.” Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua “Elegia III”: “Não condeneis de maneira tão rude / Um jovem erro em minha juventude, / Se um erro foi: porém, quem sob o Céu / Se vangloria de jamais ser réu?” Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a “Disputa de Loucura e de Amor”, impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entres aqueles dois deuses que regem a vida humana.

            Traduzi a obra integral de Louise Labé, finalmente publicada em 1995 numa edição que suponho agora esgotada. Juntei-me assim a um cortejo de admiradores da poeta lionesa, fascinados com sua obra de apenas 24 sonetos, 3 elegias e uma peça. Rainer Maria Rilke, também seu tradutor, considerava a poeta uma das grandes amantes já existentes, cuja força sentimental ultrapassaria o ser amado. Na História da Loucura (1972), Michel Foucault classificou o texto em prosa como crucial para o questionamento da distinção entre razão e loucura, considerada a possibilidade de infiltração de uma na outra. Obviamente, a vida e a obra tão intensas de Louise Labé muitas vezes se enredaram em controvérsias e incompreensões, algumas chocantes. O teólogo Calvino preferiu chamar a poeta de plebeia meretrix, como se estivesse gritando na rua. E até Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), sentenciou: “Louise Labé era sem dúvida uma cortesã: de todos os modos, teve uma grande liberdade de comportamento.”

            Nenhuma dessas críticas e opiniões negativas conseguiu abalar o culto em torno àquela obra excelente. Em 2006, porém, a professora Mireille Huchon publicou um livro radical: Louise Labé, Uma Criatura de Papel. Especialista na literatura do século XVI, respeitada docente da Sorbonne, ela formulou a seguinte tese: o único livro de Louise Labé teria sido elaborado por pelo menos três escritores, todos homens, incluindo-se o amante Olivier de Magny; a poeta amorosa seria, portanto, uma invenção de beletristas que pretenderam “louvar Louise”, seguindo a moda iniciada pelo italiano Petrarca ao “louvar Laura” em seus poemas… Em suma: toda a obra de Louise Labé não passaria de uma espetacular impostura, de uma fraude que conseguiu atravessar séculos. Por meio de explicações eruditas e análises que beiram a investigação de um detetive, estaria provado que Louise Labé fora mesmo “uma criatura de papel”, ou uma “mulher de palha” que jamais escrevera um verso.

            A autoridade de Mireille Huchon – ampliada nas páginas de Le Monde por um artigo de apoio do acadêmico Marc Fumaroli, também especialista na Renascença francesa – pairou por algum tempo, ameaçadora, sobre a convicção de que Louise Labé escreveu sobre seus amores e transmitiu novas idéias. Aos poucos, porém, foi a obra singular que se impôs sobre as dúvidas quanto à existência da escritora: afinal, os documentos demonstram que houve em Lyon uma Louise Labé admirada por outros poetas. Portanto, qual o sentido de fabricar uma escritora a partir de alguém que já existia? Por que uma falsificação coletiva teria perdurado por tanto tempo, sem qualquer suspeição? E qual o propósito artístico da fraude?

            O argumento mais forte contra a tese da “criatura de papel” é, insisto, a existência da obra de Louise Labé: muito superior e mais coerente, na qualidade, na inovação e na sua unidade do que a obra daqueles que teriam elaborado a impostura – entre os quais, o poeta Maurice Scève, chefe literário da sua geração. A obra da poeta, marcante pelo estilo pessoal e por características de pensamento, dificilmente poderia ser produto de um grupo de falsificadores.


            Resta, porém, compreender os esforços de Mireille Huchon, que coletou pacientemente várias presunções e nunca apresentou a prova irrefutável da sua tese. A quimera de Louise Labé se prolongou, na prática, para a quimera das idéias de sua intérprete, que está viva e existe. A professora demonstra todos os defeitos do especialista, que trabalha com os instrumentos técnicos e acadêmicos e nunca se pergunta sobre o significado intrínseco dos versos que leu. Volto à poeta: “Eu vivo, eu morro; no fogo eu me afogo. / No calor sinto o frio que me perfura; / A vida é muito mole e muito dura. / Sinto fastios e alegrias logo.” Ao contrário de Mireille Huchon, eu ainda quero sonhar muitas vezes com Louise Labé.

 

 
 =-=-=-=-=-=

Jornal do Brasil

Caderno Idéias & Livros

Sábado, 12 de abril de 2008


PELO DIA DA TERRA – Perguntas e Respostas

Abril 19, 2008

 

Urso-polar vasculha lixo no Canadá. O maior predador do Ártico está ameaçado pela redução da área de mar congelado, seu território de caça  (Foto de Norbert Rosing/National Geographic/Getty Images)

1. O que é o efeito estufa?

O efeito estufa é o fenômeno natural pelo qual a energia emitida pelo Sol – em forma de luz e radiação – é acumulada na superfície e na atmosfera terrestres, aumentando a temperatura do planeta. De suma importância para a existência de diversas espécies biológicas, o efeito estufa acontece principalmente pela ação de dióxido de carbono (CO2), CFCs, metano, óxido nitroso e vapor de água, que formam uma barreira contra a dissipação da energia solar. A maioria dos cientistas climáticos crê que um aumento na quantidade desses gases provoca uma elevação da temperatura da Terra.  

2. A emissão desses gases está aumentando?

Com o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis cada vez mais intensos, a concentração desses gases está aumentando, especialmente as de CO2 e metano. Desde 1800, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera cresceu 30%, enquanto a de metano aumentou 130%. Analisando camadas de gelo da Antártica, cientistas europeus descobriram que o ritmo de aumento na concentração de CO2 é impressionante: nos últimos 150 anos, o gás propagou-se pela atmosfera do planeta cerca de 200 vezes mais rápido que nos últimos 650.000 anos.

3. Quais são os maiores emissores de gases do efeito estufa?

Os maiores emissores de gases responsáveis pelo efeito estufa são Estados Unidos, União Européia, China, Rússia, Japão e Índia. Entre essas nações, os Estados Unidos – responsáveis por cerca de 36% do total mundial – lideram as emissões tanto em termos absolutos como per capita. Entre 1990 e 2002, os EUA aumentaram em 15% o nível de emissão de gases, chegando a 6 bilhões de toneladas ao ano. Para efeito de comparação, todos os países membros da UE emitiram, juntos, cerca de 3,4 bilhões em 2002. A China, terceira colocada no ranking, emitiu 3,1 bilhões de toneladas.

4. Quais são as evidências do aquecimento do planeta?

Há diversas evidências de que a temperatura global aumentou. Os termômetros subiram 0,6°C entre meados do século XIX e o início do século XXI – desses, 0,5°C apenas nos últimos 50 anos. Outra evidência é a elevação de 10 cm a 20 cm no nível dos oceanos nesse período. Além disso, as regiões glaciais do planeta estão diminuindo: em algumas zonas do Ártico, por exemplo, a cobertura de gelo encolheu até 40% em décadas recentes. Cientistas também consideram prova do aquecimento global a diferença de temperatura entre a superfície terrestre e a troposfera – zona atmosférica mais próxima do solo.  

5. Quanto a temperatura pode subir?

Os atuais modelos científicos prevêem que, se nada for feito, a temperatura global pode aumentar entre 1,4°C e 5,8°C até 2100. Cientistas menos otimistas acreditam que a temperatura de certas áreas do globo pode subir até 8°C no período, e que, mesmo com um corte radical na emissão de gases, os efeitos do aquecimento continuarão. Isso porque são necessárias décadas para que as moléculas dos gases que já estão na atmosfera sejam desfeitas e parem de acumular energia solar em excesso.

6. Os atuais modelos de previsão de clima são confiáveis?

Os debates em torno da eficácia e precisão dos atuais modelos de previsão climática são acalorados. Uma minoria científica crê que os sistemas computadorizados são demasiadamente simplificados, incapazes de simular as complexidades do clima real. Porém, a maior parte comunidade científica mundial defende que as atuais análises feitas em computador, apesar de precisarem ser aperfeiçoadas, já são confiáveis para simulações de futuro próximo – intervalos de 25 ou 30 anos.

7. Quais serão os principais efeitos do aquecimento?

Os cientistas climáticos são unânimes em afirmar que o impacto do aquecimento será enorme. A maioria prevê falta de água potável, mudanças drásticas nas condições de produção de alimentos e aumento no número de mortes causadas por inundações, secas, tempestades, ondas de calor e fenômenos naturais como tufões e furacões. Além disso, pesquisadores europeus e americanos estimam que, caso as calotas polares derretam, haverá uma elevação de cerca de 7 metros no nível dos oceanos. Outro impacto provável é a extinção de diversas espécies animais e vegetais.

8. Quais países serão mais afetados?

Apesar de os grandes responsáveis pelo aquecimento global serem as nações desenvolvidas da América do Norte e Europa Ocidental, os chamados países em desenvolvimento serão os que mais sentirão efeitos negativos. Isso acontecerá porque essas nações possuem menos recursos financeiros, tecnológicos e científicos para lidar com os problemas de inundações, secas e, principalmente, com os surtos de doenças decorrentes. A malária, por exemplo, deve passar a matar cerca de 1 milhão de pessoas ao ano com o aquecimento do planeta.

9. Quais espécies animais serão mais afetadas?

Segundo as estimativas da Convenção das Nações Unidas para Mudanças do Clima (UNFCCC), a maioria das espécies atualmente ameaçadas de extinção pode deixar de existir nas próximas décadas. As projeções indicam que 25% das espécies de mamíferos e 12% dos tipos de aves seriam totalmente banidos do planeta com o aumento da temperatura, que provocaria mudanças drásticas principalmente nos frágeis ecossistemas florestais e pantanosos.

10. Como impedir um aquecimento global exagerado?

Cientistas e engenheiros defendem que a solução para o aquecimento global exagerado está no desenvolvimento de tecnologias energéticas que emitam menos dióxido de carbono. Entre as mais pesquisadas atualmente estão a fissão nuclear, células combustíveis de hidrogênio, desenvolvimento de motores elétricos e também o aprimoramento de motores à combustão pela diminuição do consumo e pela diversificação de substâncias combustíveis. No Brasil, ganha destaque o desenvolvimento de matrizes energéticas de origens vegetais, como o etanol, o biodiesel e também o Hbio.

11. Qual a importância do Protocolo de Kioto para conter o aquecimento?

 O protocolo de Kioto – que entrou em vigor em fevereiro de 2005 e conta com a participação de 163 nações – prevê que até 2012 seus signatários reduzam as emissões combinadas a níveis 5% abaixo dos índices de 1990. A eficácia do acordo, contudo, é limitada, pois até o momento os Estados Unidos, maior emissor mundial de dióxido de carbono, não ratificaram o pacto. Especialistas acreditam que as resoluções de Kioto apenas combatem a camada mais superficial do problema do aquecimento global.   Retirado de http://www.uol.com.br


Heath Ledger – novo ícone?

Fevereiro 2, 2008

02/02/2008
Jovens astros que se tornaram ícones pela morte: James Dean, Kurt Cobain… e Heath Ledger?

Maria Puente
brokeback-mountain-heath-ledger.jpg

Viva intensamente, morra jovem, torne-se imortal.

Bem, talvez não.

heath_ledger_f_008.jpg

Nesta era acelerada e de Internet global, a trajetória tradicional para alcançar o status de figura cult após a morte está mudando.

Enquanto os fãs em luto declaram o ator jovem Heath Ledger “o James Dean de sua geração”, há questionamentos. Estaremos falando de Ledger no futuro como ainda falamos sobre Dean -que morreu há mais de 50 anos?

A morte de Ledger foi diferente da de Dean, apesar de não menos comovedora. O australiano de 28 anos foi encontrado no dia 22 de janeiro em seu apartamento em Nova York por sua faxineira e sua massagista. A causa não foi determinada.

Marko Georgiev/Reuters - 25.jan.2008
Fãs se aglomeram diante de local onde seria velado o corpo do ator Heath Ledger em NY

Não há mistério sobre como Dean morreu. De fato, foi seu final fora de hora em 1955 que marcou o ponto de nascimento da cultura de celebridade americana, diz Chris Epting, autor de “James Dean Died Here” e de outros livros sobre os locais e artefatos da cultura popular americana.

Com apenas 24 anos e três papéis no cinema, Dean morreu em uma estrada solitária da Califórnia após uma colisão de frente em seu Porsche. Seis meses depois, seu terceiro filme, “Rebelde sem causa” foi lançado, causando sensação, especialmente entre os jovens. Dean ascendeu ao status de cult que perdura até hoje.

“Heath Ledger é uma das primeiras pessoas ao estilo Dean a morrer na era da Internet, então sua morte será um teste para ver quanto tempo a Net abanará esta chama”, diz Epting. “Será interessante ver: será imortalizado ou a próxima grande coisa o suplantará totalmente em algumas semanas?”

Karal Ann Marling, por exemplo, acha que sim. Professora de estudos americanos e cultura popular da Universidade de Minnesota, Marling acredita que é natural todo mundo se sentir triste com a morte de um jovem, famoso ou não. Mas o grande interesse na morte de Ledger em breve esmaecerá, prevê.

“Eles não vão erguer um busto dele no Grifftih Park” em Los Angeles, diz Marling. “Isso é mais sobre celebridade e diversão -o país é tão louco por celebridades que quase qualquer coisa que uma celebridade faça vale uma notícia, e a maior parte ‘disso’ é uma forma de evitar a política.”

Ser jovem, ter boa aparência e estar morto, apesar de trágico, não é sempre suficiente para garantir que a pessoa perdurará na consciência pública. Veja Brad Renfro, jovem ator encontrado morto com 25 anos em seu apartamento de Los Angeles uma semana antes de Ledger. Renfro (que começou quando criança), tinha mais filmes que Ledger, mas sua carreira estava empacada -e sua morte passou praticamente despercebida.

É um debate de bar argumentar quem pertence ao panteão da cultura popular permanente e quem não. A lista de “figuras do entretenimento” que inegavelmente pertencem ao panteão é relativamente curta: além de James Dean e Marilyn Monroe, inclui Elvis Presley, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Marley, Jim Morrison, John Belushi, John Lennon, Kurt Cobain.

“Há algo de místico, alguma magia sobre eles, porque nem todo mundo sabia tudo sobre eles quando eram vivos”, diz Lynn Bartholome, do Colégio Comunitário Monroe em Rochester, Nova York, presidente da Associação de Cultura Popular -acadêmicos que estudam a cultura americana.

A lista daqueles sobre quem há dúvidas é maior: Freddie Prinze, Tupac Shakur, Buddy Holly, River Phoenix, Ritchie Valens, John Candy, Phil Hartman, Brandon Lee, Cass Elliot, Keith Moon, Brian Jones, Hank Williams, Selena.

Na Internet, as listas compiladas por várias pessoas que ligam para essas coisas são intermináveis. Uma equipe de pesquisadores no Reino Unido até fez um estudo sobre a fama e a morte prematura. Os pesquisadores da Universidade John Moores, em Liverpool, avaliaram 1.064 astros do rock e pop norte-americanos e britânicos -100 dos quais tinham morrido cedo- e concluíram que há mais do que o dobro de probabilidade da pessoa morrer cedo com a chegada da fama, segundo publicaram em uma revista de epidemiologia no ano passado.

Então quem fica entre os imortais, e por quê?

Ajuda ser um pouco excêntrico. Ajuda ter uma alma torturada, demônios pessoais, problemas com pílulas ou álcool ou comportamento ilegal. Principalmente, ajuda ter seguidores apaixonados “antes” da morte -como Dean e Monroe, diz Patrícia King Hanson, historiadora do Instituto de Cinema Americano. Ambos tinham forte conexão com o público, especialmente com os jovens, que respondiam às notas de vulnerabilidade e tragédia que mostravam em tela e em suas vidas pessoais.

“Nenhuma pessoa é lançada à grandeza só pela morte”, diz Hanson. “É um certo tipo de pessoa que parece atrair seguidores e apenas por virtude de sua morte parece expandir. As pessoas ficam com uma imagem maquiada deles -sempre jovens e sempre vibrantes.

“O sujeito feliz sem problemas que morre cedo não vira cult.”

A Internet apressa e espalha a reação a alguma coisa como a morte de Ledger, mas pode sumir igualmente de maneira rápida. “É um mini-cult e é muito temporário”, diz ela. “Talvez em três meses não haverá tanto”.

Epting acha que é cedo para dizer, mas se pergunta se a morte de Ledger terá o poder de perdurar. “Meu filho tem 14 anos e freqüenta uma escola pública no Sul da Califórnia. Ele me conta sobre os jovens afetados com isso. Eles captaram aquele sentimento solitário, que Ledger era torturado em sua vida pessoal, que era marginalizado, que fazia seus papéis com seriedade.”

Há algumas similaridades entre Dean e Ledger.

Como Dean, Ledger era jovem e sensual, com meia dúzia de papéis no cinema, uma nomeação ao Oscar por um papel transcendental (“O Segredo de Brokeback Mountain”) e uma atuação potencialmente memorável como um Coringa especialmente maldoso no novo filme de Batman que ainda será lançado. (Dean recebeu duas nomeações, por seu primeiro papel em “Vidas Amargas” [1955] e por “Assim Caminha a Humanidade” [1956]; ele foi o primeiro a receber nomeações póstumas.)

Diferentemente de Dean, Ledger era pai há pouco tempo; sua filha tem dois anos. Ledger também morreu em uma era da mídia de cerco às celebridades. Minutos depois, a cobertura tornou-se global; o choque, palpável. Sua família na Austrália soube que estava morto junto com todo mundo; hoje em dia, não há tempo para a amenidade de notificar os parentes antes de a notícia chegar ao mundo.

Diante de seu apartamento no SoHo, multidões se reuniram, tributos fluíram pelos blogs e websites e buquês de flores e outras lembranças empilharam-se na porta do prédio após retirarem seu corpo.

“Sempre teremos orgulho de você, Heath. Descanse em paz, amigo”, dizia uma mensagem em uma impressão da bandeira australiana.

Até hoje, as pessoas ocasionalmente deixam tributos diante da boate Viper Room, no Sunset Boulevard em West Hollywood, onde o jovem ator River Phoenix morreu de overdose aos 23, em 1993.

“Esses lugares vão se tornando templos, e acho que (a porta do prédio de Ledger) será um altar por um tempo”, diz ele.

Será que “The Dark Night”, último filme de Ledger, vai acabar sendo seu “Rebelde Sem Causa”, levando-o à fama duradoura? Talvez, mas em uma era em que mais jovens freqüentadores de cinema vêem filmes em iPods e iPhones, será que poderão se conectar com aquelas imagens minúsculas da mesma forma que seus avós se ligaram a Dean em telas prateadas gigantes, questiona Epting.

É útil lembrar que a imortalidade não é assegurada mesmo quando há confrontos no funeral. Lembra-se de Rudolph Valentino? Antes de Dean, a morte mais memorável de Hollywood tinha sido a do astro do cinema mudo italiano, conhecido como “amante latino”, que morreu em Nova York em 1926 aos 31, depois de uma operação de úlcera que deu errado.

A reação foi cataclísmica: uma multidão de 100.000 pessoas apareceu para o funeral carnavalesco em Nova York, tentando ver o corpo na capela Frank E. Campbell (mesmo lugar para o qual o corpo de Ledger foi levado antes da família levá-lo de volta para a Austrália). Quando o corpo de Valentino foi levado de trem para o enterro em Hollywood, milhares viram-no passar, e milhares estavam lá no Hollywood Memorial Park quando quilos de flores caíram de um avião.

Foi um show e tanto, amplamente coberto pela mídia na época. Ainda assim, quantas pessoas ainda falam de Valentino hoje?

Como diz Bartholome sobre o lugar de Ledger na mente pública: “Muito poucos chegariam ao panteão hoje, e isso é por causa da mídia e por causa da Internet -simplesmente sabemos demais sobre pessoas demais.”

Tradução: Deborah Weinberg


Os novos ricos irlandeses

Janeiro 7, 2008

A ganância dos irlandeses
subtitulo = ”; if (subtitulo.length > 2) { document.write (‘‘+subtitulo+’
‘) };
John Murray Brown*

Há vinte anos, se podia contar nos dedos de uma das mãos quais eram os irlandeses autenticamente ricos. Hoje em dia, existem tantos ricos que nem mesmo os profissionais que administram fortunas conseguem acompanhar. O país tem tido um desempenho incrível.

Uma das conseqüências disso é que agora os irlandeses estão vendo a si próprios de uma forma diferente. A imagem de católicos humildes, mas poéticos vivendo à sombra dos empolados e esnobes protestantes ingleses não tem mais sentido para nenhum dos lados, nem mesmo como caricatura. O país de “santos e eruditos” mostrou na década passada que tem vocação também para os negócios.

Os irlandeses ganharam dinheiro em gerações anteriores, mas eles geralmente precisavam sair da Irlanda para isso. Os Conselhos de Administração de empresas nos Estados Unidos estão cheios de nomes irlandeses. Na Inglaterra também, várias das maiores empresas são dirigidas por irlandeses de primeira ou segunda geração, tais como Terry Leahy da Tesco ou Niall FitzGerald, ex-presidente da Unilever. Mas a próspera economia reverteu o fluxo de imigrantes e permitiu que esta geração de homens e mulheres irlandeses explorasse em casa seus talentos de empreendedores.

Quando a economia decolou no início da década de 1990, estava bem situado quem estivesse nos setores de imóveis e construção. O aumento dos empregos e a elevação das rendas, associado a custos muito baixos para empréstimos, ao mesmo tempo em que a Irlanda se preparava para aderir ao euro, incentivou a demanda por moradias e imóveis comerciais, pressionando alta ainda maior nos preços. No campo, os controles de planejamento eram mínimos, estimulando uma onda de pequenos projetos de construção, enquanto proprietários agrícolas com terra perto das grandes cidades tornaram-se instantaneamente milionários, e as cadeias familiares de varejo tiveram uma drástica alta em seu valor, com a chegada das grandes varejistas britânicas. Mas quem mais ganhou foram os construtores e empreiteiros que tiveram a visão de adquirir grandes bancos imobiliários antes que os preços disparassem em 1994.

Alguns críticos comparam os magnatas imobiliários da Irlanda aos oligarcas russos. Segundo uma estimativa, seis ou sete empresários possuem quase todos os imóveis comerciais em Dublin. Uma concentração como essa na propriedade provavelmente foi vista pela última vez nos dias antes da independência irlandesa. Naqueles dias a terra na Irlanda valia uma fração do que valia na Inglaterra, mas hoje em dia tem preços superiores, apesar de uma densidade populacional bem menor na Irlanda. Durante os anos de grande crescimento, os produtores agrícolas foram muito bem compensados, pois o governo deu continuidade aos programas de rodovias e infra-estrutura financiados pela União Européia. E em áreas próximas a Dublin e outras cidades, os preços da terra foram inflados, pois os conselhos municipais competiam para atrair empregos e empresas.

Essa base doméstica de imóveis valiosos lançou uma nova geração de investidores imobiliários irlandeses em direção ao mercado internacional, particularmente na antiga capital do império, Londres. Hoje, poucos negócios imobiliários em Londres são feitos sem alguma presença irlandesa. Conta-se que metade da Bond Street é irlandesa agora.

Não é de se surpreender que a emergência dos novos ricos da Irlanda não seja em geral bem-vinda. Embora a Irlanda moderna jamais tenha tido um forte movimento trabalhista ou um eixo nítido esquerda-direita em sua política, existe um pendor de igualdade social e nivelação de classes na auto-imagem nacional que não está completamente à vontade com uma grande classe endinheirada.

Mas desde que a maioria dos eleitores irlandeses continue a se beneficiar do sucesso do país, haverá pouca hostilidade orquestrada em relação aos magnatas. Os irlandeses parecem ter um apego emocional à propriedade e mais visceralmente à terra, uma atitude que alguns dizem ser um legado direto do colonialismo britânico.

“Nós temos sido pobres há tanto tempo, que qualquer forma de desenvolvimento… é bem-vinda. Não existe disposição da parte da opinião pública de ser muito crítica,” diz Garret FitzGerald, primeiro-ministro na década de 1980 para o partido conservador Fine Gael. E as pessoas comuns estão se beneficiando, pelo menos da prosperidade no setor imobiliário: a proporção de riqueza nacional associada à propriedade residencial é de 74% contra a média européia de 57%. Isso está refletido na taxa de 77% de irlandeses que são donos de seus imóveis, em comparação com 71% no Reino Unido, 56% na França e apenas 43% na Alemanha.

A demanda por moradias também registra um ritmo muito mais acelerado, com 88 mil novas casas construídas em 2006, em comparação com 155 mil na Inglaterra e País de Gales, uma área como 13 vezes mais pessoas. Em 2004, a revista The Economist classificou a qualidade de vida na Irlanda como a melhor do mundo, dizendo que a Irlanda “combina os elementos mais desejáveis do novo, tais como baixo desemprego e liberdades políticas, com a preservação de certos elementos acolhedores do antigo, tais como estabilidade familiar e vida em comunidade.”

Os partidos mais de esquerda, como o Trabalhista e o Sinn Fein, queixam-se do aumento das desigualdades de renda e do fato de a infra-estrutura social não se ter equiparado à riqueza privada, mas nenhum dos dois partidos tem tido bom desempenho nos últimos anos. E embora a desigualdade tenha crescido e ainda exista uma grande quantidade de pobres, que podem ser vistos nas ruas das grandes cidades, não se ouvem protestos. Uma das razões disso é que o modelo econômico e social da Irlanda sempre foi mais próximo do laissez-faire dos Estados Unidos que da Europa continental (“mais para Boston que para Berlim”).

Um grupo que muitas vezes desdenha dos novos ricos da Irlanda é a venha elite irlandesa, formada principalmente por importantes funcionários públicos de Dublin, advogados, jornalistas e artistas. Segundo David McWilliams, o comentarista econômico irlandês, esse grupo está retomando o interesse pelo idioma irlandês e mandando seus filhos para escolas celtas de Dublin, onde o aprendizado é em irlandês, como forma de se diferenciar dos presunçosos recém-chegados.

Garret FitzGerald acredita que a rapidez e a escala da mudança econômica não têm paralelo em nenhum outro lugar da Europa. Entre alguns cidadãos existe, inevitavelmente, uma sensação de desorientação frente às mudanças sociais – incluindo a chegada de imigrantes em massa (10% da população atual nasceu no exterior). Além disso, a instituição que persistiu em se distanciar da adoção do “hipercapitalismo” pela Irlanda – a Igreja Católica – está mais fraca e mais marginalizada que nunca, graças em parte aos escândalos de pedofilia.

A desorientação no tigre pós-Celta foi resumida por muitos na construção de uma alta torre de aço na rua O’Connell em Dublin para marcar o milênio. Para alguns, o monumento é apenas um mastro de bandeira sem bandeira. Mas para outros, o marco – construído no lugar da antiga Coluna de Nelson, explodida pelo IRA em 1966 – traz uma mensagem provocativa a respeito da nova Irlanda, com sua nova riqueza podendo finalmente escapar da sombra de seu vizinho.

No século 19, e grande parte do século 20, os irlandeses foram à Grã-Bretanha para construir canais, estradas e outra infra-estrutura. Hoje, os empreiteiros irlandeses adquirem bens de grande importância na cidade de Londres e em outras partes da capital. Uma das conseqüências dessas mudanças no status relativo, assinala FitzGerald, é que pode ser mais difícil de se conseguir a reunificação da ilha – um projeto ainda de interesse da nacionalista Irlanda. “O norte é muito mais pobre. Eles não poderiam se dar ao luxo de se unir a nós e nós não temos como subsidiá-los,” ele diz.

Ao mesmo tempo, as relações entre a Irlanda e a Grã-Bretanha, e particularmente entre os irlandeses e os ingleses, provavelmente jamais tenham sido tão boas. Enquanto os irlandeses cada vez mais olham para além da Grã-Bretanha, eles se tornaram menos irascíveis a respeito do relacionamento com seu gigante, mas em geral insensível vizinho. “O complexo de inferioridade irlandês desapareceu e o complexo de superioridade britânico se enfraqueceu,” diz FitzGerald. Claro, ele acrescenta, as relações jamais serão realmente iguais e os britânicos continuam a ter uma considerável influência cultural sobre a Irlanda – a televisão britânica, por exemplo, está em toda parte. “Não se pode ter igualdade entre quatro metros e 60 metros. Mas certamente existe menos desigualdade.”

O clássico ensaio de Roy Foster sobre as relações culturais anglo-irlandesas no período vitoriano recebeu o título “Marginal Men and Micks on the Make” (livremente, “Homens marginais e irlandeses tentando tirar vantagem”), descrevendo os irlandeses que se deram bem na Grã-Bretanha naquela época. Mas em seu livro mais recente sobre a Irlanda moderna, “Luck & the Irish” (“Sorte e os irlandeses”), ele descreve como a nova fartura transformou a imagem que a Irlanda tinha de si mesma. “A Irlanda é como a terceira república francesa,” ele disse recentemente. “Temos a corrupção irresponsável. Temos a instabilidade política. Há uma enxurrada de dinheiro em volta e um grande momento de vigor cultural… É uma combinação interessante e de certa forma, dado o histórico da Irlanda, sem dúvida alguma libertadora.”

*John Murray Brown é correspondente do The Financial Times na Irlanda

Tradução: Claudia Dall’Antonia


O Rio em guerra

Dezembro 2, 2007

Dêem uma olhada:

War in Rio 


Gilberto Freyre (1900-1987) – Museu da Língua Portuguesa

Novembro 26, 2007


Museu da Língua Portuguesa homenageia Gilberto Freyre; montada como uma casa, mostra é visita à obra do autor de “Casa-Grande & Senzala’

Divulgação
Freyre, a mulher, Magdalena, e a filha Sonia Maria, num passeio de gôndola em Veneza, em 1960

EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

O Museu da Língua Portuguesa abre hoje, para convidados, e amanhã para o público, sua terceira exposição temporária. Depois de homenagear Guimarães Rosa e Clarice Lispector, o museu abriga, até o dia 4 de maio de 2008, “Gilberto Freyre – Intérprete do Brasil”, seu tributo ao sociólogo e antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, morto há 20 anos.
Freyre é autor, entre outros, de “Casa-Grande & Senzala” (1933), que já está em sua 48ª edição. A obra tornou-se um marco na historiografia brasileira, opondo-se ao mero registro cronológico de feitos grandiosos, para se debruçar sobre hábitos nacionais até então vistos como insignificantes, do ponto de vista da interpretação do país, e ainda sua história oral, manuscritos de arquivos públicos e privados etc.
A mostra é uma visita metafórica à “casa”, à obra de Freyre. Ela reúne, pela primeira vez em conjunto, 27 pinturas, entre aquarelas e telas a óleo, feitas por Freyre, que retratam temas que lhe eram caros, como a religiosidade, a família e os sobrados. Assinadas apenas com “Gil”, as obras não são datadas, mas, segundo a curadora Julia Peregrino, foram feitas durante as décadas de 1940 e 1950.
Peregrino -que já havia feito a curadoria da mostra de Clarice Lispector- divide o trabalho agora com Pedro Vásquez, o cenógrafo André Cortez e a professora Elide Rugai Bastos, da Universidade de Campinas.
“Há recantos que lembram os engenhos, os sobrados, as raízes da obra de Freyre. A idéia é que o espectador viaje na cenografia, conhecendo sua obra ao abrir gavetas, armários etc.”, adianta Peregrino.

A visita
Todo o material em exibição pertence à Fundação Gilberto Freyre ou foi garimpado das coleções particulares da família do escritor. Logo à entrada da exposição, um conjunto de paredes divididas ao meio traz frases do autor em vitrines e nichos com seus quadros.
A casa de Freyre no museu abriga ainda cinco criados-mudos com registros de recepções a que ele compareceu na década de 50, em Portugal. Duas malas com seus passaportes. E uma grande mesa, dividida em duas. Numa parte estão livros de receitas dos engenhos, material de pesquisa que usou para os livros “Açúcar” e “Casa-Grande & Senzala”. Noutra, 26 correspondências trocadas com, entre outros, o pintor Portinari, o compositor Heitor Villa-Lobos, o educador Anísio Teixeira e o sociólogo Florestan Fernandes.
Dois destaques da mostra são a exibição de documentos originais e a reprodução, em áudio, de trechos dos questionários que Gilberto Freyre fez com brasileiros de ambos os sexos, de diferentes classes sociais, nascidos entre 1850 e 1900, para a escrever outro de seus clássicos, “Ordem & Progresso”, de 1959. Os fones estão espalhados em 27 maquetes de sobrados, que novamente remetem à obra do sociólogo


A Bienal de São Paulo

Novembro 15, 2007

O papelão da Bienal

MARCO AUGUSTO GONÇALVES
O cancelamento da mostra expõe a incompetência da fundação e a face jeca e atrasada de São Paulo

O CANCELAMENTO da Bienal de São Paulo, que se realizaria no ano que vem, é um atestado de incompetência da atual direção da fundação e de seu conselho, que reúne representantes da elite paulista para os quais a arte parece ser o que menos importa.
A rocambolesca novela em que se transformou a recondução do empresário Manoel Pires da Costa à presidência da instituição, recheada de lances obscuros, irregularidades e movimentações de bastidores, já prenunciava o papelão que ora se consuma. Sem muitas opções, o curador Ivo Mesquita, com a respeitabilidade e as credenciais que possui para ocupar o cargo, propõe, no lugar da tradicional exposição, uma reflexão sobre o vazio. Vazio estará um andar inteiro do prédio de Niemeyer em meio a debates e, ao que parece, realização de performances e exibição de vídeos.
Tudo não passa de uma operação tampão ou de uma tentativa de reduzir os danos, que, a essa altura, já são consideráveis. Perdem artistas, público, cultura, cidade, país.
Num contexto em que a produção de arte e o mercado brasileiro vêm se fortalecendo e ganhando crescente inserção e reconhecimento internacionais, era de esperar que instituições do porte da Bienal já não fossem conduzidas por personagens defasados, amadores em busca de prestígio, alheios à dinâmica cada vez mais profissional e sofisticada do meio artístico.
Paralela e análoga, a crise do Masp é mais um lance dessa realidade crítica. É verdade que a desastrosa situação do principal museu de arte do país foi amenizada com a nomeação de um curador e a retomada de algumas exposições de qualidade. Mas isso é o mínimo que se poderia esperar. O Masp, de fato, continua muito distante do papel que poderia e deveria exercer.
Essa não é uma opinião pessoal, idiossincrática. É a avaliação da esmagadora maioria (senão da totalidade) dos artistas que importam e dos profissionais mais qualificados que trabalham na área.
Voltando à Bienal, disse o presidente da instituição que não há crise nenhuma, numa patética e frustrada tentativa de tapar o sol com a peneira. Em artigo publicado ontem pela Ilustrada, o curador Marcio Doctors, que deixou o cargo, aponta as limitações financeiras para fazer uma “Bienal completa”. Para citarmos alguns exemplos: artistas e curadores ficaram sem receber e os catálogos da mostra, realizada no ano passado, ainda estão por ser publicados.
Agora, depois de uma série de escaramuças e idas e vindas, chegamos ao que se poderia chegar com tamanho despreparo: à impossibilidade de realizar um evento à altura do que São Paulo e a arte brasileira merecem. Foco de atração de artistas e curadores de todas as partes do mundo, a elite da cidade, com o flop da próxima Bienal, mostra sua face jeca e atrasada.
Enquanto isso, em Porto Alegre, a Bienal do Mercosul melhora a cada edição e, em março, será inaugurado o Museu Iberê Camargo, um projeto magnífico do arquiteto português Álvaro Siza.
Bem, deu pra ti, baixo-astral…

Transcrito da F.S.P 


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A

 


O Rolex do Huck

Outubro 29, 2007

O rolo do Rolex

ZECA BALEIRO
Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado?


NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.
Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como “sou cidadão, pago meus impostos”. Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, “romanceando” o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de “vencedor”. Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de “marxista babaca” e “comunista de museu”) revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram “comunistas”, “petistas”, “fascistas”. Os que o apoiavam eram “burgueses”, “elite”, palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao “Houaiss”: “Elite – 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]“.
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista “Veja”, notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita “consciência democrática”, propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: “Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos”. Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.


JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, “Pet Shop Mundo Cão”.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br


‘Gentileza com gentileza se paga.’

Julho 1, 2007

29/06/2007

É hora de ser gentil

Reinaldo Polito

Para falar da gentileza, vou aproveitar o comentário que o filósofo René Descartes fez sobre o bom senso na sua obra “Discurso do Método”: “o bom senso deve ser o bem mais bem distribuído da face da Terra, pois ninguém deseja ter quantidade maior do que já possui.

E não é assim que a maioria de nós se comporta? Queremos um pouco mais de tudo -mais poder, mais riqueza, mais fama, porém, julgamos ter bom senso em quantidade mais que suficiente.

O mesmo ocorre com a gentileza. Quase sempre imaginamos que já somos suficientemente gentis. Se dissermos a uma platéia que de cada cem pessoas apenas dez são gentis, provavelmente todos os presentes julgarão que se enquadram nesses 10%.

Por isso, vamos refletir um pouco sobre como temos nos relacionado com as pessoas e sejamos nosso próprio juiz para decidirmos se a gentileza está ou não presente em nossas atitudes.

Se chegarmos à conclusão de que o bom relacionamento anda ausente do nosso manual de conduta, talvez possamos rever a maneira como temos nos comportado e passemos a levar uma vida social diferente, com mais generosidade.

É simples ser gentil
Embora um dos símbolos da gentileza seja o do homem que tira o casaco e o coloca sobre a poça para que uma mulher caminhe sem molhar os pés, no dia-a-dia, ser gentil não exige tanto sacrifício.

Para ser gentil basta tomarmos alguns pequenos cuidados que não nos darão tanto trabalho, nem nos desviarão muito dos nossos afazeres. Vamos analisar alguns exemplos de gentilezas que podemos incorporar com facilidade aos nossos hábitos.

Segurar a porta de entrada do restaurante ou do elevador para que a pessoa a encontre aberta. Essa atitude tão simples demonstra educação, generosidade e espírito de solidariedade.

Quem sabe alguém pudesse questionar agora: “Polito, mas o que eu ganho sendo gentil?” Bem, nós não deveríamos nos preocupar se há ou não algum tipo de lucro, benefício ou vantagem para quem age com gentileza. Em todo caso, se for preciso falar em dividendos para que uma pessoa se anime a ser gentil, motivos não faltarão.

No exemplo acima, ao segurar a porta na entrada do restaurante ou do elevador, a atitude simpática talvez não seja valorizada apenas por quem foi beneficiado pelo gesto, mas também, e acima de tudo, por todos que presenciaram aquela gentileza.

Não é difícil deduzir que com esse procedimento projetaremos aos olhos dos outros uma imagem bastante positiva, de que somos pessoas bem formadas, que merecemos admiração.

E gentileza se paga com gentileza. Se alguém segurar a porta para nós, devemos retribuir com um agradecimento. Sei que parece desnecessário esse tipo de recomendação, mas já perdi a conta do número de pessoas que observei passando duras e indiferentes por aquele que gentilmente segurou a porta para elas. Essa desconsideração é um bom motivo para que nos vejam como mal-educados, grosseiros e poderemos conquistar antipatias até sem mencionarmos uma única palavra.

Ainda dentro dos exemplos das gentilezas que nos cercam no dia-a-dia, podemos incluir o gesto cada vez mais raro de ceder o lugar no transporte coletivo ou numa sala de espera às pessoas mais velhas, ou de qualquer idade que estejam carregando crianças no colo, sacolas, ou objetos que claramente demonstrem algum tipo de desconforto.

Eu disse que esse gesto é cada vez mais raro porque o costume de ceder lugar, que fazia parte das nossas boas tradições, começa a ser desprezado. Mais grave ainda é a atitude do homem que ao invés de oferecer o lugar a uma senhora idosa, rasga a cartilha do bom comportamento e privilegia uma moça jovem e saudável. Provavelmente nem ela que foi beneficiada goste daquela atitude. Os que estão a sua volta vão torcer o nariz e encará-lo como alguém desprezível.

Observe que as gentilezas que estou mencionando são as mais simples e comuns no nosso cotidiano. Convivemos a vida inteira com situações onde elas poderiam ser usadas de maneira bastante natural, praticamente sem esforço.

Exemplo de gentilezas é que não falta. Vamos supor que tenhamos ido a uma festa ou um jantar na casa de amigos. Para saber que atitude eles gostariam que tivéssemos, basta nos colocarmos no lugar deles e imaginarmos como desejaríamos que nossos amigos agissem no dia seguinte.

É claro que esperaríamos que dessem um retorno dizendo como o encontro havia sido agradável. Por isso, não negligenciemos, não custa nada ligar para eles e falar com detalhes, de maneira natural, sobre tudo o que foi positivo.

Não seria mal se mandássemos algumas flores acompanhadas de um cartão elogiando a maneira como nos recepcionaram. Não dará muito trabalho, e eles se lembrarão de nós sempre com simpatia.

A gentileza também pede passagem nas reuniões e nos bate-papos. Se há uma situação desagradável, é estar numa conversa e ficar à margem, como se nós não existíssemos. Quando a pessoa é inibida, o constrangimento é ainda maior, pois além de ficar marginalizada ela se sente pressionada e sem condições de participar.

Se nós incluirmos na conversa uma pessoa tímida ou que se sinta deslocada numa reunião, ela jamais nos esquecerá. Mesmo que o assunto não tenha nenhuma ligação com ela, podemos olhar em sua direção, pedir sua opinião, perguntar sobre o filho dela, enfim, mostrar que ela tem importância. É quase certo que essa atitude gentil a sensibilizará e a deixará sempre agradecida.

Abrir a porta do carro e puxar a cadeira para uma mulher continua na moda e é uma gentileza do homem sempre vista com bons olhos. Se você for homem e não estiver acostumado a abrir a porta do carro ou puxar a cadeira para uma mulher, é possível que se sinta sem jeito quando começar a tomar essas atitudes, pois terá a impressão de que todos olham em sua direção para ridicularizá-lo. Mas é só impressão, em pouco tempo terá se acostumado e passará a agir com espontaneidade.

Nessas situações não podemos hesitar, devemos agir com determinação e nos comportar de maneira convicta, como se fosse uma iniciativa bastante natural. Se você for mulher e receber esse tipo de gentileza, lembre-se de agradecer e se mostrará muito gentil se em locais movimentados, escuros ou em dia de chuva retribuir abrindo a porta do motorista por dentro, para facilitar a entrada do seu companheiro.

Falando em gestos gentis, enviar flores, independentemente de ser homem ou mulher, será uma atitude sempre admirada e com excelentes resultados para o relacionamento.

Expressões de ouro
Além das atitudes gentis que acabamos de analisar, algumas expressões são excepcionais para nos aproximar das pessoas. Mas, por sua importância não ser considerada de forma correta, tem gente que nem se lembra mais de que elas existem.

Se dissermos “por favor” ao iniciarmos ou concluirmos qualquer pedido, adicionaremos à frase uma simpatia capaz de afastar barreiras que nem os mais poderosos argumentos conseguiriam suplantar.

Esse poder mágico do “por favor” não se restringe à comunicação oral. Se essa expressão gentil for usada ao escrevermos uma carta, um relatório, um e-mail, ou mesmo um simples bilhete, dará à mensagem poderes adicionais que ajudarão a persuadir e afastar as mais resistentes objeções.

Lembremo-nos, todavia, de que o tom de voz tem importância fundamental nesse processo. De nada adiantará pedirmos “por favor” com um tom de voz que indique uma atitude autoritária, ou apenas uma espécie de obrigação de alguém que deseja apenas se valer de uma técnica, de um recurso que não corresponda ao que estiver sentindo. As pessoas irão perceber essa artimanha e duvidarão de nossas intenções. Devemos falar com sinceridade e demonstrar que reconhecemos que a pessoa fará algum tipo de sacrifício ou de esforço para nos atender, ainda que seja obrigação dela.

Para sermos gentis, não podemos economizar a palavra mais importante que temos à disposição, “obrigado”. Embora o Aurélio estabeleça apenas três conceitos para definir o sentido de obrigado, eles são bastante abrangentes e podem se encaixar facilmente em praticamente todas as circunstâncias: agradecido, grato, reconhecido.

Por isso, a regra geral é agradecer a todas as pessoas o tempo todo. Se alguém nos der passagem, vamos dizer “obrigado”, se nos der atenção, vamos dizer “obrigado”, se atender a um pedido nosso, vamos dizer “obrigado”. Não existe nada tão fácil e mais eficiente do que dizer “obrigado”. Se o que nos fizerem for muito importante, estiquemos um pouco mais e vamos dizer “muito obrigado”, será uma forma simpática de dizer que nós ficamos realmente agradecidos.

Os comerciantes que tiveram de sobreviver a duras penas, procurando manter seus negócios a cada dia, aprenderam o valor das gentilezas. Para eles, dizer “obrigado”, “pois não, em que posso servi-lo?”, “volte sempre”, tornou-se um hábito natural como respirar ou se alimentar. E, por saberem como os clientes são importantes, usam essas expressões com sinceridade, cativando as pessoas com as quais precisam se relacionar.

Ser solidário nas realizações bem-sucedidas das outras pessoas é uma bonita demonstração de gentileza. Precisamos aproveitar todas as oportunidades para cumprimentar os vitoriosos pelos seus feitos. Se uma pessoa que conhecemos ou alguém da sua família recebe uma homenagem, é aprovada num concurso, é citada com destaque, vamos cumprimentá-la.

Parabéns é uma palavra que todo mundo espera ouvir pelas conquistas que obteve. Essa expressão sempre que possível deverá ser acompanhada dos motivos da façanha; por exemplo, parabéns por ter conseguido passar no vestibular; parabéns pelo nascimento do filho. Devemos ficar atentos e, ao descobrirmos que alguém tem motivo para ser cumprimentado, tomemos a iniciativa.

SUPERDICAS DA SEMANA

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

é mestre em ciências da comunicação, palestrante e professor de expressão verbal. Escreveu 15 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares

Site: www.polito.com.br
e-mail: polito@reinaldopolito.com.br