Oliva e seus derivados

Dezembro 29, 2007

 

 
Para nós brasileiros, o azeite de oliva extra virgem é um alimento bastante recente, porém é bom que se saiba que o azeite já existe há mais de 10 mil anos! Mas não se comia azeite na antiguidade. Por suas vitaminas, por seu poder anti-séptico e sua capacidade de impedir a passagem de ar, o azeite era utilizado como conservante, como medicamento, como base de perfumes e cosméticos, e principalmente como combustível para iluminação. Basta imaginar que não havia templo, palácio ou casa que não tivesse várias lamparinas funcionando à base de azeite, para entender o quanto este produto era valioso e altamente lucrativo.O azeite era tão importante que durante o Império Romano este ouro dourado era comprado, principalmente, na atual região espanhola de Andaluzia e também Norte da, África e vendido em todos os domínios de Roma. Somente em torno de 500 AC, após ser empregado durante séculos, como base para conservas, o azeite passa a ser usado também como um alimento que acrescenta sabor aos pratos.

Ao longo de toda a Idade Média, a igreja católica foi uma das principais divulgadoras do uso do azeite na mesa. Porém somente quando surge a Dieta Mediterrânea em 1970, o azeite passa a ser considerado a melhor gordura para o organismo humano. A partir deste fato, centenas e centenas de estudos científicos atestam as qualidades orgânicas do azeite. E o que era já conhecido pelos antigos, agora é comprovado em laboratórios pelos cientistas.

Por todo o seu passado e sua relação com a cultura do azeite de oliva, hoje a Espanha é responsável por quase 70% de toda produção mundial. Esta é uma das principais razões da alta qualidade e do baixo preço do azeite de oliva espanhol.


GILBERTO FREIRE – biografia polêmica (4)

Dezembro 16, 2007

O Mais! encerra a polêmica em torno do livro “Gilberto Freyre – Uma Biografia Cultural”

 

Identidade e cultura

 

ENRIQUE RODRÍGUEZ LARRETA
GUILLERMO GIUCCI
ESPECIAL PARA A FOLHA

 

Não faz sentido discutir aspas, citações e referências até a eternidade. Escrevemos a biografia partindo de um interesse pela importância contemporânea de Gilberto Freyre. Investigamos a genealogia da mestiçagem interrogada pelas políticas de identidade, os processos de transculturação, assim como a experiência vital de um intelectual e suas idéias.
Inicialmente nos inspiramos no esforço biográfico de Curt Paul Janz, em sua monumental biografia de Nietzsche, baseada na reconstrução de contextos, de leituras e escritos do autor alemão, diminuindo os inevitáveis anacronismos e projeções ideológicas.
No caso de Freyre, propusemos mostrar como pensamento e vida se combinam em uma construção de identidade, nas condições de um jovem provinciano situado entre muitas tradições, um pouco como ocorreu com o jovem V.S. Naipaul, quando chegou a uma Londres idealizada desde a longínqua Trinidad, devido à sua educação colonial.
Nossa interpretação considera os processos de mistura cultural e visão ex-cêntrica, examinando o modo como as idéias metropolitanas são reinterpretadas a partir de outros locais de enunciação.

 

Diálogo com o moderno
Situamos a experiência intelectual de Freyre em diálogo singular com o pensamento moderno.
Apresentamos-lhe como um “retroprogressista”, para empregar a expressão de Salvador Pániker, como um escritor que imagina uma civilização triunfante nos trópicos, inclusive uma possível modernidade alternativa e plural capaz de enfrentar o modelo da via de mão única da cinzenta “civilização carbonífera”, como escreve Gilberto Freyre.
Estudamos Freyre como um autor imerso nas conquistas das ciências sociais de vanguarda da época, sendo receptivo às mesmas, em uma demonstração de “humanismo inclusivo”, no sentido usado por José Guilherme Merquior.
Algo além de um ensaísta regionalista, vitoriano ou hispânico, com uma clara tendência a superar uma visão organicista da cultura por uma mais porosa, em que a intersubjetividade ocupa lugar de destaque.
Mostramos a importância do “momento” sociológico entre “Casa-Grande e Senzala” e “Sobrados e Mucambos” e como os conceitos-chave foram usados para dar luz a esse esplêndido trabalho de antropologia histórica de uma civilização híbrida que é “Sobrados e Mucambos”.

 

Livro fluido
Freyre nos interessa em relação às urgências do nosso tempo. A ascensão do racismo e da xenofobia, as reinvenções nacionais em curso na América Latina e outras partes do mundo. Escrevemos um livro fluido, nos atendo às regras narrativas do gênero biográfico e recorrendo a uma prosa que fizesse jus a Gilberto Freyre.
Seriedade e enfado não são sinônimos, embora alguns historiadores pensem o contrário. Valorizamos o diálogo e a crítica, mas rechaçamos, veementemente, o autoritarismo da resenha publicada no Mais! de 2/12. Esse é um estilo que estamos inclinados a chamar de “vitoriano” em um dos sentidos do termo: uma atitude ao mesmo tempo moralizante e imperial.
A leitura da biografia cultural é a forma mais prática para que os leitores interessados no tema decidam por si mesmos.
Assim será possível compará-la a outros livros sobre Gilberto Freyre, por sua qualidade literária, apresentação de documentação relevante e inteligência interpretativa e, desse modo, extrair suas próprias conclusões.

 

ENRIQUE RODRÍGUEZ LARRETA é antropólogo e diretor do Instituto do Pluralismo Cultural da Universidade Candido Mendes (RJ).
GUILLERMO GIUCCI leciona na pós-graduação em letras da Universidade do Estado do RJ.


GILBERTO FREIRE – biografia polêmica (3)

Dezembro 16, 2007

Com textos de Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke, de um lado, e Enrique Larreta e Guillermo

 

Fontes e dívidas

 

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE
PETER BURKE
ESPECIAL PARA A FOLHA

 

É pesaroso verificar que Larreta e Giucci, em sua réplica no Mais! de 9/12, escolheram se evadir a nossas críticas, oferecendo autocongratulações e acusações em vez de sólidas respostas às questões de princípio que levantamos. O que está em debate aqui não é a interpretação de Freyre, mas a ética da “scholarship”.
Os dois pontos que consideramos nosso dever apontar na resenha são o tratamento que deram a suas fontes e dívidas intelectuais. No primeiro caso, pareceu-nos questionável o uso acrítico que os autores fizeram dos escritos autobiográficos de Freyre. É verdade que dedicaram algumas palavras às “distorções da memória”, mas, como se isso fosse suficiente para eximi-los de maiores cuidados, incorporaram textos de Freyre em seu próprio texto, parafraseando ou citando suas palavras, muitas vezes não deixando isso claro e não usando aspas, como requer a boa prática acadêmica.
Como um exemplo dentre muitos, os autores se referem a um frustrado encontro de Freyre com Joyce, afirmando que um amigo de A. Lowell se encontrou com ele em Paris e “levou-lhe cartas de apresentação para Ezra Pound e James Joyce” (pág. 162). Não revelam que extraíram essa informação da autobiografia “Tempo Morto” (pág. 83), em que Freyre, ciente das “ficções da memória”, diz com cautela que seu amigo “S. trouxe de Miss L. cartas de apresentação para vários amigos dela de Paris e de Londres. Creio que cartas para Ezra Pound e até para Joyce”.
Quanto aos muitos estudos anteriores sobre Freyre, nós não esperávamos uma discussão dessas várias interpretações numa simples biografia.
O que certamente esperávamos -e o que altos padrões de trabalho intelectual exigem- é que, quando os autores usem material descoberto por outros ou adotem ou desenvolvam suas interpretações (como os autores freqüentemente fazem), reconheçam o fato no texto ou em notas (o que freqüentemente deixam de fazer).
Dentre as muitas inovações que reivindicam, citam suas interpretações sobre a questão da modernidade, da sexualidade, a relação de Freyre com Hearn e Boas -temas esses tratados antes e inovadoramente por outros estudiosos.
Provavelmente, a fim de enfatizar uma originalidade ilusória, os autores não mencionam esses estudiosos, perdendo assim a oportunidade de explicitar a novidade que reivindicam sem argumentar. Discorrer sobre modernidade e sexualidade em Freyre sem se referir, por exemplo, ao seminal artigo de Needell ou sobre a centralidade da noção de “equilíbrio de antagonismos” sem fazer referência à clássica interpretação de Benzaquem não é modo de contribuir para o avanço do conhecimento.

 

Predecessores
Quanto às acusações que os autores nos fazem -de que recorremos a “argumentos sectários”-, mesmo se fosse nosso estilo, não haveria motivo para sermos sectários a propósito de um livro que não tem uma tese com a qual se pode concordar ou discordar.
Quanto à acusação do “arbitrário método” utilizado por um dos autores da resenha em “Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos” [ed. Unesp], só podemos dizer que é difícil acreditar que um leitor inteligente possa interpretar esse trabalho como argumentando que “os predecessores são mais importantes que o autor”, pois o que aí se insiste é que, para compreender Freyre, a atenção ao diálogo que ele travou com seus predecessores é crucial.
Enfim, só nos resta lamentar que os autores, recorrendo a tais subterfúgios, se furtem a confrontar as sérias questões de princípio que seu trabalho suscita. Com tal atitude, nenhum debate intelectual sadio é possível.

 

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE é professora aposentada da USP e pesquisadora associada do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge.
PETER BURKE é professor de história cultural em Cambridge. Escreve na seção “Autores”.

 

NA INTERNET - Leia texto dos autores, publicado no Mais! de 2/12, em http://www.folha.com.br/073473


Gilberto Freyre – biografia polêmica (2)

Dezembro 16, 2007

Autores de biografia de Gilberto Freyre rebatem críticas

 

ENRIQUE RODRÍGUEZ LARRETA e
GUILLERMO GIUCCI
Especial para a Folha

 

Livros que fazem a diferença tendem a gerar polêmica. Ao final de sua resenha de nosso livro “Gilberto Freyre -Uma Biografia Cultural” (ed. Civilização Brasileira), publicada no Mais! no último dia 2, Maria Lúcia Pallares-Burke e Peter Burke prenunciam que “um grande desafio é agora reconstruir, analisar e interpretar as atividades e o pensamento de Freyre entre 1936 e 1987″.

 

Desse modo, parecem reconhecer que, em boa medida, o período entre 1900 e 1936 conseguiu ser coberto pelo nosso livro. Entretanto é clara a tentativa de diminuir sua contribuição recorrendo a argumentos sectários e de evidente má-fé. Trata-se de um estilo crítico que insiste no arbitrário método, já exposto por Pallares-Burke em seu livro “Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos” [ed. Unesp], segundo o qual os predecessores são mais importantes que o autor. O oposto do ensaio de Jorge Luis Borges, “Kafka e Seus Precursores”, que deve ser lido com cuidado para que se evite que todos os gatos sejam vistos como pardos à noite.

 

A variedade de fontes relevantes que nosso livro contém é tão vasta que nos parece assombroso que, na resenha, esse fato tenha sido negado. Evidentemente, algumas dessas fontes já haviam sido examinadas anteriormente, o que reconhecemos nos agradecimentos, no corpo do texto, nas notas e na bibliografia. Entretanto nosso livro é uma biografia cultural, não uma discussão das milhares de interpretações da obra de Freyre. A apresentação de documentação nova é enorme.

 

Para mencionarmos apenas alguns exemplos, a documentação sobre o Colégio Americano Batista -particularmente as publicações de Freyre no Lábaro; manuscritos inéditos; coleções de periódicos regionais; partes de sua correspondência ativa e passiva; as anotações dos cursos oferecidos na Universidade de Stanford, de central importância para compreender a gênese de “Casa-Grande e Senzala”.

 

Novos enfoques

 

A tais exemplos pode-se somar o estudo sistemático das leituras e ensaios de Freyre que são examinados, pela primeira vez, em seu contexto e em conjunto. A relação de Freyre com os críticos norte-americanos, como Randolph Bourne, Van Wyck Brooks e outros, lança uma luz diferente sobre o suposto racismo paradigmático na cultura norte-americana dos anos 1920.

 

Na biografia, são abundantes as interpretações originais baseadas em novos enfoques, desde a leitura do “Ulisses” de Joyce feita por Freyre até a relação intelectual com Franz Boas, passando por Lafcadio Hearn, Joaquim Nabuco e Sérgio Buarque de Holanda, entre muitos outros.

 

Quanto ao uso das fontes, principalmente os textos de Freyre, em geral foi feita uma distinção entre as opiniões ou interpretações do biografado e o contexto reconstruído mediante outros documentos. Esse procedimento ocupa lugar central em algumas partes do livro, por exemplo, na visão idealizada que Freyre projeta de Nuremberg, Paris e Oxford, assim como o superdimensionamento de seu próprio papel em diversas circunstâncias. Inclusive na análise de sua infância se faz alusão às distorções da memória encontradas em seus textos.

 

Evocações da infância

 

Isso, entretanto, não impede a utilização de tais documentos como evocações sugestivas de sua infância. Em toda investigação de grande vigor e complexidade, existem erros e omissões que devem ser revisados.

 

Nesse sentido, sempre será bem-vinda a crítica construtiva. Não nos consideramos proprietários nem aspiramos ao monopólio da vida de qualquer intelectual morto. Tampouco a unanimidade nos interessa. Porém uma discussão das interpretações do livro em relação aos aspectos centrais e candentes da obra de Freyre -a atitude perante a modernidade, a apropriação criativa das diversas tradições culturais, o racismo, as noções de raça e cultura, a interpretação da cultura nacional- seguramente teria proporcionado a possibilidade de um intercâmbio intelectual mais substancial e de maior proveito aos leitores.

 

ENRIQUE RODRÍGUEZ LARRETA é antropólogo e diretor do Instituto do Pluralismo Cultural da Universidade Candido Mendes (RJ).

 

GUILLERMO GIUCCI leciona na pós-graduação em letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Este texto foi publicado no caderno Mais! do último dia 9


GILBERTO FREIRE – biografia polêmica

Dezembro 16, 2007

Historiadores fazem restrições à biografia de Gilberto Freyre

 

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE e
PETER BURKE

Especial para a Folha

 

Dada a importância de Gilberto Freyre na história intelectual do Brasil, ele certamente merece uma biografia extensa que acompanhe o desenvolvimento de seu pensamento, colocando seus muitos livros e artigos em seus contextos culturais.

 

O livro de Enrique Larreta e Guillermo Giucci ["Gilberto Freyre - Uma Biografia Cultural", tradução de Josely Vianna Baptista, ed. Civilização Brasileira, 714 págs., R$ 80] propõe-se a fazer exatamente isso, mas se restringindo ao período 1900-1936. Os autores reivindicam a novidade de seu ambicioso empreendimento referindo-se ao “exame preciso da documentação histórica” a fim de corrigir uma falha nos estudos freyrianos, marcados, como dizem, por “um hiato entre o conhecimento de fontes primárias sobre Gilberto Freyre e a acumulação de comentários baseados em leituras secundárias”.

 

Infelizmente o livro não é tão inovador quanto os autores pretendem. Diferentemente de vários estudos recentes como, por exemplo, os de Ricardo Benzaquem, Ronaldo Vainfas, Marcos Chor Maio, Antonio Dimas, Simone Meucci e Jeffrey Needell, ele não oferece ao leitor nem novas interpretações do trabalho de Freyre nem a apresentação e discussão de novos documentos importantes. É, ao contrário, essencialmente um trabalho de síntese.

 

Ora, trabalhos de síntese são obviamente indispensáveis, e tão mais bem-vindos quanto escritos de modo acessível e fluente como este.

 

No entanto, mesmo como um trabalho de síntese, a nova biografia está aberta a sérias críticas, duas em especial: utiliza acriticamente muitas de suas fontes e reconhece insuficientemente o trabalho de outros estudiosos de Freyre. Os dois autores contam a história do jovem Freyre (em detalhes nem sempre significativos) baseando-se amplamente nas palavras do próprio biografado, um autor que falava muito de si mesmo e que, como tantas figuras ilustres, esteve muito envolvido na sua auto-apresentação.

 

Textos de Freyre -desde o conhecido “diário” “Tempo Morto” [Global], que é uma autobiografia em forma de diário, até os menos conhecidos, como um longo manuscrito autobiográfico, a ser publicado proximamente também pela Global- são citados e amplamente parafraseados, fazendo com que grande parte dos capítulos iniciais da biografia seja um pastiche do rico material autobiográfico que Freyre deixou.

 

“Ficções da memória”

 

Apesar de Larreta e Giucci estarem aparentemente conscientes da propensão de Freyre para o que eles chamam de “automistificação” ou “auto-estilização” e de se referirem em nota ao caráter problemático de “Tempo Morto” como fonte histórica, eles desconsideram suas próprias advertências, lendo literalmente como narrativa de vida o que não passa, muitas vezes, de “ficções da memória”, ou seja, palavras de um homem maduro, de prosa brilhante e convincente, revivendo sua juventude.

 

Como resultado, vemos opiniões de Freyre sendo apresentadas como fatos consagrados, enganos serem perpetuados e recordações idealizadas pela nostalgia sendo tomadas como documentação de realidades vividas. Para só mencionar dois exemplos, seu amigo Bilden não “afogou-se no álcool” e Oscar Wilde não era “considerado vulgar” na Oxford que Freyre conheceu, como é afirmado.

 

Com um sistema de notas nada convencional, para não dizer totalmente falho, que confunde o leitor, ao invés de esclarecê-lo, o livro lhe dá a entender que esses são “fatos” pesquisados pelos autores, quando são, na verdade, opiniões de Freyre. É ele que escreve em “Tempo Morto” que em Oxford “quase não se fala de Oscar Wilde. É considerado vulgar”.

 

Já o modo como os autores tratam de seus muitos predecessores no estudo de Gilberto Freyre levanta outras sérias questões sobre procedimento intelectual. Muitas vezes eles resumem interpretações de outros estudiosos sem dar as devidas referências no texto ou em notas, de tal modo que leitores incautos ou desinformados provavelmente lhes darão crédito por descobertas e interpretações que não são originalmente suas. Mas, muito mais importante do que isso, tal procedimento representa uma grande descortesia para com o leitor e um empobrecimento lamentável do diálogo intelectual.

 

Biografia interrompida

 

Para citar um único exemplo, em três ocasiões eles discutem o diálogo de Freyre com autores espanhóis, como Angel Ganivet, sem fazer nenhuma referência ao livro de Elide Rugai Bastos, “Gilberto Freyre e o Pensamento Hispânico” [Edusc], que trata magistralmente do mesmo assunto. A parte mais valiosa e original do livro não é tanto a biografia, mas os comentários de textos de Freyre e de seus contemporâneos, incluindo a discussão dos primeiros críticos de “Casa-Grande e Senzala” [ed. Global], apesar de que aqui novamente os autores devem mais do que admitem ao seu predecessor Edson Nery da Fonseca.

 

A biografia é interrompida em 1936 e é afirmado que a partir dessa época a obra de Freyre seria “sobretudo a ampliação e o desenvolvimento das idéias e intuições anteriores”. Para quem acredita, no entanto, que uma biografia tem de dar espaço para as transformações, o fluxo e as contingências da vida -e resistir ao impulso de estruturar a vida de alguém muito cedo e redutoramente num padrão de explicação- resta muito a ser feito.

 

No nosso entender, um grande desafio é agora reconstruir, analisar e interpretar as atividades e o pensamento de Freyre entre 1936 e 1987, quando ele se tornou um ídolo, ou uma “instituição nacional”, como dizem os autores, e, tal como um monumento coberto de grafite, passou a ser venerado por uns e execrado por outros.

 

MARIA LÚCIA PALLARES-BURKE é professora aposentada da USP e pesquisadora associada do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge. É autora de “Gilberto Freyre – Um Vitoriano dos Trópicos” (Unesp).

 

PETER BURKE é professor de história cultural da Universidade de Cambridge e autor de “Uma História Social do Conhecimento” (Zahar). Escreve na seção “Autores”, do Mais!.

 

Este texto foi publicado no caderno Mais! do último dia 2

 

Retirado daqui:


“A Cultura das Aparências” – Daniel Roche

Dezembro 16, 2007

Da sociologia à arte, “A Cultura das Aparências” analisa a evolução das roupas nos séculos 17 e 18

JOÃO BRAGA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Que maravilha! Que intensidade! Que maravilha de texto, que intensidade de conteúdo! Historiografar à francesa é sem dúvida obedecer a uma metodologia de pesquisa e um rigor com a veracidade dos fatos que todos os historiadores deveriam seguir como exemplo.
A Escola dos Annales deixou um legado científico para a historiografia e uma maneira muito abrangente de pesquisar não só a “grande história” mas especialmente as “pequenas histórias” por meio dos vieses que outrora não eram observados como fonte de informação.
A excelência do texto de Daniel Roche ["A Cultura das Aparências"] já nos é antecipada pelas palavras do jornalista e professor Tarcísio d’Almeida na orelha do livro e na apresentação à edição brasileira, escrita pela professora Denise Bernuzzi de Sant’Anna.
Roche é um historiador francês, nascido em 1935, que trabalha especialmente com as histórias cultural e social francesas do Antigo Regime. É professor honorário no Collège de France desde 1998 e titular da cadeira de história da França iluminista. Além de professor universitário e pesquisador, é também diretor do Instituto de História Moderna Contemporânea e diretor, com Pierre Milza, da “Revista de História Moderna e Contemporânea”.
Sua carreira é fascinante e sua literatura é de primeira ordem, dando à França e, por extensão, ao mundo uma produção bibliográfica importantíssima no campo dos estudos históricos da cultura e da sociedade por meio de diversos títulos. Trata-se, portanto, de um dos historiadores mais respeitados da atualidade.

Luzes
O seu título “A Cultura das Aparências – Uma História da Indumentária (séculos 17-18)”, editado originalmente em francês em 1989 (Fayard) e já traduzido para o italiano em 1993 (Einaudi) e para o inglês em 1994 (Cambridge), é agora acessível em português, magistralmente traduzido por Assef Kfouri (que acrescenta excepcionais “notas do tradutor”).
Chega em momento oportuno para a crescente academia de moda no Brasil. Seu texto é memorável e de extrema valia para a compreensão da moda num momento de grandes transformações intelectuais e culturais como o foi o século das Luzes e, obviamente, sua continuidade de percurso.
Entende-se como a França, especialmente Paris, adquiriu o posto de epicentro criador e difusor de moda para o mundo por meio de estudos e conclusões como, por exemplo, nos é dito na página 301: “O passado, que molda silenciosamente o futuro”.
Roche, com uma citação de Rousseau, à página 514, legitima que “o signo diz tudo antes que se fale”, e parece que nessa frase está contida toda a essência de “A Cultura das Aparências”, tão praticada, difundida e assimilada pelas mentalidades e comportamentos seiscentistas e setecentistas.
De Luís 14 a Luís 16, Roche percorre as “Luzes” por meio de uma riqueza de pesquisa em fontes primárias, incluindo gráficos e tabelas, fundamentais ao historiador ou ao interessado em história. As roupas e a moda são minuciosamente estudadas em quatro capítulos maiores e inúmeras subdivisões específicas por meio de diversos olhares e vieses.
Discursa com propriedade sobre a “revolução indumentária”, contando-nos processos historiográficos e leis suntuárias. Descreve-nos as roupas brancas, trajes de corte, paramentos, andrajos, roupas campesinas e folclóricas, uniformes, trajes militares, tecidos e tinturarias.
Elucida-nos os profissionais de então, tais como alfaiates, modistas, cabeleireiros, tintureiros, costureiras, bordadeiras, cerzideiras, comerciantes, vendedores e revendedores.
Informa-nos de hábitos não idôneos, como os roubos de roupas, e também da importância econômica para os indivíduos e para a sociedade das vestimentas, desde as meias até os redingotes. Fala-nos do comércio, da lavagem e manutenção das roupas, dos hábitos dos penteados e das perucas, além de enumerar e esclarecer provérbios relativos às roupas e à moda.

Intertextualidade
Não ficam esquecidos as utopias e os romances que descrevem os trajes, e, substancialmente, ele também analisa os aspectos e compreensões sobre o luxo; estuda o corpo, as bonecas de moda e historiografa o surgimento da imprensa de moda.
Familiariza-nos tanto com a nobreza quanto com os menos favorecidos materialmente. Como se não bastasse, Roche intertextualiza seu trabalho com diversos outros autores franceses e estrangeiros ao longo de todo o livro, o que enriquece e complementa o conteúdo. Não só cita grandes nomes do passado, como Rouseau, Diderot e D’Alambert, entre outros filósofos e enciclopedistas, como também nomes atuais tão conhecidos no Brasil como Norbert Elias, Gilles Lipovetsky e Yvonne Deslandres e autores de inúmeras dissertações e teses.
Percorre a sociologia, a antropologia, a história cultural, a economia, a religião, as artes para nos esclarecer sobre as roupas. Isso tudo ainda podendo nos favorecer a inúmeras associações com o atual mundo da moda, por meio de esclarecimentos históricos que permitam a compreensão dos tempos presentes.
Roche, com sua erudição histórica, nos dá “A Cultura das Aparências”, que se torna de indispensável leitura para eruditos, profissionais e iniciantes ao universo da moda, além, obviamente, para os estudantes da área. Verdadeira obra de referência. Ler e reler, eis a sugestão.


JOÃO BRAGA é pesquisador e professor de história da indumentária e da moda na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), em SP.

A CULTURA DAS APARÊNCIAS
Autor:
Daniel Roche
Tradução: Assef Kfouri
Editora: Senac-SP
Quanto: R$ 82 (528 págs.)


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Os limites da diversidade cultural – ANTÔNIO CÍCERO

Dezembro 15, 2007


O direito à diversidade cultural tem que ser o direito à experimentação em arte, filosofia e ciência

A DECLARAÇÃO Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO define a cultura como “o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as maneiras de conviver, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.
Quanto a artes e letras, é claro que tudo o que a humanidade já fez constitui um patrimônio a ser preservado e disponibilizado à fruição da presente e das futuras gerações.
Quanto a modos de vida, maneiras de conviver, sistemas de valores, crenças e tradições, porém, a situação é outra. Alguns são admiráveis e devem ser preservados; outros são abomináveis -etnocêntricos, racistas, sexistas, intolerantes- e devem ser combatidos.
Apropriadamente, o artigo 4 da Declaração Universal sobre Diversidade Cultural, intitulado “Os Direitos Humanos, Garantias da Diversidade Cultural” afirma, com razão, que “a defesa da diversidade cultural [...] implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais, em particular os direitos das pessoas que pertencem a minorias e os dos povos autóctones. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional, nem para limitar seu alcance”.
Infelizmente, porém, desde antropólogos até obscurantistas religiosos têm, em nossos dias, invocado a ideologia do relativismo cultural para justificar todo tipo de violação dos direitos humanos. Segundo eles, tais direitos pertencem à cultura ocidental, onde surgiram, de modo que tentar exportá-los para culturas que não os reconhecem violaria o direito destas à diversidade.
Assim, foi com base no relativismo cultural que neste ano, na Alemanha, uma juíza -citando o Alcorão, que reserva ao homem a prerrogativa de castigar a esposa em certos casos- recusou-se a conceder o direito à antecipação do divórcio a uma mulher que era regularmente surrada pelo marido muçulmano. Ou seja, em nome do direito à diversidade cultural, desrespeitaram-se os direitos humanos dessa mulher.
Ora, os direitos humanos não são um produto da cultura ocidental. Na Europa, o reconhecimento deles foi uma vitória da razão -que só o mais tacanho etnocentrista classificaria de “ocidental”- exatamente sobre as tradições culturais bárbaras do Ocidente medieval.
De todo modo, a menos que seja tomada como uma aplicação particular dos direitos humanos, a Declaração Universal sobre Diversidade Cultural não pode ser levada a sério. Por quê? Porque cada unidade cultural ampla contém ou é capaz de conter minorias, isto é, unidades culturais menores. A proteção da diversidade cultural falhará, a menos que proteja também o direito à diversidade de cada uma dessas unidades menores.
Pois bem, a menor unidade concebível é o indivíduo. Por exemplo, um único judeu -ou ateu, ou budista- que viva entre evangélicos constitui uma unidade cultural minoritária. Embora, portanto, a declaração em questão tenha em vista proteger a diversidade cultural de unidades culturais maiores do que a de um indivíduo, essa proteção será em última análise deficiente, a menos que se estenda ao indivíduo; e este é o sujeito dos direitos humanos. Portanto, para ser consistente, o direito à diversidade cultural tem que ser pensado como um direito humano: o direito de cada indivíduo humano à diversidade.
Esse direito me traz de volta à definição de cultura da UNESCO. Eu disse que tudo o que já se fez em matéria de artes e letras constitui um patrimônio a ser preservado e disponibilizado à apreciação da presente e das futuras gerações. No entanto, é preciso não esquecer que tudo o que já se fez, conquanto importante, é apenas um conjunto de possibilidades que se realizaram. Há, porém, infinitas outras possibilidades a se realizarem, algumas das quais só se manifestam historicamente, a partir do desenvolvimento tecnológico. O direito à diversidade cultural tem que ser, portanto, o direito à experimentação e ousadia em arte, filosofia, ciência, tecnologia etc.
E aqui penso que é preciso ir além e afirmar que o direito à diversidade cultural, estendido até o indivíduo e tendo como fundamento último e intransponível os direitos humanos, deve garantir a liberdade de experimentação também no que diz respeito a novos -para usar as palavras da mesma definição- modos de vida, maneiras de conviver, sistemas de valores e maneiras de lidar com a tradição e as crenças.

 


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LARANJA MECÂNICA – EDIÇÃOESPECIAL – DVD

Dezembro 12, 2007

Laranja Mecânica – Edição Especial

Divulgação

No futuro próximo, na Inglaterra, uma gangue de jovens ataca, estupra e mata. Um deles é capturado pelo governo e passa por uma lavagem cerebral que lhe traz repulsa à violência.

 

Embora nunca tenha sido oficialmente proibido pela censura brasileira (que aconselhava a produtora Warner apenas a não apresentar oficialmente o filme para sua avaliação), “Laranja Mecânica” só estreou no Brasil em setembro de 1978, assim mesmo com uma cópia que havia sido feita para o Japão, com bolinhas negras para cobrir os pelos pubianos e outros lugares estratégicos. Mas representantes de Kubrick checaram a cópia e aprovaram as legendas.

O jovem Malcolm McDowell havia sido revelado pouco antes em “If” e foi idéia dele usar “Cantando na Chuva” numa cena-chave da fita. Quem prestar atenção verá uma citação de outro filme de Kubrick, “2001″ (a capa do disco numa loja). Foi indicado ao Oscar de melhor filme, roteiro e direção.

A dificuldade começa pelo título, que nunca é explicado. Parece que o autor do livro original, Anthony Burgess, se inspirou numa velha expressão “cockney” (inglês popular de Londres), que dizia “fulano é doido como uma laranja de corda”. Mais tarde, uma viagem pela Malásia, onde “orang” quer dizer “humano”, lhe deu a idéia de fazer anagramas (“orang” – “organ” – “organizar”), chegando a uma conclusão lingüística: o ser humano, quando organizado pelo poder dominante, vira uma laranja mecânica. Por isso, também o livro e o filme utilizam vocabulário próprio. Segundo Kubrick, o filme poderia ser interpretado de três maneiras:

a) como uma sátira social sobre o emprego de condicionamento psicológico; b) como um conto de fadas sobre a Justiça e o Castigo; c) como um mito psicológico, “uma história construída em torno da verdade fundamental da natureza humana”.

A sátira sobre o condicionamento parece clara no filme, mostrando que a sociedade se baseia no poder e nas mentiras, tanto da direita, quanto da esquerda. Em conseqüência, um homem condicionado a ser bom em todas as circunstâncias seria completamente vulnerável. Diz Kubrick: “Temos uma civilização altamente complexa, que requer uma autoridade política e uma estrutura social igualmente complexas. A idéia de destruir a autoridade para surgir a bondade natural do homem é um critério utópico e ‘falacioso’. Todos os nossos esforços vão parar em mãos de desonestos, já que a culpa reside na natureza imperfeita do homem mesmo.”

Assim, “Laranja” é basicamente uma parábola sobre a manipulação do homem pelo Estado. Conta a história de Alex (Malcolm McDowell), um jovem revoltado, precursor da moda punk, interessado na chamada “ultraviolência”, sexo e Beethoven, que é escolhido para uma experiência de condicionamento, uma verdadeira lavagem cerebral que o torna refratário à violência, fazendo-o vomitar cada vez que se defronta com um ato violento.

O tratamento é um sucesso, embora por engano Alex fique também condicionado contra Beethoven, cuja música servia de fundo para um dos documentários usados em sua cura. E logo o herói se torna vítima da manipulação política dos Partidos. Completamente indefeso, é levado ao suicídio pela Oposição e depois utilizado pela Situação novamente.

O que o filme quer mostrar é que, no fundo, todos nós somos laranjas mecânicas, somos submetidos a lavagens cerebrais contínuas que nos condicionam e governam; às vezes de forma subliminar, a ponto de não tomarmos conhecimento delas, às vezes de maneiras mais óbvias, por meio das solicitações da sociedade de consumo.

O filme é um brado de alerta e conscientização contra isso, mas talvez tenha errado numa questão de dose, ao pedir que nos identifiquemos com um herói como Alex, desordeiro e irresponsável. A tendência do espectador é ficar a favor do governo, achando que eles fazem muito bem em transformá-lo num “bom cidadão”, sem perceber a terrível violação dos direitos humanos, a violência cometida contra a individualidade, que acontece todos os dias sem que nos demos conta.

Assim, todo comportamento anti-social – de artistas, de gênios, de todos aqueles que fogem da chamada “normalidade” – seria também condicionado da mesma maneira. Esse perigo existe porque Alex é um vilão simpático e não é fácil concordar com um diretor frio como Kubrick, que o apresenta como “o homem natural, no estado que veio ao mundo, sem freios ou repressões. Quando recebe o tratamento de Ludovico, pode-se afirmar que este simboliza a neurose, criada pelos conflitos entre as restrições impostas por nossa sociedade e nossa natureza primitiva. Por essa razão, ficamos felizes quando Alex se cura”.

Será mesmo que todos se alegram? Alguns nem chegam a entender direito a dimensão da cura de Alex. Essa ambigüidade é um dos problemas do filme, que provocou as opiniões mais desencontradas em toda a parte. Certas pessoas se horrorizam com sua violência, mas na verdade ela é estilizada, mostrada quase como um balé, ou pop art, nunca de forma literal. Aliás, a trilha musical é extraordinária, com obras de Elgar, Purcell, Puccini e, naturalmente, Beethoven, que dão ao filme muito de sua atmosfera. Tecnicamente, o filme abusa um pouco de grandes angulares, lentes deformantes. Mas tem um extraordinário poder hipnótico.

Na enigmática cena vitoriana final, há a busca de uma qualidade ideal, procurada por Kubrick. Diz ele: ” ‘Laranja’ se comunica num nível subconsciente, e o público reage diante da configuração básica da história, como se fosse um sonho. E discutem o sentido da cena final. Como os outros sonhos mostravam assassinato, dor e morte, a erótica cena final sugere que ,de alguma maneira, a mente de Alex se transformou e se apaziguou”. Enquanto o livro de Burgess é uma amarga sátira aos paradoxos do livre-arbítrio, o filme continua a provocar discussões. Afinal, temos que defender os que não gostam dele, se não corremos o risco de todos nós acabarmos virando “laranjas mecânicas”.

Título original: A Clockwork Orange (EUA, 1971)
Diretor: Stanley Kubrick
Elenco: Malcom McDowell, Michael Bates, Patrick Magee, Adrienne Corri, Warren Clark, Anthony Sharp
Extras: disco 1 – trailer e comentários sem legenda de Malcolm Mc Dowell e Nick Redman; disco 2 – “O Tempo Não Pára: O Retorno de Laranja Mecânica”; “Grande Boliche Larbos!: O Making of”; “O Malcolm Sortudo”
Idioma: Inglês e Português 5.1
Legendas: Português e Inglês
Gênero: Drama
Duração: 136 min. Cor
Distribuidora: Warner

 

Retirado daqui: Corram lá 


“D. João 6º oficializou biopirataria”

Dezembro 8, 2007

Jornalista lança livro sobre história do Jardim Botânico do Rio e diz que “mística dos príncipes” permitiu sua sobrevivência

“O Jardim de d. João” mostra que local foi essencial para o tráfico de especiarias, frutas, resinas, madeira e plantas medicinais

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

Quem se escandaliza com a interminável discussão que hoje se desenrola sobre biopirataria deveria ler “O Jardim de d. João”, da jornalista e escritora Rosa Nepomuceno. Além de trazer a história do jardim botânico mais famoso do Brasil, a autora mostra como o espaço foi importante para estruturar uma prática comum na época.
Publicado dentro das comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil, o livro mostra como a transferência da corte serviu para criar e multiplicar os hortos de aclimatação essenciais para o desenvolvimento do tráfico de plantas. Os portugueses tinham espiões nos dois grandes hortos franceses (na atual Guiana Francesa e em Maurício, no oceano Índico), cooptando pesquisadores para trazer informações e sementes de especiarias, frutas, resinas, madeira ou plantas medicinais.
“A pirataria sempre correu solta, mas ela se oficializou em 1809, quando d. João 6º mandou invadir a atual Guiana Francesa e levou os portugueses a se estabelecerem na região, entre 1810 e 1817. Inclusive manuais e as técnicas para plantio foram apropriadas”, diz Nepomuceno, que também é autora de “O Brasil na Rota das Especiarias” (José Olympio).

Produção de chá
Ainda que “estrangeiras” como a manga já tivessem sido incorporadas, o Jardim Botânico do Rio, destinado em seu início a uma fábrica de pólvora, serviu para inaugurar em solo brasileiro a produção da cânfora, noz-moscada e lichia, entre outras plantas. Também foi o laboratório de produção de chá, quando ainda não se sabia o papel que o café ocuparia na economia nacional. Para isso, em 1814, foram trazidos 300 chineses de Macau.
Nem tudo foram rosas na história do horto. Como aponta a historiadora Isabel Lustosa no prefácio, o jardim conseguiu se preservar até o período regencial, mas foi justamente com o ilustrado d. Pedro 2º que o local foi desfigurado e quase desapareceu.
Ironicamente, foi com o advento da República que o jardim da realeza entrou na sua era mais rica, retomou o papel de pesquisa e sofreu uma guinada, adquirindo status de campo de pesquisa científica que serviu de referência no país e no exterior.
Para a autora, se não fosse a aura que cerca a família real, o jardim não teria sobrevivido. “Foi a mística de ter sido o jardim de d. João, dos príncipes e de dona Leopoldina que permitiu o milagre da sobrevivência, não tenho dúvida disso.”
O próprio d. João 6º está ligado à planta mais famosa do local, que virou símbolo de status no século 19. Tudo indica que foi ele quem semeou no local a planta mater da palmeira imperial, ícone tipicamente brasileiro de status e poder. Todas as mudas, que depois se espalharam pelo país e ornaram as fazendas do baronato do café no vale do Paraíba e em tantas regiões brasileiras, são descendentes da leva trazida por d. João 6º. Espécie das Antilhas e da Venezuela que foi cultivada pelos franceses em Maurício, a palmeira imperial foi trazida pela lábia de um oficial da Armada Real Portuguesa, que “subtraiu” 20 caixotes do Jardim de la Pamplemousse. A própria planta do príncipe regente sobreviveu 162 anos, até ser fulminada por um raio em 1972.


O JARDIM DE D. JOÃO
Autora:
Rosa Nepomuceno
Edição: Dona Rosa Produções/Casa da Palavra
Quanto: R$ 58 (176 págs.)
___________FONTE: Folha de São Paulo. Só para assinantes. 


Uma notícia (típica) sobre Knut;-)

Dezembro 5, 2007

Rejeitado pela mãe e criado por humanos, Knut vira símbolo político e fonte de negócios na Alemanha

RAUL JUSTE LORES
EM BERLIM

Rejeitado pela mãe ao nascer, alimentado com mamadeira no zoológico, cercado apenas por humanos, o filhote de urso polar Knut, cinco meses, renderia um choroso melodrama da Disney ou em Hollywood. Quase como um Mogli às avessas.
Mas, na Alemanha, onde vive no Zoológico de Berlim, a saga de Knut virou uma autêntica novela, que encanta os alemães, que não se cansam de acompanhar o passo a passo desengonçado do ursinho. Nas bancas de jornais, Knut está em todas as capas, das revistas científicas e de ecologia às de fofocas e infantis. Bonecos de pelúcia do Knut são vendidos em vários pontos de Berlim a preços de 5 a 9 (R$ 14 a R$ 26).
Há cartões de crédito, músicas, programa de tevê, um cafonérrimo boneco de porcelana, além de bonés, camisetas e cartazes, tudo com sua imagem.
Knut é o primeiro filhote de urso polar nascido no zoológico de Berlim nos últimos 30 anos. A saga do urso começou em dezembro, poucos dias após o nascimento, quando Knut e seu irmãozinho foram rejeitados pela mãe, que se negou a amamentá-los.
O irmão morreu pouco depois. Seria o mesmo o destino de Knut, que começou a ser alimentado com mamadeiras por funcionários do Zôo de Berlim. A tevê e os jornais se encarregaram de criar um Baby Big Brother em cima do filhote.
No final de março, quando foi apresentado pela primeira vez ao público, diante de 300 jornalistas e cobertura ao vivo da CNN, Knut virou uma estrela internacional.

Negócios e ciúmes
O Zoológico de Berlim registrou a marca Knut e colocou o ursinho na primeira página de seu site na internet. Knut tem blog, escrito pelos tratadores.
De 5.000 visitantes diários, o Zoológico passou a 15 mil. Nas duas primeiras semanas de exposição pública de Knut, foram 30 mil visitantes – 40 mil nos feriados da Semana Santa.
O ingresso para adultos do Zôo é de 11, a tarifa reduzida para estudantes, idosos e desempregados é de 8 e crianças de 5 a 15 anos pagam 5,50. A reportagem da Folha esteve no zoológico no mês passado. Apesar de estar em uma altura privilegiada, pouco se vê do ursinho, no meio da multidão. Mas as pessoas aplaudem qualquer pirueta do animalzinho.
Os telejornais acompanham seu passo a passo desengonçado. Já foram motivos de manchete em horário nobre sua primeira febre e as dores quando nasceram os primeiros dentes caninos. Estressado, o horário de exposição pública de Knut foi reduzido a duas horas diárias nas últimas semanas.
Ambientalistas sugeriram que o ursinho fosse sacrificado, pois não seria natural que crescesse como um bebê. Algo que causou discussão internacional. A favor de Knut, claro.

Acusado de morte
Mas, localmente, jornais berlinenses acusaram Knut de responsável pela morte da ursa panda Yan Yan, 22.
Ela morreu pouco depois do início da visitação pública de Knut. Reportagens diziam que o excesso de visitantes no zoológico teria alterado a rotina de Yan Yan. Ciúmes? Depressão? Não faltaram especulações.
O Ministério do Meio Ambiente da Alemanha anunciou que Knut será o “garoto-propaganda” da conferência da ONU sobre a diversidade biológica que acontecerá em Bonn, em maio de 2008.
Prova do apelo internacional do bebê-urso é a capa da atual edição da revista americana “Vanity Fair”, a bíblia do glamour. Lá ele posa, fotografado por Anne Leibovitz, ao lado do ator Leonardo Di Caprio.
Para Jörn Ehlers, diretor do escritório alemão da organização não-governamental WWF (iniciais em inglês de Fundo Mundial para a Natureza), o sucesso de Knut é “bem vindo”. “Ele chama atenção para várias espécies selvagens que estão em extinção, por culpa das mudanças climáticas.”
Com apenas cinco meses de idade, a vida amorosa de Knut já é debatida na Alemanha. O zoológico da cidade de Gelsenkirchen, no vale do Ruhr, pediu que Knut seja “emprestado” para se acasalar com Lara, uma ursa polar de dois anos. Knut ainda não se pronunciou.

(DER SPIEGEL – BEAR CUB